Existe um tipo de cinema brasileiro que encontra potência justamente quando decide observar de perto, sem pressa e sem excessos, os conflitos que se formam dentro de casa. É nesse território íntimo, onde expectativas viram pressão e afeto muitas vezes se confunde com controle, que “A Miss” constrói sua narrativa. O filme prefere o detalhe ao espetáculo e aposta em personagens que carregam mais contradições do que certezas, mesmo quando a trama parece caminhar por um terreno leve e quase lúdico.

A história gira em torno de Iêda, uma ex-vencedora de concurso de beleza que transformou sua própria trajetória em herança emocional. O sonho de ver a filha repetir seus passos se torna um projeto de vida, algo que organiza sua relação com o mundo e com os filhos. Martha, porém, se mostra distante desse ideal. Falta entusiasmo, falta desejo e sobra um cansaço silencioso diante de exigências que nunca foram escolhidas. É nesse desalinho que o roteiro encontra seu conflito central e, com inteligência, desloca o foco quando Alan surge como possibilidade real de ocupar um espaço historicamente negado a ele.
O grande acerto de “A Miss” está na forma como o filme usa o humor e a delicadeza para discutir temas densos, como identidade, projeção familiar e a violência sutil das expectativas impostas. A decisão de transformar o concurso de beleza em ponto de virada não busca choque ou provocação vazia. O gesto funciona como comentário social e, ao mesmo tempo, como ferramenta dramática que reorganiza as relações entre mãe, filhos e o tio Athena, personagem que atua como elo entre o desejo de agradar e a necessidade de romper.
Pedro David constrói um Alan carismático e sensível, longe de caricaturas. O personagem transita entre a vontade genuína de realizar o sonho da mãe e a descoberta de um talento que também diz respeito a si mesmo. Já Maitê Padilha entrega uma Martha contida, marcada por pequenos gestos e silêncios que dizem mais do que qualquer explosão emocional. A dinâmica entre os irmãos é um dos pontos mais bem resolvidos do filme, pois sustenta a narrativa mesmo quando o roteiro opta por caminhos mais sutis do que expansivos.
Helga Nemetik imprime densidade à Iêda sem transformá-la em vilã. Sua personagem carrega uma mistura incômoda de afeto, frustração e cegueira emocional que torna cada cena imprevisível. Iêda ama, mas ama do jeito que aprendeu, reproduzindo um modelo que nunca foi questionado. Alexandre Lino, como Athena, traz leveza e timing preciso, funcionando como válvula de escape e consciência prática dentro da história, sem cair na função de alívio cômico raso.
Tecnicamente, “A Miss” se apoia fortemente nos diálogos, que sustentam o ritmo e dão unidade ao filme. Há boas sacadas, conversas bem construídas e uma sensação constante de conexão entre os personagens. Em alguns momentos, porém, essa escolha pela contenção cobra seu preço. A narrativa parece pedir mais fôlego, mais risco visual e emocional. A sutileza, que funciona como virtude em boa parte do tempo, por vezes limita a expansão de conflitos que poderiam ganhar camadas mais complexas.
Ainda assim, o filme se mantém coerente com sua proposta. Trata-se de uma produção assumidamente mais simples, interessada em observar relações humanas com cuidado, sem recorrer a grandes viradas ou discursos óbvios. “A Miss” prefere provocar reflexão a entregar respostas, e encontra seu valor justamente nessa escolha. O resultado é um filme honesto, conectado com seu tempo e atento às transformações de comportamento que atravessam famílias, gerações e papéis de gênero.
“A Miss”
Direção: Daniel Porto
Elenco: Helga Nemetik, Alexandre Lino, Maitê Padilha, Pedro David
Disponível em: cinemas brasileiros a partir de 26 de fevereiro de 2026
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