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Crítica: “A Última Missão” (The Pickup)

A ideia de juntar Eddie Murphy e Keke Palmer em um filme de ação com toques de comédia parecia funcionar no papel. Tinha cara de acerto. Bastava o mínimo de direção coerente e um roteiro que entendesse o tom que queria seguir. Só que “A Última Missão” faz exatamente o oposto. O filme não entende o próprio gênero, esbarra em escolhas narrativas frágeis e ainda se perde nos momentos em que deveria brilhar: justamente quando entra a comédia.

Crítica: “A Última Missão” (The Pickup)

É um filme que parece construído a partir de sobras de outras ideias. A proposta de um assalto envolvendo carros-fortes e uma criminosa carismática até tem sua força, mas a execução mergulha num pastiche de cenas mal coladas, piadas deslocadas e ritmo desgovernado. O problema começa pelo tom. O longa quer ser uma comédia irreverente, mas investe em humor que soa datado, desconfortável e, muitas vezes, involuntariamente constrangedor. Boa parte das piadas são forçadas e deslocadas, como se tivessem sido escritas para outro filme, com outro elenco, em outro ano.

Pete Davidson é o grande desequilíbrio aqui. Embora exista uma tentativa de dar carisma ao seu personagem, tudo soa exagerado. A sensação é que ele atua num filme próprio, com timing cômico próprio, descolado da trama principal. Enquanto Murphy e Palmer seguram o que conseguem com profissionalismo e presença de tela, Davidson entrega uma performance tão destoante que chega a comprometer as cenas em que aparece. É como se todo o trabalho de imersão fosse desfeito sempre que ele entra em cena.

Por outro lado, há méritos técnicos que merecem ser apontados. As sequências de ação, embora escassas, são bem coreografadas e contam com um bom uso de efeitos práticos. É justamente nos momentos de perseguição, explosões e caos automobilístico que o filme parece se lembrar de que é um longa de ação. A câmera se move com eficiência e há uma fluidez nas cenas que surpreende, especialmente dentro da mediocridade do restante da obra.

Mas nenhuma boa cena de ação sustenta um filme que insiste em repetir erros básicos de estrutura. O enredo é previsível, o ritmo é irregular e os personagens coadjuvantes são completamente descartáveis. O arco emocional dos protagonistas é superficial e qualquer tentativa de explorar algum sentimento mais genuíno é atropelada por diálogos banais ou subtramas mal desenvolvidas.

O problema maior, no entanto, vai além do roteiro ou do elenco. É uma questão de propósito. “A Última Missão” não sabe o que quer ser. Não é suficientemente engraçado para ser uma comédia, nem intenso o bastante para ser um filme de ação memorável. Fica preso em um limbo criativo, onde nenhuma escolha tem consequência e tudo parece improvisado. Até mesmo a trilha sonora, que tenta emular o tom cômico do filme, acaba reforçando o tom genérico e esquecível da experiência.

E, no fim das contas, o que sobra é um filme que desperdiça um elenco de peso, um orçamento visivelmente generoso e uma premissa que poderia render muito mais. Existe talento envolvido, existe recurso, existe potencial. O que falta é direção. Falta alguém que guie a história com firmeza e saiba amarrar o que está sendo contado. O que se vê na tela é o oposto disso: um amontoado de ideias desconexas embaladas por uma estética que tenta parecer mais divertida do que realmente é.

Se há um consolo, ele está na presença de Murphy e Palmer, que conseguem sobreviver com dignidade ao caos do projeto. Mas até isso soa como elogio resignado, típico de quem assiste esperando pouco e recebe menos ainda. “A Última Missão” é o tipo de filme que a gente termina sem entender como foi aprovado, como teve tanto talento envolvido e, principalmente, como ninguém percebeu o desastre criativo que estava se formando.

“A Última Missão”
Direção: Tim Story
Elenco: Eddie Murphy, Pete Davidson, Keke Palmer, Eva Longoria
Disponível em: Amazon Prime Video

Avaliação: 1.5 de 5.

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