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Crítica: “A Grande Inundação” (Daehongsu)

Texto: Ygor Monroe
28 de dezembro de 2025
em Cinemas/Filmes, Netflix, Resenhas/Críticas, Streaming

Filmes de catástrofe costumam operar em um território muito específico. O espetáculo da destruição precisa dialogar com o humano, com o instinto de sobrevivência e com o medo coletivo do colapso. “A Grande Inundação” tenta ir além desse pacto básico e é exatamente aí que começa seu conflito interno. O filme quer ser grande demais para o próprio gênero e acaba se afogando nas próprias ideias.

Crítica: "A Grande Inundação" (Daehongsu)
Crítica: “A Grande Inundação” (Daehongsu)

Dirigido por Byung-woo Kim, o longa parte de uma premissa visualmente potente. Arranha-céus engolidos pela água, corredores submersos, pessoas presas em alturas impossíveis enquanto o mundo afunda em silêncio. Há um impacto imediato, quase físico, que remete ao cinema clássico de desastre, com ecos de sobrevivência vertical e urgência claustrofóbica. A água funciona como ameaça constante, como relógio narrativo e como metáfora de um futuro fora de controle.

No centro da história estão An Na, vivida por Kim Da-mi, e Hee Jo, interpretado por Park Hae-soo. Dois vizinhos ligados por circunstâncias extremas e por uma relação que o roteiro tenta transformar em elo emocional absoluto. An Na é pesquisadora no desenvolvimento de inteligência artificial, enquanto Hee Jo atua em uma equipe de segurança de recursos humanos. Quando a inundação global se instala, ele passa a se mover quase exclusivamente para protegê-la, mesmo quando as motivações desse vínculo permanecem pouco claras. O filme aposta em uma devoção súbita que o roteiro nunca se esforça verdadeiramente para construir.

É nesse ponto que “A Grande Inundação” começa a se distanciar do que poderia ser um thriller de sobrevivência direto e eficiente. O longa decide inserir uma camada de ficção científica ligada à inteligência artificial, simulações de cenários e dilemas sobre emoção, memória e humanidade. A ambição é evidente, mas a execução se mostra fragmentada. A narrativa se comporta como um sistema sobrecarregado, alternando registros sem transição e sacrificando a coerência emocional.

As escolhas visuais acompanham essa instabilidade. Os efeitos digitais que simulam projeções de IA, com cores pixeladas e molduras artificiais, quebram a imersão em vez de aprofundá-la. Em vez de sugerirem sofisticação tecnológica, esses momentos parecem inacabados, quase deslocados do restante do filme. O impacto da água, que até então funcionava como elemento realista e ameaçador, perde força diante dessas interrupções estéticas. Quando o filme troca o concreto pela abstração, ele perde densidade dramática.

A montagem também contribui para essa sensação de desconexão. Cenas surgem sem preparação, resoluções acontecem fora de quadro e obstáculos físicos são superados sem lógica interna clara. Em um filme de catástrofe, o espaço precisa ser compreensível para que o perigo seja sentido. Aqui, a geografia narrativa se dissolve, e com ela parte da tensão.

Ainda assim, há méritos que merecem reconhecimento. As sequências de inundação são bem executadas, especialmente no trabalho com água e escala. Existe um esforço técnico visível para tornar o desastre palpável, e em vários momentos isso funciona. O problema é que o filme insiste em sobrepor discurso ao impacto, como se precisasse justificar sua existência com um comentário sobre o futuro da tecnologia. O gênero do desastre já carrega reflexão suficiente quando respeita seus próprios códigos.

“A Grande Inundação” poderia ter sido um filme mais direto, mais físico, mais honesto com sua proposta inicial. Ao tentar discutir emoção, inteligência artificial e destino humano dentro de uma narrativa já saturada de eventos extremos, o longa perde foco. O resultado é uma obra que impressiona pontualmente, confunde com frequência e deixa a sensação de oportunidade mal aproveitada.

Ainda assim, existe algo de curioso nesse excesso. O filme revela uma inquietação legítima sobre o amanhã, sobre o papel da tecnologia em cenários-limite e sobre como emoções são acionadas sob pressão extrema. O problema não é o que o filme quer dizer, mas como ele escolhe dizer.

“A Grande Inundação”
Direção:
Byung-woo Kim
Elenco: Kim Da-mi, Park Hae-soo, Kim Kyu-na
Disponível em: Netflix

⭐⭐⭐

Avaliação: 2.5 de 5.

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Temas: CinemaCríticaKim Da-miKim Kyu-naNetflixPark Hae-sooResenhaReview

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