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Anitta encontra seu auge artístico na extraordinária “Equilibrivm Tour”

Texto: Ygor Monroe
10 de agosto de 2026
em Destaques, Shows

Ser fiel a si mesmo talvez seja uma das tarefas mais difíceis para qualquer artista. Fazer com que essa fidelidade atravesse uma obra inteira, alcance um palco gigantesco e consiga ser reconhecida por milhares de pessoas ao mesmo tempo pertence a outro território. É justamente nesse lugar que Anitta chega com a “Equilibrivm Tour”, um espetáculo tão seguro de sua própria identidade que parece existir distante de qualquer necessidade de aprovação. Depois de anos transformando ambição em combustível, ela apresenta uma turnê construída pela força de quem finalmente parece confortável com tudo aquilo que se tornou.

Anitta encontra seu auge artístico na extraordinária “Equilibrivm Tour”
Anitta encontra seu auge artístico na extraordinária “Equilibrivm Tour”

O resultado impressiona porque não existe tentativa de reproduzir o modelo tradicional de uma grande turnê pop. A experiência montada para “Equilibrivm” encontra força justamente ao recusar algumas dessas convenções. O espetáculo não começa interessado em disparar sucessos para conquistar imediatamente uma plateia de dezenas de milhares de pessoas. Não surge uma sequência explosiva de hits, uma coreografia pensada para viralizar ou uma introdução preocupada em provar o tamanho de Anitta. A primeira grande decisão da turnê é exigir atenção. Quem está diante daquele palco precisa entrar no universo proposto pela artista, compreender seu ritmo e aceitar que a experiência será conduzida por outra lógica.

Essa percepção começa muito antes da cantora aparecer. O Parque Villa-Lobos, espaço já conhecido pelo público de Anitta por outras apresentações, especialmente pelos “Ensaios da Anitta”, recebe dessa vez uma atmosfera completamente distinta. O aroma de incensos queimando atravessa o ambiente e antecipa que aquilo não será simplesmente mais uma visita da maior estrela pop brasileira a São Paulo. Existe uma preocupação sensorial que ultrapassa telas, luzes e figurinos. “Equilibrivm Tour” começa pelo ambiente porque deseja que o público seja transportado para dentro do projeto antes mesmo da primeira música.

Quando “Contemplação” abre efetivamente o espetáculo após a introdução, a escolha ganha sentido. “Ternura”, “É d’Oxum”, “Ogum Me Rodeia”, “Deus Mãe” e “Sem Pressa” aprofundam um primeiro momento que prefere construir atmosfera em vez de buscar euforia imediata. É uma decisão arriscada para uma artista acostumada a comandar multidões com repertório recheado de sucessos instantaneamente reconhecíveis. Também é uma decisão inteligente. Anitta entende que a narrativa precisa respirar para que o restante do show alcance a dimensão pretendida.

Parte do público ainda demonstra familiaridade menor com algumas músicas de “Equilibrivm” e “Equilibrivm 2”, especialmente nos primeiros momentos. Isso também diz muito sobre a maneira como os dois projetos chegaram ao público. Durante boa parte de sua trajetória, Anitta trabalhou dentro da dinâmica do single, permitindo que cada faixa ganhasse vida própria durante meses até que uma nova música assumisse aquele espaço. “Equilibrivm” opera de maneira diferente. É um corpo extenso, entregue como obra, pensado para ser absorvido em conjunto. Naturalmente, algumas composições ainda caminham rumo à familiaridade de repertório que seus grandes sucessos construíram ao longo dos anos.

Curiosamente, essa menor resposta coletiva em determinados momentos não enfraquece o espetáculo. Ela reforça uma das características mais interessantes da turnê. Cada pessoa parece experimentar “Equilibrivm” de maneira extremamente particular. Enquanto alguns acompanham cada palavra, outros observam os músicos, dançarinos, projeções, instrumentos e símbolos espalhados pelo palco. O show permite contemplação, dança, silêncio, catarse e descoberta dentro do mesmo espaço. Poucas produções pop de grande escala concedem ao espectador esse tipo de liberdade.

A excelência musical ajuda a sustentar essa proposta. A banda é extraordinária e ocupa uma função central na experiência. Percussões, metais, berimbau, tambores e diferentes texturas transformam músicas já conhecidas em organismos de palco. O cuidado dos arranjos impede que o concerto soe como a reprodução ampliada de um álbum. Existe vida em cada transição. Existe corpo. Existe peso. Existe Brasil. É uma equipe musical capaz de competir tecnicamente com qualquer grande produção internacional, mas cuja maior virtude está justamente em não tentar parecer internacional.

Esse ponto talvez seja fundamental para compreender o tamanho artístico da turnê. Durante anos, parte da discussão em torno da internacionalização de Anitta esteve ligada à capacidade da cantora de dialogar com os códigos do pop norte-americano, do reggaeton latino e da indústria global. “Equilibrivm Tour” realiza movimento praticamente oposto. O espetáculo alcança uma escala global enquanto se torna ainda mais brasileiro.

A própria voz acompanha essa transformação. A interpretação está mais aberta, natural e confortável dentro das novas músicas. Aquela emissão nasal que marcou determinados momentos de sua produção pop internacional perde espaço para uma abordagem vocal que conversa melhor com os arranjos orgânicos de “Equilibrivm”. Anitta parece menos preocupada em encaixar sua voz dentro de uma estética pronta e mais interessada em descobrir todas as possibilidades que sua própria musicalidade brasileira oferece.

Essa liberdade também aparece no corpo. Naturalmente, seguem presentes a precisão coreográfica, a sensualidade e o domínio físico que transformaram Anitta em uma performer reconhecida internacionalmente. A diferença está na intenção. O corpo deixa de funcionar somente como instrumento de impacto visual e passa a carregar parte importante da dramaturgia do espetáculo. Gestos, movimentos, figurinos e coreografias dialogam diretamente com espiritualidade, desejo, feminilidade, força e ancestralidade.

O segundo ato amplia essa potência. A mudança para tons vermelhos, a presença das referências a Pombagira, Exu e Zé Pelintra e a sequência formada por músicas como “Desgraça”, “Mandinga” e “Feitiço” deslocam completamente a energia do palco. O que inicialmente carregava contemplação passa a assumir sedução, perigo, rua e magnetismo. A direção consegue trabalhar elementos religiosos sem transformar o sagrado em simples objeto cenográfico, justamente porque eles fazem parte do próprio universo que deu origem aos discos.

Esse é um limite particularmente delicado para qualquer espetáculo dessa escala. “Equilibrivm Tour” utiliza símbolos religiosos dentro de uma produção pop gigantesca, com figurinos, coreografias, efeitos visuais e câmeras projetando cada movimento. Ainda assim, o show transmite a sensação de que a fé não foi adicionada posteriormente como conceito visual. Ela é a base sobre a qual todo o restante foi construído. Isso muda completamente a leitura da produção.

Colocar referências do Candomblé e da Umbanda diante de uma multidão também possui um peso cultural impossível de ignorar. Em um país onde religiões de matriz africana continuam sendo alvo de preconceito e violência, ver uma estrela do tamanho de Anitta pronunciar nomes, cantar pontos, utilizar ritmos e apresentar símbolos ligados a essas tradições numa estrutura pop dessa magnitude possui significado próprio. A turnê não exige que seu público compartilhe da mesma fé. Ela exige respeito.

Existe coragem nesse movimento, especialmente considerando a dimensão pública da artista. Anitta poderia construir uma turnê completamente baseada nos números impressionantes acumulados desde “Show das Poderosas”. Poderia organizar duas horas de sucessos, coreografias conhecidas e momentos pensados para redes sociais. Provavelmente venderia os mesmos ingressos. Talvez enfrentasse menos controvérsia. Escolher colocar sua espiritualidade no centro do maior espetáculo de sua carreira demonstra uma artista mais interessada em comunicar alguma coisa do que simplesmente confirmar aquilo que o público já sabe sobre ela.

E então chega o terceiro ato.

Poucos momentos do pop brasileiro recente possuem a força visual e performática que essa parte do espetáculo alcança. O interlúdio dedicado a Exu prepara uma mudança de temperatura imediatamente perceptível. “Você Já Sabe”, “Choka Choka”, “Sal Grosso”, “Vai Dar Caô” e “Meia-Noite” transformam o palco numa sequência quase hipnótica. Se os primeiros atos constroem a linguagem da turnê, o terceiro é quando Anitta domina completamente aquilo que criou.

É o momento em que se torna difícil decidir para onde olhar. A cantora assume o centro, os bailarinos ampliam a dramaturgia, a banda cresce, as telas deixam de funcionar como simples apoio e passam a participar da narrativa. Pegar o celular para registrar alguma coisa parece quase um desperdício. Existe informação demais acontecendo simultaneamente e, paradoxalmente, tudo parece perfeitamente conectado.

“Oke”, apresentada com Brô MC’s e Katu Mirim, amplia ainda mais o sentido desse encontro cultural. A reprise atendendo ao pedido da plateia cria um dos raros momentos em que a rigidez de uma produção desse tamanho cede espaço para a espontaneidade. É importante que isso aconteça. Apesar de toda a precisão técnica, “Equilibrivm Tour” nunca parece aprisionada pela própria grandiosidade.

A chuva que atravessou a apresentação extra de São Paulo poderia comprometer qualquer espetáculo ao ar livre. Aqui, aconteceu quase o contrário. A água pareceu ampliar uma narrativa que já estava profundamente ligada à natureza, ao corpo, à espiritualidade e à transformação. Não porque uma tempestade carregue algum significado programado pela produção, mas porque alguns encontros entre palco e realidade simplesmente produzem imagens impossíveis de planejar. Anitta atravessando aquele espetáculo debaixo de chuva tornou a experiência ainda mais monumental.

“Lugar Perfeito”, “Lose Ya Breath” e “Boys Don’t Cry” encaminham o encerramento sem apagar aquilo que foi construído anteriormente. A presença de músicas mais diretamente associadas à trajetória pop da cantora funciona quase como uma lembrança da quantidade de versões de Anitta que precisaram existir para que esta pudesse chegar ao palco. A estrela internacional, a cantora de funk, a empresária obsessiva, a performer técnica, a figura controversa, a mulher religiosa e Larissa passam a ocupar o mesmo corpo.

Talvez por isso seja tão impressionante observar a tranquilidade da artista durante essa fase. Quem acompanha sua carreira desde os tempos da Furacão 2000 viu uma cantora constantemente em movimento, sempre planejando o próximo lançamento, o próximo mercado, a próxima língua, a próxima colaboração, a próxima meta. O palco de “Equilibrivm” apresenta outra mulher. Nunca Anitta pareceu tão tranquila dentro da própria ambição.

Isso não significa ausência de grandeza. Pelo contrário. A diferença é que a grandeza deixou de parecer uma coisa que precisa ser perseguida. Ela simplesmente está ali.

Em diversos momentos, a emoção da cantora diante do público reforça essa sensação. Existe gratidão no modo como Anitta apresenta esse projeto e, principalmente, no modo como reconhece as referências espirituais que sustentam sua vida. Depois de uma carreira marcada por transformações constantes, controvérsias, conquistas improváveis, doenças, cobranças e uma internacionalização que durante muito tempo pareceu consumir enorme parte de sua energia, vê-la ocupando aquele palco com tamanho controle produz um impacto raro.

Não é difícil perceber por que essa turnê também reacende uma questão inevitável sobre o tamanho de seus próximos passos no Brasil. O Parque Villa-Lobos comporta uma produção gigantesca, mas “Equilibrivm Tour” possui linguagem, repertório e demanda visual para espaços ainda maiores. Anitta já deveria estar encarando os grandes estádios de São Paulo com uma turnê própria. Um encerramento desse ciclo em escala monumental poderia representar um novo capítulo para uma carreira que passou tempo demais sendo avaliada pelo que conquistava fora do país e talvez ainda não tenha dimensionado completamente aquilo que pode fazer dentro dele.

Ser uma artista visionária também significa, em determinados momentos, criar alguma coisa maior do que a própria percepção sobre ela. “Equilibrivm Tour” possui esse caráter. O espetáculo parece inaugurar possibilidades que ultrapassam os dois discos que o originaram. A produção demonstra que Anitta pode sustentar uma apresentação de longa duração sem depender dos maiores sucessos da carreira, pode introduzir dezenas de músicas novas, pode conduzir uma narrativa conceitual complexa e pode transformar referências profundamente brasileiras em espetáculo de escala internacional.

Isso representa uma evolução importante para uma artista que durante muito tempo teve sua excelência medida principalmente pela eficiência. Anitta sempre soube construir hits, interpretar tendências, ler o mercado, executar coreografias, criar campanhas e compreender a cultura digital. “Equilibrivm” adiciona algo ainda mais valioso a essa lista: autoria artística em grande escala.

A turnê funciona porque ninguém além dela poderia apresentar exatamente aquele espetáculo.Seu repertório, sua religião, sua relação com o funk, sua trajetória internacional, sua sexualidade, seu corpo, suas contradições e sua própria compreensão de Brasil estão misturados na estrutura da apresentação. Remover qualquer uma dessas partes significaria desmontar alguma coisa essencial. Essa talvez seja a conquista definitiva de “Equilibrivm Tour”. Pela primeira vez, todas as Anittas parecem interessadas em caminhar na mesma direção.

Em um 2026 ocupado por grandes produções internacionais, artistas veteranos e algumas das turnês mais ambiciosas dos últimos anos, Anitta entrega, até este momento, o melhor espetáculo visto nos palcos brasileiros durante o ano. Não pela quantidade de efeitos, pelo tamanho do repertório ou pela capacidade de produzir imagens grandiosas, embora tudo isso esteja presente. A diferença está naquilo que nenhuma estrutura pode comprar: propósito.“Equilibrivm Tour” possui propósito em cada escolha.

É uma turnê sobre fé sem funcionar como sermão. Sobre ancestralidade sem transformar tradição em decoração. Sobre sensualidade sem abandonar espiritualidade. Sobre sucesso sem precisar exibi-lo constantemente. Sobre uma artista que passou boa parte da vida correndo atrás do próximo patamar e que agora parece descobrir que seu maior salto aconteceu quando decidiu olhar para dentro. No palco, Anitta continua sendo uma estrela pop gigantesca. Talvez esteja mais impressionante tecnicamente do que nunca. Mas o que torna essa apresentação inesquecível é enxergar Larissa atravessando toda aquela estrutura.

A maior turnê da carreira de Anitta também é a primeira em que seu tamanho parece importar menos do que aquilo que ela deseja dizer. E justamente por isso tudo parece tão imenso.Depois de tantos anos tentando provar que poderia ocupar qualquer palco do mundo, “Equilibrivm Tour” chega a uma conclusão muito mais poderosa.

Anitta já não precisa provar absolutamente nada.

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Temas: Anitta

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