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Crítica: “Amores Materialistas” (Materialists)

Há uma certa ousadia em filmar sobre amor em tempos de saldo negativo. Ainda mais quando se trata de um amor que precisa caber entre boletos, desejos acumulados e dilemas de status social. “Amores Materialistas”, novo longa de Celine Song, não tenta nos convencer de que o romantismo sobrevive ileso à era dos aplicativos, mas também não o sacrifica no altar do cinismo moderno. Em vez disso, o filme propõe um encontro incômodo, melancólico e, ao mesmo tempo, cômico entre o amor idealizado e o amor possível.

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Crítica: “Amores Materialistas” (Materialists)

É curioso perceber como a diretora, responsável por “Vidas Passadas”, escolhe agora não o silêncio contemplativo, mas o barulho da cidade, dos encontros estratégicos e dos relacionamentos calculados. Nova York não é pano de fundo, mas peça central. A câmera passeia por uma cidade que não dorme e, principalmente, não perdoa quem esqueceu o preço da ambição. Celine Song filma como quem já entendeu que a vida adulta é, acima de tudo, uma sucessão de negociações entre o que se quer e o que se pode pagar. Literalmente.

No centro disso tudo está Lucy, interpretada por Dakota Johnson em uma das performances mais afiadas da carreira. Ela é uma casamenteira de elite, arquiteta de casais perfeitos para pessoas imperfeitas, alguém que organiza a vida amorosa dos outros enquanto a sua própria desmorona sob o peso das dívidas, dos fantasmas sentimentais e das decisões que, cedo ou tarde, cobram juros. A protagonista vive entre planilhas emocionais e planilhas financeiras, tentando entender onde termina o afeto e começa o investimento.

É aí que entra o triângulo. Não o amoroso, mas o estrutural. Porque “Amores Materialistas” não constrói tensão apenas entre três personagens, mas entre três ideias que se opõem o tempo inteiro: o amor como paixão, o amor como contrato e o amor como fuga. E nesse campo minado, Pedro Pascal e Chris Evans surgem não como rivais em uma disputa tola, mas como representações opostas de mundos inconciliáveis.

O texto de Song é cruel e encantador ao mesmo tempo. Existe uma comicidade afiada em cada linha, mas também uma tristeza que se infiltra devagar, como conta de luz atrasada. O filme nos faz rir não porque é leve, mas porque é absurdo. Porque há algo cômico em reconhecer que até o amor, esse sentimento supostamente puro, está sujeito à lógica de mercado.

Não é difícil imaginar por que esse longa vem sendo chamado de “comédia romântica retrô para adultos”. Ele evoca o charme dos anos 80 e 90, mas sem nostalgia plastificada. A sofisticação está no texto, no ritmo, nos silêncios desconfortáveis e nas pausas que dizem mais que qualquer declaração apaixonada. É uma obra que brinca com os clichês do gênero, mas nunca se acomoda neles.

Sim, há exageros. Sim, a premissa soa improvável. E sim, nem todo personagem parece ter saído de um mundo real. Mas é justamente essa camada de artificialidade que torna o filme mais honesto. Afinal, quem nunca se pegou idealizando uma vida que simplesmente não existe? “Amores Materialistas” reconhece o absurdo do próprio tempo e, ao invés de fugir dele, o abraça com ironia e sensibilidade.

Há também uma surpresa inesperada: Chris Evans. O eterno herói da Marvel finalmente parece confortável em um papel mais humano, falho, cotidiano. Sua atuação tem um tipo raro de entrega que dispensa heroísmo e busca, ao contrário, a vulnerabilidade que ele passou a maior parte da carreira tentando evitar. É uma presença que funciona porque não tenta dominar a cena, mas compartilhá-la.

“Amores Materialistas” pode não ter o impacto emocional de “Vidas Passadas”, mas isso é parte do seu projeto. Celine Song não repete a fórmula. Ela estuda novas linguagens, novos ritmos, novos desconfortos. Aqui, o amor não é lembrança de infância nem romance de verão, mas um contrato informal entre desejos e limites, em uma sociedade que mede afeto com a mesma régua com que mede o patrimônio.

Ao fim, fica a sensação de que vimos algo raro: uma comédia romântica que trata o amor como algo adulto. Com todas as contradições, ironias, fragilidades e cálculos que isso implica. E isso, por si só, já é um feito digno de atenção.

Avaliação: 4 de 5.

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