Em tempos em que a palavra neutralidade costuma soar elegante nos discursos oficiais, mas profundamente incômoda quando confrontada com a barbárie, surge uma história que coloca a burocracia no centro do campo de batalha moral. “A Conexão Sueca” escolhe olhar para dentro dos gabinetes, dos carimbos, das atas e dos memorandos para perguntar algo simples e devastador: o que significa permanecer neutro diante de um genocídio?
O longa acompanha Gösta Engzell, funcionário de escalão intermediário no Ministério das Relações Exteriores da Suécia durante a Segunda Guerra Mundial. Longe da imagem clássica do herói de guerra, ele veste terno, circula por corredores institucionais e trabalha com papelada. Ainda assim, suas decisões e articulações ajudaram a transformar a posição sueca em um ponto de inflexão humanitário dentro de um continente tomado pelo horror.
A Suécia da década de 1940 se vendia como território neutro. O filme, dirigido por Thérèse Ahlbeck e Marcus Olsson, desmonta essa neutralidade com precisão cirúrgica. Exportações estratégicas, concessões diplomáticas ao regime nazista e uma postura cautelosa diante de denúncias de extermínio compunham um cenário em que a neutralidade funcionava mais como etiqueta diplomática do que como princípio ético. O roteiro deixa claro que neutralidade, em contextos extremos, pode ser cumplicidade silenciosa.
Gösta não surge como um revolucionário inflamado. Ele é apresentado como aquilo que o próprio filme sugere chamar de herói administrativo. Um homem que compreende os limites da máquina estatal, mas também suas brechas. É dentro dessas brechas que ele atua para facilitar vistos, pressionar por posicionamentos mais firmes e ampliar a proteção a judeus e mulheres perseguidas pelo regime nazista. A tensão não está em explosões ou confrontos armados, mas na negociação, na assinatura certa, no despacho que precisa ser aprovado antes que seja tarde demais.
Essa escolha narrativa pode frustrar quem espera uma dramatização mais visceral do Holocausto. O filme caminha sobre uma corda bamba tonal delicada. De um lado, a necessidade de honrar a gravidade histórica. De outro, a tentativa de construir um relato acessível, quase pedagógico, sobre o poder das engrenagens públicas. Em alguns momentos, a emoção poderia alcançar camadas mais profundas, sobretudo ao desenvolver personagens secundários que orbitam Gösta. Ainda assim, a proposta nunca foi transformar sofrimento em espetáculo, mas iluminar responsabilidade institucional.
Existe também uma provocação inevitável. Produções sobre a Segunda Guerra continuam sendo realizadas com frequência, muitas vezes embaladas pelo mantra do nunca mais. “A Conexão Sueca” parece consciente desse desgaste. Em vez de repetir imagens já cristalizadas na memória coletiva, aposta em outro ângulo. O foco não está nos campos de concentração, mas nos escritórios que poderiam ter feito mais cedo o que demoraram a fazer. A pergunta que ecoa é menos histórica e mais contemporânea: quem está hoje assinando documentos que definem o destino de milhares?
Henrik Dorsin compõe Gösta com sobriedade. Sua atuação evita grandiloquência. O heroísmo aqui é discreto, quase burocrático. Sissela Benn e Jonas Karlsson ajudam a construir o ambiente político e emocional que cerca o protagonista, reforçando a sensação de que decisões administrativas carregam peso humano concreto.
Talvez o filme não alcance um grau máximo de intensidade dramática. As apostas poderiam soar mais altas se houvesse maior mergulho nas consequências pessoais das escolhas de Gösta. Ainda assim, algumas cenas permanecem na memória pela clareza com que expõem a dificuldade de agir quando todos preferem a conveniência da omissão.
“A Conexão Sueca” funciona como estudo de caso sobre responsabilidade pública. Um lembrete de que políticas externas, memorandos e relatórios nunca são neutros de fato. Em períodos de horror sistematizado, cada assinatura carrega vidas invisíveis.
O legado que o filme defende não é apenas histórico. É ético. Ele sugere que coragem pode existir em salas fechadas, que resistência pode nascer da caneta e que a burocracia, quando movida por convicção moral, deixa de ser engrenagem fria e se torna instrumento de proteção. Uma narrativa que escolhe a reflexão em vez do espetáculo e que aposta na consciência como verdadeiro campo de batalha.
“A Conexão Sueca”
Direção: Thérèse Ahlbeck e Marcus Olsson
Elenco: Henrik Dorsin, Sissela Benn, Jonas Karlsson
Disponível em: Netflix
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.