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Adriana Calcanhotto lança “Só”, álbum com canções da quarentena

Texto: Eduardo Fonseca
29 de maio de 2020
em Música
Adriana Calcanhotto-LeoAversa_Easy-Resize.com
Foto: Leo Aversa

O mundo parou em março quando foi decretada pandemia. E o tempo ganhou novo sentido. Só que a arte subverte, como sempre, tempo e espaço brota no novo disco de Adriana Calcanhotto, “SÓ canções da quarentena” – um trabalho concebido, composto, registrado e lançado durante a quarentena.

“SÓ” é urgente dessa forma. Basta colocar em comparação com “Margem”, o trabalho anterior de Adriana, que foi lançado em 2019 mas trazia uma década de elaboração e sete anos de ausência de gravações de estúdio. O álbum novo foi composto, produzido, gravado e mixado em 43 dias, entre 27 de março e 8 de maio.

“Em onze dias eu tinha trinta minutos de música. É um álbum em estado bruto”, diz a cantora e compositora.

Mas não confunda com um disco feito às pressas. “SÓ” é fruto de um método tão novo para Adriana quanto adaptado ao que o mundo se tornou com a proliferação da covid-19.

Ela foi impedida de voltar para Coimbra, em Portugal, onde leciona e é embaixadora da universidade que carrega o nome da cidade. No Rio de Janeiro, seu relógio artístico passou a despertá-la todos os dias com o desafio de compor uma música até a hora do almoço.

“Como se tivesse a missão de fazer pão todos os dias. Mas não sei fazer pães, só sei fazer canções”.

O sentido é completo pela temática das músicas, pela ordem cronológica de composição em que as nove faixas formam o repertório do disco e pela forma em que foi arranjado, gravado e produzido, entre São Paulo, Rio, Belém, Salvador, Orlando e Tóquio. Cada faixa, aliás, terá renda revertida para instituição escolhida pela artista.

Quem encabeçou a produção, junto a Adriana, foi o compositor Arthur Nogueira.

Ela já havia feito um trabalho de pré-produção em casa, sozinha, cantando sobre bases que apontavam as intenções iniciais das músicas. A partir disso, Nogueira propôs novos caminhos, moldou a sonoridade junto ao núcleo criativo com STRR (pronuncia-se “star”) e Leo Chaves, que atuaram como instrumentistas, arranjadores e engenheiros de som.

Os três são de Belém e ajudaram na convocação da seleção indicada por Adriana e Andrea Franco, sua empresária e produtora executiva do álbum. Seleção que incluiu Allen Alencar (guitarra), Zé Manoel (piano), Diogo Gomes (sopros), Bruno di Lullo (violão), Rafael Rocha (percussão), Bem Gil (violão), Thomas Harres (bateria e percussão) e Chibatinha (guitarra). A diferença, para todos, é que cada um teria que realizar seu trabalho respeitando o isolamento. E assim foi.

“SÓ” (o nome é auto-explicativo) começa com “Ninguém na Rua”, título igualmente que dispensa esclarecimento, em MPB amparada em batida funk que Adriana extrai do violão.

“Era Só” é baseada em dois vértices – um treinamento de rimas que ela realizava pela Internet que ganhou (mais) vida com inserção de piano de Zé Manoel. O beat sintetizado ganhou contornos jazzísticos.

Nessa cadência, vieram na sequência “Eu Vi Você Sambar”, sobre uma certa guitarrada paraense, “O Que Temos”, que viaja pelo trip hop, jazz e um certo afoxé, “Sol Quadrado”, curta como um samba-repente em seu 1m45s, e “Tive Notícias Suas”, a traduzir as trombetas do noticiário em arranjos de metais acompanhados de violão, percussão e voz.

“Lembrando da Estrada” trata da saudade de tudo o que deixamos para trás no isolamento em clima road trip, “Bunda Lê Lê” reverte a face brincalhona de Adriana em parceria com Dennis DJ em seu funk “Corre o Munda”, é poética e bela como seu nome, que homenageia a denominação original do rio Mondego, que corta Coimbra.

Junto ao álbum, Adriana lançará sob a direção de Murilo Alvesso a versão audiovisual de “SÓ” em um grande clipe-sequência de todas as músicas registradas no quarto da artista. “Com todo o cuidado na gravação”, faz questão de garantir o fotógrafo e diretor.

Como bem diz Adriana, enquanto compunha e lança “SÓ”, “o planeta respira”.

(É) o que temos, conforme mais uma citação à obra. E o que temos é lindo. Assim como a dedicatória do álbum, a Moraes Moreira, que se foi durante a pandemia, mas que é imortal como toda arte.

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