O desconforto surge muito antes de qualquer imagem explícita, como um ruído baixo que cresce até ocupar todos os espaços. “As Fitas de Poughkeepsie” se constrói exatamente nesse território, onde o horror não depende do que é mostrado, mas do que é sugerido, do que ecoa na mente e insiste em permanecer.

A premissa é simples e, por isso mesmo, profundamente perturbadora. Uma coleção de fitas revela registros de crimes ao longo de anos, compondo um retrato fragmentado de um serial killer que transforma violência em linguagem. O filme entende que o verdadeiro medo nasce da sensação de realidade, e utiliza o formato de falso documentário para borrar qualquer linha de segurança entre ficção e possibilidade.
Dirigido por John Erick Dowdle, o longa aposta no estilo found footage como ferramenta central. As imagens granuladas, a estética crua e a ausência de acabamento tradicional criam uma atmosfera sufocante. Existe uma intenção clara em tornar tudo imperfeito, como se cada frame fosse um vestígio encontrado por acaso, e não algo cuidadosamente encenado.
Esse recurso funciona com força nas sequências das fitas em si. São nesses momentos que o filme atinge seu ápice, provocando um desconforto difícil de ignorar. A violência psicológica supera qualquer necessidade de choque visual direto, e a ausência de excessos gráficos acaba intensificando a experiência, ainda que possa frustrar quem espera algo mais explícito.
Por outro lado, as entrevistas que estruturam o falso documentário nem sempre sustentam o mesmo impacto. Existe uma irregularidade nas atuações e nos diálogos que quebra a imersão em alguns momentos. Ainda assim, a proposta permanece sólida o suficiente para manter o espectador envolvido, especialmente quando a narrativa retorna ao material das fitas.
Comparações com outros títulos do gênero são inevitáveis. O filme dialoga com a sensação de realismo que marcou “The Blair Witch Project” e a crueza de “Cannibal Holocaust”, ao mesmo tempo em que se aproxima de produções que exploram o fascínio por crimes reais. A obra se posiciona como um reflexo direto dessa obsessão cultural, questionando até que ponto o interesse pelo horror também é uma forma de consumo.
Existe um elemento adicional que torna a experiência ainda mais inquietante. A ideia de que histórias como essa poderiam existir fora da tela. O filme se alimenta dessa possibilidade, construindo um terror que ultrapassa o espaço da narrativa e se instala no imaginário coletivo.
Mesmo com limitações evidentes, “As Fitas de Poughkeepsie” se destaca dentro do found footage por sua capacidade de incomodar. Não busca agradar, nem oferecer respostas diretas. Prefere deixar lacunas, sugerir mais do que mostrar e, principalmente, provocar. É um filme que entende o poder do não dito, e encontra nele sua principal força.
“As Fitas de Poughkeepsie”
Direção: John Erick Dowdle
Roteiro: Drew Dowdle, John Erick Dowdle
Elenco: Stacy Chbosky, Ben Messmer, Samantha Robson
Disponível em: Amazon Prime Video
Trono de Ferro por gerações. Embora detalhes oficiais ainda não tenham sido confirmados, o projeto reforça a estratégia de expansão contínua da marca.






