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Crítica: “Adeus, June” (Goodbye June)

Texto: Ygor Monroe
30 de dezembro de 2025
em Cinemas/Filmes, Netflix, Resenhas/Críticas, Streaming

O Natal costuma carregar promessas de reencontro, mas aqui ele surge como um relógio emocional em contagem regressiva. O tempo pesa, os silêncios ganham volume e cada gesto parece definitivo. É nesse território delicado, onde afeto e despedida caminham lado a lado, que a narrativa encontra sua força, transformando uma reunião familiar em um estudo sensível sobre controle, memória e legado.

Crítica: "Adeus, June" (Goodbye June)
Crítica: “Adeus, June” (Goodbye June)

“Adeus, June” constrói seu drama a partir da recusa em romantizar o fim. A doença surge como presença constante, quase um personagem invisível, reorganizando dinâmicas, revelando fraturas antigas e obrigando cada filho a encarar aquilo que sempre ficou em suspenso. O reencontro se dá menos pelo desejo e mais pela urgência, e o filme entende que esse tipo de proximidade costuma vir carregado de ruídos, ressentimentos e tentativas tardias de reparação. O texto aposta na franqueza emocional, evitando discursos fáceis e escolhendo o desconforto como linguagem.

Helen Mirren entrega uma June afiada, espirituosa e profundamente consciente de sua condição. Existe algo de radical na forma como a personagem assume o próprio fim como decisão, transformando a despedida em um gesto de autonomia. Seu humor ácido funciona como mecanismo de defesa, mas também como estratégia narrativa, quebrando o peso do drama sem esvaziar sua gravidade. June dita as regras porque entende que perder o corpo jamais significa perder a voz, e o filme respeita essa escolha até o último instante.

Na direção, Kate Winslet estreia com sensibilidade e rigor emocional. A câmera observa mais do que interfere, interessada nos detalhes que costumam escapar em histórias sobre luto antecipado. Pequenos gestos, pausas incômodas e conversas interrompidas ganham centralidade. O resultado evita o melodrama e aposta em uma encenação contida, coerente com o tema. A dor aqui aparece fragmentada, distribuída em olhares, lembranças e tentativas de normalidade, especialmente quando o Natal se aproxima como ritual que insiste em acontecer.

O elenco sustenta esse equilíbrio com precisão. Toni Collette traz humanidade às contradições da filha que oscila entre força e exaustão, enquanto os demais personagens orbitam June como satélites afetivos, cada um lidando com a perda de maneira singular. O roteiro de Joe Anders entende que o luto começa muito antes da ausência definitiva, e estrutura a narrativa em torno dessa antecipação sufocante, algo reconhecível para quem já viveu despedidas prolongadas.

“Adeus, June” encontra beleza na imperfeição das relações e calor nos reencontros frágeis que surgem em meio ao caos. O filme lembra que quem parte permanece nos rituais, nas memórias compartilhadas e nas datas que insistem em voltar, especialmente quando a mesa de Natal carrega cadeiras vazias e histórias que seguem sendo contadas.

“Adeus, June”
Direção:
Kate Winslet
Elenco: Helen Mirren, Kate Winslet, Toni Collette
Disponível em: Netflix

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 3.5 de 5.

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Temas: CríticaHelen MirrenKate WinsletResenhaReviewToni Collette

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