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Crítica: “Anjos do Deserto” (Dirty Angels)

Filme de guerra que começa com Eva Green de metralhadora na mão e cara de poucos amigos já deveria vir com aviso: pode ser cilada. “Anjos do Deserto” tenta ser tudo ao mesmo tempo. Missão de resgate, denúncia geopolítica, empoderamento feminino armado, trauma militar, crítica ao fundamentalismo, pancadaria hollywoodiana. Mas o que entrega é um amontoado de intenções mal costuradas que, no fim das contas, funciona mais como paródia involuntária do que como cinema de verdade.

Crítica: “Anjos do Deserto” (Dirty Angels)

A ideia até parece funcionar no papel: uma equipe de mulheres infiltradas em zona de guerra, sob disfarce humanitário, tentando libertar adolescentes feitas reféns no Afeganistão. Só que o filme nunca tem coragem de escolher que história quer contar. Em vez de mergulhar no drama ou na tensão real de uma operação militar clandestina, ele se perde em diálogos artificiais, tiroteios genéricos e uma protagonista que parece saída de um filme diferente, com sotaque forçado e uma dureza de cartolina.

Eva Green pode ter muita presença em cena, mas nada funciona quando o texto entrega frases dignas de roteiro infantil. A personagem Jake é escrita como se fosse uma paródia de heroína militar, daquelas que falam em voz rouca, quebram protocolos, desafiam superiores e fazem questão de tomar decisões erradas com uma convicção que beira o absurdo. Ela não é carismática, não é complexa, só é teimosa e incoerente do começo ao fim. E o mais estranho: o roteiro parece saber disso, mas insiste em levá-la a sério.

A ação, que deveria ser o ponto forte, oscila entre o prático e o risível. Há momentos em que tudo parece se alinhar cortes precisos, planos bem encaixados, uma energia crua e interessante mas eles desaparecem tão rápido quanto surgem. Logo estamos de volta a explosões fora de lugar, cenas de violência gratuitas e decisões de direção que passam longe de qualquer sensibilidade. O problema não é mostrar o horror da guerra, é fazer isso sem contexto, sem humanidade e com um didatismo tosco travestido de espetáculo.

O grande dilema de “Anjos do Deserto” é que ele tenta fingir profundidade com elementos de filme B. O resultado é um híbrido mal resolvido, que não consegue ser nem entretenimento escapista nem crítica contundente. Faltou coragem para ser o que queria, e faltou finesse para esconder o que é: um projeto genérico embalado com estética de vídeo promocional de exército particular.

Martin Campbell já comandou grandes franquias de ação, sabe como movimentar uma câmera e construir cenas visualmente fortes. Mas aqui parece mais um trabalho automático, sem identidade e sem alma. A trilha sonora tenta empurrar emoção, os diálogos tentam impor heroísmo e os personagens tentam parecer importantes. Nada disso cola. Porque não existe urgência real, nem consequência dramática, nem risco verdadeiro. É só mais um título que poderia ter sido um curta, mas foi esticado até virar um longa esquecido em alguma aba da plataforma.

“Anjos do Deserto” tenta soar atual, mas parece ter sido feito com uma cartilha velha sobre Oriente Médio, guerra santa e exército americano como salvador do mundo. Não há nuance, não há escuta, só um amontoado de clichês reembalados com nomes femininos no comando. O resultado, ao invés de provocar, entretém do pior jeito possível: com constrangimento e incredulidade.

O espectador que resiste até o final pode até rir de algumas decisões de roteiro, da ausência de senso tático dos personagens e das reviravoltas patéticas. Mas rir por vergonha alheia não é o mesmo que se divertir. E se um filme de ação termina com essa sensação, alguma coisa foi muito mal calibrada.

“Anjos do Deserto”
Direção: Martin Campbell
Elenco: Eva Green, Ruby Rose, Maria Bakalova, Jojo T. Gibbs, Emily Bruni, May Kurtz
Disponível em: Prime Video

Avaliação: 2 de 5.

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