Reputações levam décadas para serem construídas e segundos para serem destruídas. Em tempos de julgamentos públicos instantâneos e narrativas moldadas por manchetes, histórias sobre acusações ganham um peso ainda mais delicado. “A Acusada” mergulha exatamente nesse território inflamável, onde ética, desejo, poder e percepção pública se misturam em um thriller que prefere provocar desconforto a oferecer respostas rápidas.

A trama acompanha a Dra. Geetika Sen, vivida por Konkona Sensharma, uma cirurgiã e ginecologista respeitada em Londres cuja trajetória sofre uma ruptura abrupta após uma acusação de má conduta sexual. O ponto de partida poderia conduzir a um drama jurídico tradicional, mas o longa opta por outra abordagem. A narrativa assume estrutura de suspense criminal, trabalhando ritmo e tensão como se estivéssemos diante de um thriller psicológico.
O primeiro ato impressiona pela condução segura. A direção de Anubhuti Kashyap constrói um ambiente clínico, frio e controlado que aos poucos começa a rachar. A trilha sonora e o desenho de som funcionam como bússola emocional, conduzindo o espectador por mudanças sutis de perspectiva. Quando a confiança oscila, a música acompanha. Quando a dúvida se instala, o silêncio pesa. Existe um domínio técnico evidente na maneira como o filme manipula nossas alianças internas.
Konkona Sensharma entrega uma performance de densidade impressionante. Sua Geetika não é construída como mártir nem como vilã. Há camadas, hesitações, pequenos gestos que sugerem tanto vulnerabilidade quanto arrogância. O olhar da atriz sustenta cenas inteiras, especialmente nos momentos em que a personagem percebe que sua autoridade já não possui o mesmo peso social.
Pratibha Rannta surge como uma revelação magnética. Mesmo sendo um nome menos consolidado, domina a tela com naturalidade inquietante. O embate interpretativo entre as duas se transforma no verdadeiro motor dramático da obra. Cada cena compartilhada carrega tensão latente, como se a verdade estivesse sempre a um passo de ser revelada, mas nunca completamente alcançada.
Um dos elementos mais interessantes do roteiro está na representação do relacionamento queer. A narrativa evita o caminho previsível de transformar a sexualidade em conflito central. A relação é apresentada como casamento real, com suas complexidades e desgastes, sem reduzir a identidade dos personagens a rótulos. Essa escolha amplia o alcance do drama e evita didatismos desnecessários.
O filme acerta ao explorar o peso das acusações em ambientes institucionais. Hospitais, conselhos médicos e mídia aparecem como arenas de julgamento onde reputações são negociadas. Ao mesmo tempo, o roteiro questiona como poder e hierarquia influenciam percepções de consentimento e autoridade. O espectador é constantemente empurrado a rever certezas.
No entanto, a reta final perde parte da força construída anteriormente. A resolução soa apressada e levemente conveniente, aproximando-se de um discurso moralizante que contrasta com a ambiguidade que sustentava o restante da narrativa. O desfecho entrega respostas onde talvez perguntas fossem mais potentes. Ainda assim, o impacto emocional acumulado ao longo do percurso mantém o filme em um patamar elevado dentro das produções originais da Netflix.
Visualmente sóbrio e narrativamente provocativo, “A Acusada” constrói um retrato sobre culpa e percepção. Mais do que descobrir quem está certo ou errado, a obra investiga como julgamentos se formam e como verdades podem ser moldadas por contexto, poder e narrativa.
“A Acusada”
Direção: Anubhuti Kashyap
Elenco: Konkona Sensharma, Pratibha Rannta, Mashhoor Amrohi, Aditya Nanda, Sukant Goel, Monica Mahendru, Kallirroi Tziafeta
Disponível em: Netflix
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






