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Crítica: Arctic Monkeys, “The Car”

Texto: Ygor Monroe
6 de junho de 2025
em Música, Resenhas/Críticas

“The Car” é, antes de qualquer definição estética ou comparação referencial, um projeto que entende o tempo como matéria-prima e o silêncio como arquitetura sonora. Depois de ter transformado radicalmente sua narrativa em “Tranquility Base Hotel & Casino”, o Arctic Monkeys retoma em seu sétimo álbum não o gesto de continuidade, mas o de expansão. A banda agora trabalha com as mãos de um restaurador: cada detalhe parece esculpido com precisão, num exercício de contenção, densidade e absoluto controle formal.

Confira a agenda de shows de junho em São Paulo

Crítica: Arctic Monkeys, "The Car"
Crítica: Arctic Monkeys, “The Car”

A produção de James Ford, que já acompanha o grupo há anos, é elevada aqui a um novo patamar. Tudo no disco existe com uma distância cirúrgica entre intenção e execução. O som é vintage sem ser retrô, cinematográfico sem se render à caricatura, introspectivo sem perder o senso de direção. O arranjo se transforma em linguagem. A canção, em estrutura dramática. Nada é feito para soar urgente. Tudo é orquestrado para durar.

A textura sonora do álbum se comporta como um filme antigo projetado em 35mm. A mixagem privilegia os espaços vazios, os pequenos ruídos do ambiente, os timbres esmaecidos que evocam gravações analógicas de décadas passadas. Mas longe de funcionar como pastiche ou exercício de estilo, o disco se estabelece como uma experiência que rediscute o próprio papel da banda enquanto entidade sonora. É uma obra que caminha em oposição à estética da performance: o virtuosismo aqui é sutil, quase imperceptível, porque não é exibido, é funcional. Serve ao clima, serve à intenção, serve à construção de uma ambiência meticulosa.

Há um uso rigoroso da instrumentação como elemento de narrativa. Os arranjos de cordas não estão a serviço do melodrama, mas da sugestão. Os teclados e guitarras surgem mais como textura do que como protagonistas. A bateria não marca o compasso, ela desenha espaços. E a voz de Alex Turner, deliberadamente deslocada, se comporta como narrador de um filme europeu dos anos 70: distante, ambíguo, um personagem que se move entre o lamento e a observação crítica. Há algo de cínico e sofisticado em sua entrega, como se cada frase estivesse sendo dita pela segunda vez, já com o peso de quem entendeu tudo tarde demais.

A comparação com o disco anterior é inevitável, mas insuficiente. “The Car” leva adiante não apenas a estética de “Tranquility Base Hotel & Casino”, mas radicaliza seus princípios. O álbum se recusa a pertencer a qualquer lógica comercial contemporânea. Não há refrões memoráveis no sentido tradicional, não há clímax emocional, não há sequer a preocupação em facilitar sua própria leitura. Trata-se de um disco que exige escuta lenta, atenta, quase ritualística. A recompensa está no acúmulo, na repetição, na imersão.

É também, possivelmente, o trabalho mais lírico e complexo de Turner enquanto compositor. A escrita atinge um grau de elaboração poética que abandona a observação juvenil dos primeiros álbuns e se entrega à linguagem das imagens distorcidas, das metáforas opacas, da ironia melancólica. As letras são menos narrativas e mais impressionistas. Há uma neblina permanente no texto, como se os significados estivessem sempre prestes a escapar. Isso não é um erro de clareza, mas uma escolha estética. Um compromisso com a sugestão e com a ambivalência.

“The Car” confirma que o Arctic Monkeys abandonou definitivamente qualquer ideia de atender expectativas externas. O que ouvimos aqui é o som de uma banda que entendeu seu lugar na história e escolheu escavar esse lugar até transformá-lo em outra coisa. Não há aqui o menor gesto de regressão. O rock é apenas uma referência distante. O pop, uma moldura que já não molda. O grupo decide habitar um espaço próprio, e esse espaço é mais próximo da música como arte plástica, como arquitetura emocional, do que como produto de entretenimento.

É difícil dizer se “The Car” será lembrado como um clássico imediato. Provavelmente não. Mas isso também faz parte do que o torna tão valioso. Ele não quer ser compreendido de imediato. Ele exige tempo, silêncio, releitura. Como uma obra que recusa o espetáculo para construir permanência, esse disco se projeta para o futuro como uma peça que amadurecerá com quem tiver a paciência de habitá-lo. E nisso, talvez, resida sua maior ousadia.

Nota: 100/100

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