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Budah vive fase mais ambiciosa da carreira em “Frequência Lunar”

Texto: Ygor Monroe
28 de maio de 2026
em Entrevistas, Música

Há discos que funcionam como coleção de músicas. Outros parecem um diário emocional traduzido em som. “Frequência Lunar”, novo álbum de Budah, pertence completamente ao segundo grupo. O projeto, lançado nesta quarta-feira (27), marca uma virada artística importante para a rapper capixaba, que transforma sentimentos, experiências femininas, vivências noturnas e descobertas pessoais em um trabalho pulsante, sensual, vulnerável e extremamente imagético.

Budah vive fase mais ambiciosa da carreira em “Frequência Lunar”
Budah vive fase mais ambiciosa da carreira em “Frequência Lunar”

Depois de construir uma forte conexão com o público através de “Púrpura”, álbum que ajudou a consolidar seu nome dentro da nova geração do rap nacional, Budah agora mergulha em uma proposta mais intensa, urbana e noturna. Ao longo de 14 faixas, a artista mistura rap, R&B, boombap, drill, ragga, house e elementos pop para criar um disco que soa como uma madrugada em movimento, atravessada por desejo, liberdade, autoestima e reflexão.

O projeto reúne participações de Iza, Pabllo Vittar, Duquesa, Tasha e Tracie, Ajulliacosta, Vita e Franco, The Sir!, além de um grande time de produtores que ajudam a expandir a sonoridade da artista sem tirar sua identidade do centro da narrativa. Mesmo cercado por tantos nomes fortes, “Frequência Lunar” continua sendo profundamente pessoal.

Mais do que um conceito estético, o álbum nasce de uma tentativa de traduzir sensações físicas e emocionais em música. Budah passou a observar como frequências sonoras afetam diretamente o corpo humano e conectou essa percepção aos ciclos da lua e às mudanças emocionais que eles provocam. “As frequências, elas alucam o sentimento na gente. Quando você escuta uma frequência grave, por exemplo, ela faz o seu corpo mexer, você não consegue ficar parado. Muda até a sua respiração e vibra o seu corpo.”

A cantora explica que essa percepção acabou guiando toda a construção do disco, desde a produção musical até a atmosfera emocional de cada faixa.

“A frequência média é a frequência da voz humana, então você se sente mais próxima da pessoa, consegue sentir a intenção e a emoção dela falando. Já a aguda pode trazer desconforto, tensão, mas também leveza. Quando começamos a relacionar sentimentos com as músicas, tudo fazia sentido dentro desse universo.”

A lua aparece como outro elemento central da narrativa. “A lua influencia o mar, a natureza e também a gente. Tem fases em que você fica mais introspectiva, outras em que sente mais energia. Então quando pensamos nesse álbum, percebemos que não poderia ter outro nome. Tudo encaixava perfeitamente.”

Essa proposta também atravessa toda a estética visual da nova era. O púrpura que marcou o primeiro álbum dá espaço para tons azulados, prateados e visuais futuristas inspirados pelo céu noturno. A mudança aparece nos figurinos, na maquiagem, nos visualizers e até no novo cabelo da artista, agora com mechas loiras prateadas que reforçam a identidade dessa fase.

As primeiras pistas dessa transformação vieram com “Vip (ninguém te conhece)”, parceria com Duquesa, “Quebrei sua casa” e “Sua favorita”, faixa com Ajulliacosta e Franco, The Sir!. Cada single apresentou uma faceta diferente do disco. Enquanto “Vip” apostava em uma energia sofisticada e provocativa, “Quebrei sua casa” mostrou uma Budah mais explosiva e emocionalmente intensa. Já “Sua favorita” chegou carregada de atitude, sensualidade e confiança.

Entre os momentos mais aguardados do álbum está “Vampira”, colaboração com Pabllo Vittar. E a história por trás da parceria parece saída de um roteiro surrealista. Budah contou que tudo começou através de um sonho.

“No mesmo dia que eu sonhei com a Pabllo, eu nunca tinha conhecido ela na vida. No sonho eu chamava ela pra participar do álbum e ela respondia. Quando acordei e fui olhar o perfil dela, ela tinha me desbloqueado.”

O episódio ficou ainda mais estranho horas depois.

“Era a semana de gravar as vozes do álbum. Quando cheguei no estúdio, ela estava no estúdio do lado aquecendo a voz. Eu olhei pro Douglas e falei: ‘Tem alguma coisa acontecendo’. Parecia o universo apontando alguma coisa.”

A parceria acabou tomando um rumo inesperado. Em vez de escolher uma música mais pop, Pabllo decidiu entrar justamente na faixa menos óbvia apresentada pela rapper.

“Eu mandei algumas opções e pensei: ‘Ela não vai escolher essa’. Mas ela escolheu exatamente a mais improvável. É um drill. Quando ela entrou na música, tudo fez sentido.”

Outro encontro importante do disco acontece em “Salto 15”, parceria com Iza. Budah não esconde o impacto emocional de dividir uma faixa com uma artista que acompanha há anos.

“A Iza representa muita coisa pra mim. Uma mulher potente, histórica, uma voz absurda. Quando encontrei ela pela primeira vez, eu travei completamente.” A artista relembra o momento em que as duas se encontraram em um evento, ainda em 2022. “Ela apareceu vindo na minha direção e perguntou se eu já tinha fechado uma coisa do evento. E eu fiquei pensando: ‘Como ela sabe quem eu sou?’.”

Segundo Budah, “Salto 15” nasceu para ser uma música de pista. “É uma faixa sexy, envolvente, daquelas que você escuta e simplesmente não consegue ficar parado.”

O disco também reserva espaço para reflexões sobre fama, ascensão e as mudanças provocadas pela indústria musical. Em “Vida de artista”, parceria com Tasha & Tracie, Budah mergulha nos bastidores da vida pública enquanto homenageia duas referências fundamentais para sua formação artística. “Existe um movimento no rap depois de Tasha & Tracie. Elas fizeram história. Eu acompanho elas desde a época do blog sobre moda. São referência pra mim em tudo.” A música fala sobre camarins, conquistas e a transformação da realidade das artistas. “A gente brinca um pouco com essa vida que temos hoje. Uma vida muito melhor do que era antes.”

Já “Submundo”, parceria com Vita, leva o álbum para um território mais escuro, clubber e noturno, inspirado pelas experiências de Budah vivendo em São Paulo. “Essa música fala sobre mulheres vivendo a noite intensamente. Saí de Vitória, fui pra São Paulo e comecei a viver tudo isso.”

Mesmo carregado de beats fortes e atmosfera dançante, “Frequência Lunar” encontra seus momentos mais poderosos justamente quando desacelera e permite que Budah exponha vulnerabilidades profundas. Uma das faixas mais emocionais do disco revisita toda a trajetória da cantora desde a mudança do Espírito Santo para São Paulo. “Eu revivo tudo o que tive que deixar pra trás pra estar aqui hoje. Vim pra São Paulo sozinha, deixei minha família no Espírito Santo e isso sempre foi muito difícil pra mim.” Ao mesmo tempo, a artista faz questão de enxergar as conquistas construídas nesse caminho. “Também não é só dor. Eu consegui mudar minha vida e a vida da minha família.”

A emoção da música ficou ainda maior durante o processo de gravação. “A gente gravou com violinos reais. Dá pra sentir a emoção da faixa acontecendo.”

Além das participações de peso, o álbum conta com produção de Douglas Moda, Iuri Rio Branco, Tibery, Donatto, Larinhx, Iamlopess, Vitão, Lucas Vaz, DJ Caetano, AmandesNoBeat, André Nine, Calixto e The Sir!, enquanto a direção musical ficou nas mãos de Budah, Debby Freitas e Tibery.

Vivendo um dos períodos mais importantes da carreira, Budah chega em “Frequência Lunar” acumulando mais de 100 milhões de streams, mais de 60 milhões de visualizações no YouTube, quase 4 milhões de ouvintes mensais no Spotify e apresentações em festivais como Lollapalooza, The Town e Afropunk. A artista também já está confirmada no line-up do “Rock in Rio 2026”, onde apresentará um show inédito baseado na nova era.

Mais do que um novo álbum, “Frequência Lunar” funciona como um manifesto emocional sobre transformação, feminilidade, desejo, identidade e liberdade. Um disco que entende a música como sensação física, como memória, como corpo em movimento.

“No fim de tudo a gente entende. Não é instabilidade. É frequência. É lunar.”

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Temas: Budah

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