O 5 Seconds of Summer passa por um ponto raro de maturidade artística em “Everyone’s a Star!”, um trabalho que rejeita a previsibilidade pop rock que acompanhou o grupo durante boa parte da década. O disco surge como a primeira colaboração da banda com a Republic Records, lançado em 14 de novembro de 2025, e escancara um esforço consciente de reposicionamento estético. Há estratégia, ambição e uma leitura sagaz do próprio legado, como se o grupo tivesse compreendido que exagero, ironia e espetáculo fazem parte do DNA que os fãs sempre buscaram.
“Everyone’s a Star!” funciona como um laboratório de referências, onde estética Y2K, nostalgia dos anos 2000 e uma camada de sátira pop convivem em equilíbrio surpreendente. O conceito visual, anunciado em campanhas misteriosas espalhadas por Nova York, já adiantava que o grupo enxergava este projeto como algo maior que um álbum. Havia uma narrativa de reapresentação, reforçada pelo site temático “Your Favorite Boy Band”, um gesto calculado que dialoga com a própria história da banda e com a forma como o público os enxerga.
O trio de singles “Not OK”, “Boyband” e “Telephone Busy” revela a intenção de flertar com linguagens distintas sem perder o fio condutor. “Not OK” é a síntese perfeita dessa proposta. A faixa tem pulsação acelerada, produção nervosa e um vocal quase teatral, aproximando o 5SOS de um pop experimental que remete à irreverência do Gorillaz. É o tipo de música que sinaliza mudança antes mesmo de o álbum chegar às plataformas.
A estrutura do disco abraça esse impulso de transformação sem abandonar a identidade que os acompanha desde o início. O quarteto permite que as referências se sobreponham, mas existe sempre uma âncora emocional, seja no vocal agudo, na construção melódica ou na bateria inventiva que Ashton Irwin entrega com precisão. A bateria é, inclusive, um dos motores criativos mais contundentes do projeto, variando entre densidade pop rock e batidas quase eletrônicas.
Há momentos em que a banda se arrisca de forma mais evidente, como em “I’m Scared I’ll Never Sleep Again”, que recupera a energia do pop rock dos anos 2000 com uma fluidez que surpreende até quem acompanha o grupo desde o início. Outras faixas caminham por territórios menos sólidos, flertando com synthwave, indie eletrônico e até construções que lembram a fase mais pop de artistas como Demi Lovato ou The Weeknd. Nem sempre essas misturas funcionam com a mesma força, mas o conjunto demonstra uma segurança rara para quem historicamente foi encaixado no rótulo de “boyband”.
E aqui está um ponto fundamental: “Everyone’s a Star!” é o primeiro disco do 5 Seconds of Summer que parece confortável com o próprio exagero. O grupo assume a teatralidade, transforma os clichês do pop em ferramenta estética e abraça a ironia como parte da costura narrativa do projeto. Essa liberdade criativa torna o trabalho mais envolvente, mesmo quando algumas faixas escorregam na previsibilidade ou se estendem menos do que deveriam.
O álbum acerta especialmente quando mira no hedonismo pop, naquele limiar entre riso, caos e elaboração técnica. As melhores faixas destacam exatamente isso, com refrães pegajosos, baixo espesso, vocais que alternam ansiedade e charme e produções que trabalham textura com cuidado surpreendente. Quando o disco desacelera, porém, entrega canções mais frágeis, delicadas em intenção, mas pouco memoráveis em execução.
Nada disso compromete a solidez geral de “Everyone’s a Star!”. Pelo contrário: a oscilação entre risco e conforto deixa claro que o grupo, enfim, descobriu onde quer chegar. É o registro mais corajoso da carreira, e talvez o mais consciente do impacto que pode causar. Há um amadurecimento estético palpável e uma clareza artística que os discos anteriores não capturavam com tanta força.
O ponto alto é entender que o 5 Seconds of Summer escolheu evoluir sem tentar apagar o que já foi. O resultado é um álbum que trabalha novas camadas sonoras, revisita referências diversas e entrega um pop rock expansivo, divertido e tecnicamente seguro. É a afirmação de uma banda que aprendeu a usar a própria história como combustível, não como prisão.
“Everyone’s a Star!” brilha justamente por isso. Porque entende que uma estrela só existe de verdade quando traduz seu exagero em identidade. E aqui, o 5SOS faz isso com mais confiança do que nunca.
Nota final: 80/100
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