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Crítica: “A Longa Marcha – Caminhe ou Morra” (The Long Walk)

Há filmes que nascem de premissas simples e, justamente por isso, exigem inteligência redobrada para sustentar sua força narrativa. “A Longa Marcha – Caminhe ou Morra” é a prova de que a simplicidade pode ser brutal, perturbadora e ao mesmo tempo emocionante. O longa parte de uma ideia direta: cinquenta adolescentes selecionados pelo governo precisam caminhar sem parar, sob risco de morte, até restar apenas um sobrevivente. Quem vence, conquista o direito de realizar qualquer desejo. Todos os demais caem diante do cansaço, da dor ou da violência implacável.

Crítica: “A Longa Marcha – Caminhe ou Morra” (The Long Walk)

Baseado no livro homônimo de Stephen King, publicado em 1979 sob o pseudônimo Richard Bachman, o filme de Francis Lawrence se revela muito mais do que um jogo de sobrevivência. Ele é uma metáfora sombria sobre o peso da ambição, a fragilidade da juventude e a espetacularização da dor. O que poderia soar como um simples exercício de resistência física ganha camadas filosóficas, já que cada passo dado carrega consigo uma pergunta maior: até onde estamos dispostos a ir quando a recompensa é a promessa de um futuro melhor?

A narrativa poderia facilmente se perder na repetição de um cenário único, afinal trata-se de jovens caminhando por quilômetros intermináveis, sempre observados por espectadores que consomem aquela violência como entretenimento. Mas a força da obra está em transformar a caminhada em palco de diálogos intensos, conexões inesperadas e tensões crescentes. As conversas entre os personagens, que em mãos menos habilidosas seriam mero preenchimento, aqui se tornam combustível para aprofundar laços, revelar traumas e criar um campo de batalha psicológico tão duro quanto a própria marcha.

Cooper Hoffman e David Jonsson carregam a espinha dorsal do filme com atuações de enorme fôlego emocional. A amizade que nasce entre eles se torna o coração da obra, lembrando que mesmo nas circunstâncias mais cruéis ainda há espaço para humanidade. O elenco de apoio, que inclui Garrett Wareing, Tut Nyuot e Charlie Plummer, complementa esse mosaico de jovens forçados a se confrontar com seus limites. E se Mark Hamill surge como O Major, figura autoritária e impiedosa que comanda a competição, sua presença é a lembrança constante de que não há espaço para compaixão nesse universo.

A violência, desde o primeiro disparo, é seca, direta e incômoda. Não existe glamour no sofrimento. Cada morte é um golpe não só nos personagens, mas também no espectador, que passa a carregar o fardo da repetição daquele ciclo. É um filme que exaure, mas essa exaustão é proposital: “A Longa Marcha – Caminhe ou Morra” faz questão de colocar o público para andar lado a lado com seus protagonistas, sentindo o peso da jornada e a inevitabilidade da derrota.

Se em alguns momentos o ritmo desacelera e os diálogos se alongam além do necessário, o desfecho compensa. A reta final é devastadora e ao mesmo tempo libertadora, marcada por escolhas ousadas que podem dividir opiniões, mas que reforçam a identidade do filme. Não há vitórias plenas em uma narrativa que parte da morte como destino de quase todos. O que existe é a lembrança amarga de que, em sociedades adoecidas pelo espetáculo da violência, até a juventude se torna mercadoria.

Entre tantas adaptações de Stephen King que se perdem no excesso ou na superficialidade, “A Longa Marcha – Caminhe ou Morra” se destaca por sua seriedade e pela coragem de enfrentar a essência cruel do material original. É um filme que machuca, mas também emociona, justamente porque revela que caminhar pode ser o ato mais simples e, ao mesmo tempo, o mais doloroso da existência.

“A Longa Marcha – Caminhe ou Morra”
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: J.T. Mollner
Elenco: Cooper Hoffman, David Jonsson, Garrett Wareing, Charlie Plummer, Mark Hamill
Disponível nos cinemas

Avaliação: 4 de 5.

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