Existe algo de profundamente sintomático em um estúdio revisitar uma franquia como “Anaconda” tentando rir de si mesmo antes que o público o faça. O problema é que ironia planejada raramente substitui intenção artística. A versão de 2025 parte de uma ideia que parece promissora no papel, um grupo de amigos em crise de meia-idade decide refazer o filme que marcou sua juventude, mas transforma esse ponto de partida em um emaranhado de metalinguagem frouxa, humor disperso e referências que jamais encontram forma.
Dirigido por Tom Gormican, o novo “Anaconda” se apresenta como sátira, comentário sobre Hollywood, paródia de blockbuster e aventura de sobrevivência. O filme tenta ser tudo ao mesmo tempo e acaba sem identidade própria, como se estivesse mais interessado em piscar para o espectador do que em construir uma narrativa minimamente consistente.
A trama leva seus personagens para uma floresta tropical com o objetivo de refilmar o clássico de 1997. O que deveria ser um jogo entre nostalgia e caos vira uma sucessão de situações desarticuladas, onde o perigo real nunca se estabelece e o humor raramente encontra timing. Fenômenos climáticos, criminosos genéricos e cobras gigantes surgem como obstáculos protocolados, sem peso dramático ou imaginação visual. O perigo existe por obrigação de roteiro, nunca como ameaça real.
O discurso metacinematográfico também se revela raso. A ideia de um estúdio impedindo a circulação do filme dentro do próprio filme surge como provocação, mas é abandonada rapidamente, tratada como piada lateral. Falta coragem para assumir uma crítica mais incisiva ao próprio sistema que viabiliza esse tipo de produção. O longa prefere a zona de conforto do deboche vazio.
O elenco, que poderia ser um trunfo, acaba reforçando essa sensação de desperdício. Paul Rudd, Jack Black e Steve Zahn operam em registros previsíveis, como versões cansadas de arquétipos que já interpretaram inúmeras vezes. A química entre eles é anunciada, mas raramente sentida, e o texto jamais oferece material suficiente para que essa dinâmica floresça. Daniela Melchior surge como promessa visual e simbólica, mas sua personagem carece de presença dramática, reduzida a um desenho sem carisma ou função clara dentro da história.
Tecnicamente, o filme também patina. Os efeitos visuais das cobras gigantes variam entre o aceitável e o descuidado, sem criar impacto ou sensação de escala. A montagem aposta em cortes abruptos e piadas jogadas ao vento, criando uma experiência irregular, quase improvisada. O humor escatológico e as piadas fáceis surgem como muleta constante, reforçando a impressão de que o roteiro jamais confiou na própria premissa.
Talvez o maior problema de “Anaconda” seja sua relação confusa com o legado do original. O filme de 1997 sempre ocupou um espaço curioso entre o trash involuntário e o entretenimento descompromissado. Essa nova versão parece incapaz de decidir se trata esse passado com carinho, desprezo ou oportunismo. A nostalgia aqui funciona mais como atalho do que como diálogo verdadeiro com a memória do público.
No fim, “Anaconda” se revela um projeto que tenta rir antes de assustar, comentar antes de contar e referenciar antes de criar. A ideia de homens adultos confrontando o passado poderia render algo honesto, até melancólico, mas o filme escolhe o caminho da piada fácil e da autoconsciência vazia. O resultado é uma aventura que passa sem deixar marcas, incapaz de honrar o absurdo do original ou de justificar sua própria existência.
“Anaconda”
Direção: Tom Gormican
Elenco: Paul Rudd, Jack Black, Steve Zahn, Selton Mello
Disponível em: Cinemas
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