Ícone do site Caderno Pop

Crítica: “A Grande Inundação” (Daehongsu)

Filmes de catástrofe costumam operar em um território muito específico. O espetáculo da destruição precisa dialogar com o humano, com o instinto de sobrevivência e com o medo coletivo do colapso. “A Grande Inundação” tenta ir além desse pacto básico e é exatamente aí que começa seu conflito interno. O filme quer ser grande demais para o próprio gênero e acaba se afogando nas próprias ideias.

Crítica: “A Grande Inundação” (Daehongsu)

Dirigido por Byung-woo Kim, o longa parte de uma premissa visualmente potente. Arranha-céus engolidos pela água, corredores submersos, pessoas presas em alturas impossíveis enquanto o mundo afunda em silêncio. Há um impacto imediato, quase físico, que remete ao cinema clássico de desastre, com ecos de sobrevivência vertical e urgência claustrofóbica. A água funciona como ameaça constante, como relógio narrativo e como metáfora de um futuro fora de controle.

No centro da história estão An Na, vivida por Kim Da-mi, e Hee Jo, interpretado por Park Hae-soo. Dois vizinhos ligados por circunstâncias extremas e por uma relação que o roteiro tenta transformar em elo emocional absoluto. An Na é pesquisadora no desenvolvimento de inteligência artificial, enquanto Hee Jo atua em uma equipe de segurança de recursos humanos. Quando a inundação global se instala, ele passa a se mover quase exclusivamente para protegê-la, mesmo quando as motivações desse vínculo permanecem pouco claras. O filme aposta em uma devoção súbita que o roteiro nunca se esforça verdadeiramente para construir.

É nesse ponto que “A Grande Inundação” começa a se distanciar do que poderia ser um thriller de sobrevivência direto e eficiente. O longa decide inserir uma camada de ficção científica ligada à inteligência artificial, simulações de cenários e dilemas sobre emoção, memória e humanidade. A ambição é evidente, mas a execução se mostra fragmentada. A narrativa se comporta como um sistema sobrecarregado, alternando registros sem transição e sacrificando a coerência emocional.

As escolhas visuais acompanham essa instabilidade. Os efeitos digitais que simulam projeções de IA, com cores pixeladas e molduras artificiais, quebram a imersão em vez de aprofundá-la. Em vez de sugerirem sofisticação tecnológica, esses momentos parecem inacabados, quase deslocados do restante do filme. O impacto da água, que até então funcionava como elemento realista e ameaçador, perde força diante dessas interrupções estéticas. Quando o filme troca o concreto pela abstração, ele perde densidade dramática.

A montagem também contribui para essa sensação de desconexão. Cenas surgem sem preparação, resoluções acontecem fora de quadro e obstáculos físicos são superados sem lógica interna clara. Em um filme de catástrofe, o espaço precisa ser compreensível para que o perigo seja sentido. Aqui, a geografia narrativa se dissolve, e com ela parte da tensão.

Ainda assim, há méritos que merecem reconhecimento. As sequências de inundação são bem executadas, especialmente no trabalho com água e escala. Existe um esforço técnico visível para tornar o desastre palpável, e em vários momentos isso funciona. O problema é que o filme insiste em sobrepor discurso ao impacto, como se precisasse justificar sua existência com um comentário sobre o futuro da tecnologia. O gênero do desastre já carrega reflexão suficiente quando respeita seus próprios códigos.

A Grande Inundação” poderia ter sido um filme mais direto, mais físico, mais honesto com sua proposta inicial. Ao tentar discutir emoção, inteligência artificial e destino humano dentro de uma narrativa já saturada de eventos extremos, o longa perde foco. O resultado é uma obra que impressiona pontualmente, confunde com frequência e deixa a sensação de oportunidade mal aproveitada.

Ainda assim, existe algo de curioso nesse excesso. O filme revela uma inquietação legítima sobre o amanhã, sobre o papel da tecnologia em cenários-limite e sobre como emoções são acionadas sob pressão extrema. O problema não é o que o filme quer dizer, mas como ele escolhe dizer.

“A Grande Inundação”
Direção:
Byung-woo Kim
Elenco: Kim Da-mi, Park Hae-soo, Kim Kyu-na
Disponível em: Netflix

Avaliação: 2.5 de 5.

Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.

Sair da versão mobile