Tem algo de podre por trás da casa de revista em que vive Ángela. E não é só o marido. A minissérie espanhola “Ángela” escancara o que muita ficção ainda hesita em tocar: o terror doméstico que não faz barulho, mas que destrói em silêncio. Aquelas histórias em que a agressão mora na pausa, no olhar, no medo que atravessa o jantar de família. É sobre isso que estamos falando aqui. E a série até tenta enfeitar o enredo com camadas de suspense, mistério e reviravoltas, mas no fim das contas, o que realmente gruda no espectador é a dor que se sussurra dentro de casa.
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A trama parte de um ponto conhecido, quase engessado. Ángela vive numa casa linda, casada com um homem que é bem-sucedido, simpático, respeitado. O tipo de casal que os vizinhos invejam. Só que tudo isso desmorona assim que a porta se fecha. Gonzalo, o marido, é um abusador clássico. Não é o monstro óbvio, é o homem que controla tudo com calma, que manipula com sorriso, que vai minando a força da mulher aos poucos, como quem seca um rio gota a gota. E Verónica Sánchez entrega tudo isso com um peso que a câmera não consegue esconder. Mesmo quando o roteiro se perde, é ela que segura tudo.
A série até começa bem. Nos dois primeiros episódios, há uma tensão honesta, uma ambientação que respira desconforto. A costa basca com seu céu pesado, o mar sempre prestes a explodir, o silêncio entre as falas. Está tudo ali, refletindo a cabeça de Ángela. E aí surge Edu, uma figura do passado que parece oferecer a saída, mas que carrega consigo novas dúvidas. Ele fala sobre planos de assassinato, acusações, conspirações. E de repente a série flerta com uma paranoia que até faz sentido num primeiro momento, mas que vai se desgastando ao longo dos capítulos.
É aí que “Ángela” começa a se atrapalhar com as próprias promessas. As reviravoltas que deveriam levantar a trama acabam tirando dela o chão. O roteiro recorre a truques que a gente já viu dezenas de vezes em thrillers genéricos. Personagens tomam decisões que não fazem o menor sentido. E o que era pra ser um drama psicológico vai virando um jogo de gato e rato que exige uma dose de paciência e boa vontade cada vez maior.
Mesmo assim, é injusto dizer que a série não tem força. Porque quando ela foca no que realmente importa, acerta em cheio. A forma como representa a violência psicológica é dolorosamente precisa. Sem exagero, sem vitimização teatral, sem transformar o horror em espetáculo. Gonzalo é um personagem assustador justamente por ser plausível. E é esse tipo de vilão que mais assusta. O que está por aí, sorrindo, segurando a mão da esposa em público, dando bom dia ao porteiro, e que, à noite, vira juiz e carrasco.
Outro acerto importante está na forma como a produção adapta uma história britânica para a realidade espanhola. A série é local, intimista, com alma ibérica. Tira o glamour do suspense anglófono e mergulha na dor com sotaque castelhano. Isso traz um peso diferente. Torna tudo mais próximo, mais urgente. E talvez seja essa a grande razão para assistir.
“Ángela” não é perfeita. Longe disso. Se perde quando tenta ser mais do que é. Mas quando se permite ser aquilo que promete no início um retrato incômodo da violência silenciosa, ela entrega. E entrega bem. É uma minissérie que incomoda mais do que empolga. E isso, nesse caso, é um elogio.
“Ángela” (2025)
Dirigido por Norberto “Tito” López-Amado
Elenco: Verónica Sánchez, Daniel Grao, Jaime Zataraín
Disponível na Netflix
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