Filmes sobre cultos sempre carregam uma aura incômoda. Há algo de fascinante e perturbador em observar pessoas que abrem mão da própria individualidade em nome de uma promessa maior. “A Seita”, dirigido por Jordan Scott, parte dessa premissa tão fértil, mas não consegue mergulhar fundo no abismo psicológico que a proposta pede. É um thriller que, em vez de causar aquele nó no estômago, se contenta em deslizar na superfície, como quem toca apenas o rótulo da garrafa e nunca prova do líquido que está dentro.
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A história acompanha Ben, vivido por Eric Bana, um psicólogo social norte-americano que se mudou para Berlim após uma separação dolorosa. Ele é especialista em estudar seitas, escreve sobre elas, dá palestras, se coloca como observador clínico da loucura coletiva. No entanto, como já vimos tantas vezes em obras que misturam o íntimo e o externo, é justamente dentro de casa que o caos se infiltra. Sua filha adolescente, Mazzy, interpretada por Sadie Sink, torna-se o elo mais frágil e, ao mesmo tempo, o mais vital da narrativa.
O problema é que o filme parece tão encantado com a ideia de ter um “culto misterioso” que esquece de trabalhar a densidade desse culto. A líder Hilma, interpretada por Sylvia Hoeks, surge com seu discurso enigmático, imagens de vídeos caseiros e um olhar frio que poderia remeter a personagens magnéticos do cinema de horror psicológico, mas a construção soa rasa. Ao contrário do que fizeram obras como “Martha Marcy May Marlene” ou até o clássico “O Bebê de Rosemary”, em que a sedução da seita é palpável, em “A Seita” nunca entendemos por que aquelas pessoas aceitariam ir tão longe, muito menos o que de fato acreditam.
Sadie Sink, que muitos conheceram em “Stranger Things” e brilharam os olhos em “Dear Billy”, tenta dar vida a uma adolescente dividida entre o ressentimento do pai e a promessa de pertencimento oferecida pelo grupo. Há força em seu olhar, mas o roteiro não lhe dá espaço suficiente. Fica a sensação de que poderíamos ter visto mais da fragilidade e da rebeldia de Mazzy, se o filme tivesse coragem de se aprofundar.
Eric Bana entrega uma atuação correta, mas pouco marcante. Ben poderia ser um personagem fascinante, um homem que teoriza sobre seitas enquanto sua própria filha é seduzida por uma. A ideia de que o estudioso da manipulação se vê manipulado é ótima, mas nunca explode em tela. Fica ali, como uma chama que quase apaga antes de iluminar de verdade.
Há momentos em que o filme ensaia se tornar grande. O clímax, com as cenas de autoimolação e a tensão crescente, finalmente sacode o público. Mas chega tarde demais. Até ali, a narrativa corre em ritmo apressado, sem permitir que sintamos o peso das escolhas. É como ouvir uma música que acelera para o refrão sem que os versos tenham construído emoção suficiente.
“A Seita” tem boas ideias visuais, um elenco talentoso e um tema explosivo. Mas falta a coragem de mergulhar. Fica no raso, quando poderia ser um mergulho escuro e sufocante sobre fé, família e manipulação. Não é um desastre absoluto, mas também não é memorável. O cinema já nos mostrou, em tantas ocasiões, como cultos podem ser terreno fértil para narrativas inesquecíveis. Aqui, a promessa ficou maior que a entrega.
“A Seita”
Direção: Jordan Scott
Elenco: Eric Bana, Sadie Sink, Sylvia Hoeks, Jonas Dassler, Sophie Rois, Stephan Kampwirth
Disponível em: HBO Max
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