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Crítica: “A Hipótese do Amor” (The Love Hypothesis)

Texto: Ygor Monroe
23 de setembro de 2026
em Amazon Prime Video, Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas, Streaming

Existe uma espécie de contradição curiosa rondando a comédia romântica contemporânea: o público continua apaixonado pelas mesmas fórmulas que o gênero repete há décadas, mas parece cada vez menos disposto a perdoar filmes que deixam essa fórmula aparente demais. “A Hipótese do Amor” entende muito bem essa dinâmica. O longa dirigido por Claire Scanlon não chega interessado em reinventar absolutamente nada, tampouco tenta disfarçar a arquitetura previsível sobre a qual foi construído. Relacionamento falso, convivência forçada, duas pessoas obviamente atraídas uma pela outra fingindo que não estão, obstáculos cuidadosamente posicionados e uma sucessão de situações desenhadas para aproximá-las até que aquilo que começou como encenação inevitavelmente deixe de ser. Tudo está exatamente onde esperamos encontrar. A diferença é que o filme entende que uma boa comédia romântica não precisa necessariamente surpreender o público com o destino da história, mas precisa convencê-lo de que chegar até esse destino vale o investimento.

Crítica: “A Hipótese do Amor” (The Love Hypothesis)
Crítica: “A Hipótese do Amor” (The Love Hypothesis)

Baseado no livro homônimo de Ali Hazelwood, “A Hipótese do Amor” acompanha Olive Smith, vivida por Lili Reinhart, uma doutoranda que acaba beijando impulsivamente Adam Carlsen, professor conhecido dentro da universidade pela personalidade intimidadora. O episódio absurdo rapidamente se transforma em um acordo conveniente para os dois, que passam a sustentar um relacionamento falso diante das pessoas ao redor. A premissa é descaradamente construída sobre um dos clichês mais populares da literatura romântica recente, mas Claire Scanlon demonstra compreender que tentar sofisticá-la artificialmente seria provavelmente o pior caminho possível. O filme aceita sua natureza desde o começo e concentra esforços naquilo que realmente importa para fazer esse tipo de narrativa funcionar: ritmo, timing cômico, personagens agradáveis e, principalmente, química.

E química existe de sobra entre Lili Reinhart e Tom Bateman. Há uma facilidade muito particular na maneira como os dois ocupam uma cena juntos, algo que transforma até interações absolutamente banais em pequenas negociações de desejo, constrangimento e intimidade. O romance funciona menos porque o roteiro inventa grandes situações para aproximá-los e muito mais porque Reinhart e Bateman conseguem vender aquela atração crescente nos detalhes. Nos olhares prolongados um pouco além do necessário, nas pausas desconfortáveis, na diferença entre aquilo que os personagens dizem e o que seus corpos deixam bastante evidente. É justamente quando “A Hipótese do Amor” confia nessa dinâmica que encontra sua melhor versão.

Isso não significa, porém, que os dois estejam entregando performances igualmente fortes. Lili Reinhart carrega uma parcela considerável do filme porque compreende perfeitamente a frequência na qual Olive precisa existir. A personagem poderia facilmente se transformar em outra protagonista definida apenas por uma coleção calculada de peculiaridades adoráveis, especialmente porque o roteiro frequentemente flerta com essa caricatura. Reinhart impede que isso aconteça ao construir uma Olive genuinamente engraçada sem transformar sua inteligência em mero acessório narrativo. Ela encontra humor na insegurança da personagem sem infantilizá-la e consegue fazer sua vulnerabilidade coexistir com uma mulher extremamente competente, ambiciosa e consciente do próprio espaço. É uma performance muito mais calibrada do que parece inicialmente, sobretudo porque boa parte da comédia depende da capacidade da atriz de tornar situações deliberadamente artificiais minimamente espontâneas.

Tom Bateman enfrenta uma dificuldade maior. Adam foi concebido dentro daquele arquétipo masculino que romances contemporâneos parecem incapazes de abandonar completamente: enorme, fechado, intimidador, emocionalmente econômico e tão exageradamente masculino que sua própria presença precisa funcionar como característica de personalidade. Há momentos em que Bateman consegue brincar com a distância entre a reputação de Adam e o homem bastante mais gentil que Olive começa a conhecer, e essa oposição funciona especialmente bem quando o roteiro permite que ele relaxe. Em outros, porém, a rigidez deixa de parecer característica do personagem e começa a contaminar a própria interpretação, tornando algumas falas mecânicas e determinados momentos emocionais menos naturais do que deveriam. É curioso porque Bateman funciona muito melhor reagindo a Reinhart do que conduzindo sozinho uma cena, o que torna a química entre os dois superior à performance individual dele.

Talvez seja justamente por isso que o casal funcione tão bem. Reinhart oferece movimento onde Bateman entrega contenção, enquanto ele fornece a estabilidade necessária para que a energia mais inquieta dela não domine completamente a dinâmica. A diferença de registro acaba produzindo uma complementaridade que beneficia o romance, mesmo quando denuncia certas limitações dramáticas. Não é preciso acreditar que estamos diante de duas performances extraordinárias para acreditar profundamente que Olive e Adam querem estar juntos, e em uma comédia romântica essa distinção importa bastante.

O filme também acerta ao compreender que Olive não pode existir exclusivamente em função de Adam. Sua amizade com Anh possui calor suficiente para que o universo da personagem pareça continuar existindo quando o interesse romântico deixa o enquadramento, enquanto Malcolm funciona como uma presença cômica extremamente eficiente. Nicholas Duvernay e Jaboukie Young-White ajudam a construir um ambiente social que impede a narrativa de se fechar completamente sobre o casal. São personagens secundários assumidamente funcionais, mas existe personalidade suficiente nessas relações para que eles não pareçam apenas dispositivos colocados ali para comentar o romance dos protagonistas.

É nesse ponto que a adaptação demonstra uma inteligência que algumas transposições literárias parecem esquecer: cinema não é uma lista de conferência. Mudanças de cronologia, condensações e ausências são inevitáveis quando centenas de páginas precisam assumir outra linguagem, e “A Hipótese do Amor” parece muito mais preocupado em preservar a personalidade de seu material original do que reproduzir mecanicamente cada acontecimento. Elementos reconhecíveis permanecem espalhados pelo filme, desde escolhas de figurino até objetos, diálogos e referências visuais que leitores identificarão imediatamente, mas eles funcionam como textura em vez de obrigação. A fidelidade mais importante está menos na reprodução exata dos acontecimentos e mais na manutenção daquela combinação de constrangimento, humor e desejo que transformou Olive e Adam em personagens tão populares.

Claire Scanlon também sabe filmar esse universo com uma leveza que favorece o material. Não existe uma tentativa desesperada de transformar “A Hipótese do Amor” em algo visualmente maior ou dramaticamente mais importante do que realmente é. A direção privilegia rostos, reações e proximidade física porque compreende que esse é um filme cujo principal espetáculo são duas pessoas tentando administrar uma atração que todo mundo já percebeu. Essa simplicidade é especialmente eficiente nas sequências cômicas, nas quais a montagem permite que o constrangimento respire sem prolongá-lo até a exaustão.

Ao mesmo tempo, o filme encontra uma questão mais interessante dentro do ambiente acadêmico do que a premissa inicialmente sugere. Olive não é simplesmente uma personagem inteligente porque o roteiro informa que ela faz doutorado. Sua relação com pesquisa, carreira e reconhecimento profissional participa efetivamente da construção dramática, permitindo que conflitos envolvendo hierarquia, credibilidade e abuso de poder tenham consequências para além do romance. Quando Arty Froushan entra nessa engrenagem, a história ganha um antagonismo mais explícito e talvez menos elegante, mas necessário para colocar Olive diante de um conflito que não pode ser solucionado apenas pela presença de Adam.

É também aí que “A Hipótese do Amor” precisa tomar cuidado para não permitir que sua protagonista seja salva pela própria fantasia romântica que o filme construiu. Felizmente, existe esforço suficiente para preservar a agência de Olive. Adam pode representar segurança emocional e funcionar como parceiro, mas o filme é melhor quando entende que a realização da personagem não pode ser resumida a conquistar o homem gigantesco e aparentemente inacessível do departamento. Olive precisa ser interessante antes, durante e independentemente daquela relação, e Lili Reinhart trabalha constantemente para garantir isso.

Naturalmente, há momentos em que o longa escorrega para uma artificialidade difícil de ignorar. Certas situações existem exclusivamente porque a engrenagem do gênero exige que existam, alguns diálogos parecem excessivamente conscientes do efeito que pretendem provocar e o filme ocasionalmente força a fofura quando já havia conquistado o público sem precisar insistir nela. Há ainda uma estética bastante limpa, característica de produções de streaming que às vezes parecem ter medo de permitir qualquer imperfeição visual dentro do enquadramento. Nada disso chega a comprometer a experiência, mas impede que “A Hipótese do Amor” alcance aquela espontaneidade absoluta das grandes comédias românticas que parecem simplesmente acontecer diante da câmera.

Ainda assim, existe algo muito agradável em assistir a uma produção que não demonstra vergonha de ser romântica. Durante muito tempo, parte do gênero tentou justificar sua existência por meio de ironia, cinismo ou uma necessidade quase constrangedora de informar ao espectador que sabia estar reproduzindo clichês. “A Hipótese do Amor” até possui autoconsciência, mas não a utiliza para pedir desculpas. O filme acredita no romance que está contando, acredita no prazer da antecipação e entende que previsibilidade não é necessariamente um defeito quando o público está emocionalmente interessado no caminho. Sabemos para onde Olive e Adam estão indo praticamente desde o primeiro encontro. A graça está justamente em observá-los demorar tanto para alcançar uma conclusão que parece óbvia para qualquer pessoa olhando de fora.

Talvez esse seja o grande acerto da adaptação. “A Hipótese do Amor” não estabelece um novo padrão para a comédia romântica porque tenha descoberto alguma fórmula secreta para renovar o gênero. Ele simplesmente executa uma fórmula conhecida com segurança suficiente para lembrar por que ela continua sendo repetida. Lili Reinhart encontra uma protagonista extremamente confortável para seu timing cômico e sua capacidade dramática, Tom Bateman funciona melhor dentro da dinâmica do casal do que isoladamente, e Claire Scanlon conduz tudo com a consciência de que o coração do filme não está na originalidade de sua premissa, mas na capacidade de transformar uma relação obviamente fabricada em algo emocionalmente convincente. Entre tropeços, exageros e uma masculinidade ocasionalmente tão calculada que Adam parece ter sido desenvolvido em laboratório especificamente para protagonizar adaptações de romances, o filme encontra uma doçura genuína que nunca precisa sacrificar completamente a inteligência para funcionar.

“A Hipótese do Amor” consegue algo que deveria ser básico, mas que se tornou surpreendentemente raro dentro das comédias românticas produzidas diretamente para streaming: fazer com que seja divertido acompanhar duas pessoas se apaixonando. O roteiro pode organizar variáveis, testar hipóteses e colocar seus personagens dentro de uma estrutura cujo resultado conhecemos desde o princípio, mas é a relação construída entre eles que sustenta o experimento. O filme não precisa provar que descobriu uma nova fórmula para o amor porque sua melhor evidência está justamente na química que consegue produzir diante da câmera, sustentando uma adaptação que entende o livro de onde veio sem permitir que ele determine todos os seus movimentos.

“A Hipótese do Amor”
Direção:
Claire Scanlon
Elenco: Lili Reinhart, Tom Bateman, Nicholas Duvernay, Jaboukie Young-White, Arty Froushan e Rachel Marsh
Disponível em: Amazon Prime Video

⭐⭐⭐

Avaliação: 3 de 5.

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Temas: CríticaJaboukie Young-WhiteLili ReinhartNicholas DuvernayResenhaReviewTom Bateman

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