“A Mulher da Casa Abandonada” chega ao Prime Video como um daqueles lançamentos que não passam despercebidos. Baseada no podcast de Chico Felitti que parou o Brasil em 2022, a série documental tem o peso de revisitar uma história que já havia se tornado um fenômeno e, mais do que isso, um símbolo da onda de true crime nacional. Mas aqui não estamos apenas diante de uma transposição de áudio para imagem: o documentário tem seus próprios méritos e suas próprias fragilidades.
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O maior trunfo da série é colocar a vítima no centro da narrativa. Pela primeira vez, Hilda dos Santos aparece diante das câmeras para contar sua versão, detalhando os anos de abusos, invisibilidade e submissão em condições análogas à escravidão nos Estados Unidos. Sua presença muda o tom da obra: o que antes era um mistério em torno de uma figura excêntrica de Higienópolis, agora se transforma em um relato direto sobre violência e sobrevivência. A voz de Hilda humaniza a trama e impede que o caso seja reduzido a mais um espetáculo de curiosidade mórbida.
A direção de Kátia Lund entende a força desse depoimento e constrói a narrativa em torno dele. É uma escolha ética e necessária, mas que cobra seu preço. A figura de Margarida Bonetti, que deveria ser central, acaba pairando como uma sombra. A série não tenta explicar sua trajetória, não investiga suas motivações, nem organiza com clareza a cronologia de um caso que atravessa décadas e países. Faltam pontos de ancoragem, e por vezes parece que estamos lidando com uma história contada em fragmentos, sempre se apoiando na memória de quem já ouviu o podcast para preencher as lacunas.
Esse é, talvez, o maior dilema da série: ela é poderosa, mas não totalmente autônoma. Para quem já acompanhou o fenômeno do podcast, os três episódios funcionam como expansão visual, com rostos, imagens de arquivo e dramatizações que intensificam o impacto. Para quem chega pela primeira vez, a sensação pode ser de incompletude, como se algo essencial estivesse sempre sendo citado mas nunca plenamente mostrado. Um documentário precisa respirar sozinho e “A Mulher da Casa Abandonada” não consegue escapar dessa dependência.
Ainda assim, não há como negar a relevância do material. O trabalho de Chico Felitti, agora em parceria com Lund, se afasta da tentação do sensacionalismo e busca evitar o voyeurismo que tantas vezes contamina o gênero true crime. A série acerta ao não transformar Margarida em um personagem excêntrico de novela macabra e ao insistir em dar espaço para Hilda. O risco aqui não é a exploração da violência, mas a falta de densidade na costura narrativa. A estética é forte a casa em ruínas, o mistério em torno da máscara de creme, os vizinhos curiosos mas o impacto visual não substitui a necessidade de mergulhar de fato na complexidade do caso.
No fim, “A Mulher da Casa Abandonada” é uma obra que emociona e indigna, mas que também deixa a sensação de que poderia ter ido mais longe. O documentário cumpre sua função ao dar rosto e voz a quem antes era apenas uma peça de bastidores, mas se perde quando tenta sustentar uma narrativa maior sem o mesmo cuidado. É um produto relevante, mas que não se desprende totalmente do material que o originou.
“A Mulher da Casa Abandonada”
Direção: Kátia Lund
Criação: Chico Felitti
Elenco: Hilda dos Santos, Chico Felitti, Don Naily
Disponível em: Prime Video
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