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Crítica: “A Tale of Two Cities”

Texto: Ygor Monroe
8 de setembro de 2026
em MGM+, Minisséries, Resenhas/Críticas, Streaming

Adaptar Charles Dickens em 2026 não deveria significar simplesmente vestir atores com figurinos de época, reconstruir ruas do século XVIII e reproduzir com reverência aquilo que está impresso há mais de 160 anos. Existe uma distância inevitável entre preservar um clássico e mantê-lo vivo, e “A Tale of Two Cities” parece compreender muito bem essa diferença. A nova minissérie do MGM+ retorna ao romance publicado em 1859 sem tratá-lo como uma peça intocável da literatura inglesa, preservando seus grandes conflitos enquanto altera significativamente a maneira como seus personagens ocupam a narrativa. O resultado é uma adaptação elegante, dramaticamente crescente e suficientemente segura para reconhecer que fidelidade também pode exigir transformação.

Crítica: “A Tale of Two Cities”
Crítica: “A Tale of Two Cities”

Ambientada entre Londres e Paris em um período de enorme instabilidade política e social, a produção encontra Lucie Manette no momento em que uma informação reorganiza completamente sua existência. Seu pai, considerado morto há quase duas décadas, pode estar vivo na França. É por meio de Charles Darnay, um jovem francês que acaba acusado de traição, que essa possibilidade chega até ela, enquanto Sydney Carton, advogado brilhante, imprevisível e emocionalmente desorganizado, entra nessa equação inicialmente como uma possibilidade de libertar Darnay. A partir desse encontro, questões familiares, políticas e românticas começam a se cruzar até que a história particular desses personagens se torne inseparável do mundo em transformação ao redor deles.

Existe um risco evidente em contar uma história cuja importância literária precede qualquer nova versão. “A Tale of Two Cities” não precisa apenas funcionar como televisão, mas encontrar alguma justificativa artística para existir depois de tantas décadas de adaptações e da permanência cultural do próprio livro. A minissérie encontra essa justificativa quando deixa de tratar a obra de Dickens como monumento e começa a tratá-la novamente como drama. Há menos preocupação em demonstrar solenidade diante do material e mais interesse em fazer seus conflitos sentimentais, políticos e sociais funcionarem para o público.

A principal decisão nesse processo está em Lucie. Se outras versões poderiam facilmente posicioná-la como o centro afetivo em torno do qual dois homens se movimentam, a adaptação escrita por Daniel West lhe concede uma presença muito mais ativa. Sua transformação em uma mulher interessada pela medicina e disposta a atravessar limites impostos à sua posição naquele período não funciona apenas como atualização superficial destinada a modernizar uma personagem feminina clássica. Essa mudança interfere diretamente na dinâmica da série, porque Lucie deixa de ser simplesmente objeto de desejo e passa a impulsionar os acontecimentos.

Mirren Mack compreende muito bem essa responsabilidade. Existe delicadeza em sua interpretação, mas nunca passividade. Sua Lucie ainda preserva uma certa inocência diante de determinadas situações, ao mesmo tempo em que demonstra uma obstinação que impede a personagem de desaparecer entre as performances mais expansivas ao seu redor. Colocar Lucie efetivamente no centro da narrativa é uma das decisões mais inteligentes da adaptação, porque reorganiza inclusive o famoso triângulo amoroso sem eliminar aquilo que o torna essencial para a história. Darnay e Carton continuam inevitavelmente ligados a ela, mas Lucie também existe dramaticamente fora deles.

É nesse triângulo que “A Tale of Two Cities” encontra boa parte de sua energia. François Civil constrói Charles Darnay com uma presença mais controlada, enquanto Kit Harington recebe em Sydney Carton um personagem naturalmente mais instável e sedutor. Existe algo bagunçado em Carton que combina particularmente bem com Harington. O ator trabalha a arrogância, o desencanto e o charme do personagem sem antecipar excessivamente a transformação que deverá atravessar. Seu maior mérito está justamente em permitir que as contradições apareçam antes da redenção, evitando transformar Carton desde o início em um homem cuja nobreza está apenas esperando para ser descoberta.

A escolha de escalar dois atores diferentes para Carton e Darnay também produz um efeito interessante. A semelhança física necessária entre os personagens existe sem depender do artifício de colocar o mesmo intérprete nos dois papéis, permitindo que a série trabalhe mais claramente aquilo que realmente os aproxima e os separa. Darnay e Carton funcionam quase como possibilidades opostas de um mesmo homem, próximos o suficiente para que a comparação seja inevitável, mas emocional e moralmente distantes na maneira como respondem às circunstâncias que encontram.

A química entre Harington, Civil e Mack sustenta esse conflito sem transformar toda a minissérie em um romance de época convencional. Há desejo, competição, ressentimento e afeto, mas existe também uma dimensão muito maior acontecendo fora dessa relação. Conforme a tensão política cresce e a Revolução Francesa deixa de funcionar apenas como contexto histórico para interferir diretamente na trajetória dos personagens, o romance passa a adquirir outra dimensão. Amar alguém nesse universo não significa apenas desejá-lo, mas decidir o que se está disposto a perder por ele.

É também nesse ponto que o arco de Carton ganha força. Uma das grandes dificuldades de qualquer adaptação de “A Tale of Two Cities” está em fazer sua transformação funcionar sem reduzi-la a uma simples trajetória de homem problemático que finalmente encontra uma razão para ser bom. A minissérie entende que sua redenção precisa carregar um componente de autodestruição, amor não correspondido e descoberta de propósito. Harington encontra uma interpretação particularmente eficiente nesse terreno, principalmente porque não tenta retirar do personagem suas características menos agradáveis para torná-lo imediatamente simpático.

Apesar disso, a produção demora um pouco para alcançar sua melhor forma. Os primeiros movimentos são mais expositivos e existe uma sensação inicial de que a série ainda está organizando peças em vez de permitir que elas colidam. Para uma minissérie de apenas quatro episódios, essa lentidão poderia representar um problema considerável, já que existe pouco espaço para desperdiçar tempo. Quando “A Tale of Two Cities” finalmente encontra seu ritmo, porém, a progressão dramática se torna muito mais segura e a aparente lentidão inicial passa a funcionar como preparação para uma narrativa que cresce em intensidade.

Essa evolução acontece principalmente porque a Revolução Francesa deixa gradualmente de parecer uma reconstrução histórica colocada ao fundo dos personagens. A desigualdade social, o ressentimento contra as classes privilegiadas e a violência produzida por um sistema incapaz de sustentar suas próprias estruturas passam a contaminar todos os níveis da história. A produção não precisa transformar Dickens em comentário político explícito para que determinados paralelos sejam reconhecíveis. Existe algo inevitavelmente atual em observar uma sociedade na qual a distância entre aqueles que concentram privilégios e aqueles que acumulam indignação se torna grande demais para permanecer estável.

A série acerta ao não reduzir essa revolta a uma representação simplista de heroísmo popular. A opressão que antecede a ruptura é evidente, assim como a brutalidade que pode surgir quando a justiça começa a se confundir com vingança. O interesse político de “A Tale of Two Cities” está justamente em observar como estruturas violentas produzem novas formas de violência, sem precisar fingir que todos os lados possuem a mesma responsabilidade histórica pelo caos que se estabelece.

Visualmente, a produção trabalha dentro de uma tradição bastante conhecida dos dramas britânicos de época, mas faz isso com enorme competência. Direção de arte, figurinos, objetos de cena e fotografia constroem Londres e Paris não apenas como lugares diferentes, mas como ambientes que carregam temperaturas dramáticas próprias. Existe cuidado suficiente para produzir imersão sem transformar cada enquadramento em uma exposição ostensiva do orçamento. Os elementos técnicos estão a serviço da narrativa, e essa talvez seja uma qualidade menos chamativa, porém muito mais importante, do que simplesmente produzir imagens bonitas.

Richard Clark conduz esse universo com uma direção que prefere valorizar personagens e ambientes em vez de procurar modernizações visuais artificiais. Não existe uma tentativa desesperada de convencer o espectador de que Dickens pode ser moderno por meio de linguagem estilizada ou anacronismos evidentes. A modernização está no texto, na distribuição do protagonismo e na maneira como determinados conflitos são enquadrados. A série não tenta fazer o século XVIII parecer 2026, mas procura fazer com que pessoas de 2026 consigam reconhecer humanidade dentro dele.

Esse cuidado é especialmente importante porque “A Tale of Two Cities” poderia facilmente cair em dois extremos igualmente problemáticos. De um lado estaria uma adaptação excessivamente reverente, preocupada demais em preservar o livro para desenvolver personalidade própria. Do outro, uma releitura determinada a atualizar Dickens até descaracterizá-lo. A minissérie encontra um ponto intermediário bastante eficiente, no qual mudanças importantes são feitas sem que a essência da obra seja tratada como obstáculo.

Lucie representa perfeitamente esse equilíbrio. Transformá-la em uma aspirante a cirurgiã e aumentar radicalmente sua agência modifica a personagem, mas preserva sua função emocional dentro da história. Mais importante ainda, oferece a Mirren Mack material suficiente para competir dramaticamente com Carton, personagem que poderia facilmente engolir toda a produção. Existe uma energia muito particular em sua atuação, uma combinação de vulnerabilidade e determinação que faz com que seja perfeitamente compreensível a força gravitacional exercida por Lucie sobre os homens ao seu redor sem que sua existência seja limitada a isso.

Harington, naturalmente, recebe o personagem mais imediatamente chamativo. Sydney Carton reúne praticamente tudo que um ator pode desejar em um drama desse tipo: inteligência, autodestruição, sarcasmo, desejo, ressentimento e uma trajetória de transformação gigantesca. Ainda assim, a melhor escolha de “A Tale of Two Cities” é não permitir que o carisma de Carton transforme todos os demais personagens em acessórios de sua redenção. É precisamente porque Lucie e Darnay possuem identidade própria que seu arco consegue carregar o peso necessário.

François Civil merece atenção especial por trabalhar no registro menos espalhafatoso dessa equação. Darnay poderia se tornar apenas o homem correto colocado ao lado do homem interessante, mas Civil encontra nuances suficientes para impedir essa simplificação. Sua química com Mack funciona justamente de maneira diferente daquela estabelecida entre Lucie e Carton, e essa distinção ajuda o triângulo amoroso a parecer construído sobre relações diferentes, não apenas sobre dois pretendentes disputando a mesma mulher.

Ao longo de apenas quatro episódios, a série precisa administrar romance, drama familiar, tensão política, perseguição, identidade, sacrifício e uma das trajetórias de redenção mais conhecidas da literatura inglesa. Nem tudo recebe exatamente o mesmo espaço, e existem momentos nos quais a compressão inevitável de uma adaptação televisiva se torna perceptível. Ainda assim, a estrutura limitada também impede que a história seja artificialmente prolongada, algo particularmente importante em uma época na qual tantas adaptações parecem transformar qualquer livro em matéria para várias temporadas.

No centro de tudo permanece uma ideia bastante simples sobre aquilo que uma pessoa pode estar disposta a fazer por outra. O sacrifício em “A Tale of Two Cities” não funciona apenas como gesto romântico, porque está conectado à possibilidade de encontrar sentido em uma existência que parecia desperdiçada. Da mesma forma, liberdade não aparece apenas como conceito político. Cada personagem procura alguma forma particular dela, seja em relação à família, à classe social, ao passado ou à própria percepção de quem deveria ser.

É essa combinação que impede a nova adaptação de parecer apenas mais uma oportunidade de retirar um clássico da estante. “A Tale of Two Cities” compreende que atualizar Dickens não significa corrigir Dickens, mas identificar quais elementos de sua obra continuam vivos e quais precisam ser reposicionados para recuperar sua força. Algumas dessas mudanças serão naturalmente mais controversas para quem procura fidelidade absoluta ao romance, mas funcionam dentro da linguagem que a série estabelece.

No fim, o maior elogio possível talvez seja perceber que a produção não parece uma tarefa escolar filmada. Existe vida, desejo e violência nesse universo, assim como personagens capazes de escapar da condição de figuras históricas preservadas pela literatura. A minissérie demora um pouco para alcançar toda a potência prometida por seu material, mas, quando consegue colocar seus conflitos pessoais e políticos em movimento simultaneamente, encontra uma força dramática considerável.

“A Tale of Two Cities” não precisa substituir o romance de Charles Dickens e tampouco parece interessada em fazê-lo. Sua conquista está em construir uma porta de entrada diferente para uma história que poderia facilmente permanecer associada à obrigação de leitura de outra geração. Ao encontrar personalidade própria sem romper com aquilo que tornou o original tão duradouro, a série transforma reverência em adaptação de verdade e lembra que um clássico permanece relevante não porque deve ser preservado exatamente como era, mas porque ainda consegue ser reinterpretado sem perder aquilo que tinha a dizer.

“A Tale of Two Cities”
Direção:
Richard Clark
Elenco: Kit Harington, François Civil, Mirren Mack, Sharon Duncan-Brewster e Guillaume Gallienne
Disponível em: MGM+

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 3.5 de 5.

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Temas: CríticaFrançois CivilKit HaringtonMirren MackResenhaReview

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