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Crítica: Bruno Mars, “The Romantic”

Há artistas que demoram quase uma década para voltar porque estão arquitetando uma revolução. Outros retornam para reafirmar território. Em “The Romantic”, Bruno Mars parece escolher a segunda opção. O problema é que reafirmar território, quando se é um dos nomes mais carismáticos do pop, pode soar menos como segurança e mais como acomodação.

Crítica: Bruno Mars, “The Romantic”

Lançado após o hiato solo iniciado em “24K Magic” e depois do projeto colaborativo “An Evening with Silk Sonic”, ao lado de Anderson .Paak, o novo álbum carrega o peso de uma expectativa construída ao longo de anos. Estamos falando de um artista que transformou revival em linguagem própria, que fez do flerte com o passado uma assinatura pop irresistível. Justamente por isso, repetir a equação sem expandi-la se torna um risco.

O primeiro impacto veio com “I Just Might”, single que estreou no topo da Billboard e reforçou o poder comercial de Mars. É uma faixa eficiente, construída com precisão cirúrgica, refrão calculado e produção impecável. Funciona. Mas funcionar nunca foi suficiente para quem já entregou excelência com naturalidade. Competência técnica não é sinônimo de arrebatamento.

O disco abre com “Risk It All”, uma das faixas mais interessantes do repertório. Há ali um tempero latino que valoriza o alcance vocal de Mars e lembra por que ele se tornou referência em performance. Sua voz continua elástica, segura, cheia de intenção. Se existe algo inquestionável em “The Romantic”, é o domínio vocal de Bruno Mars. Ele canta como poucos na indústria atual, com controle e teatralidade na medida exata.

O problema começa quando o álbum se acomoda em uma zona de conforto excessivamente familiar. As levadas de R&B com perfume retrô, os grooves de funk polido, as harmonias açucaradas, tudo soa reconhecível demais. Em alguns momentos, parece que estamos ouvindo sobras conceituais de “An Evening with Silk Sonic”, mas sem a química contagiante que aquele encontro proporcionou. A ousadia que surgiu no diálogo com Anderson .Paak aqui dá lugar a uma previsibilidade elegante, porém morna.

É curioso observar que “The Romantic” foi gestado ao longo de anos, com nomes de peso nos bastidores e um cuidado quase obsessivo na finalização. A narrativa de bastidor sugeria reinvenção, um novo capítulo sonoro. O que chega aos ouvidos, no entanto, é um álbum que prefere lapidar o que já estava pronto. Falta risco, falta tensão, falta a sensação de que algo pode sair do controle. E arte pop memorável, muitas vezes, nasce justamente desse descontrole calculado.

Há canções que cumprem seu papel radiofônico com dignidade. Ganchos funcionais, refrões pegajosos, produção cristalina. Mas poucas realmente permanecem após a última faixa. Em vez de ampliar a identidade construída em “24K Magic”, o disco parece reduzi-la a um manual de boas práticas do pop soul.

Isso não significa fracasso. “The Romantic” está longe de ser um desastre. É um álbum correto, bem produzido, cantado com excelência e embalado por uma estratégia de mercado sólida, que inclui a ambiciosa “The Romantic Tour”. Os números certamente acompanharão o prestígio do artista. Mas grandeza artística não se mede apenas por estreia em primeiro lugar ou agenda lotada.

Bruno Mars continua sendo um performer magnético, um hitmaker nato, um artista que entende o palco como poucos de sua geração. O que este álbum revela é outra coisa: talvez o romantismo do título esteja menos nas letras e mais na relação nostálgica do próprio artista com a sua fórmula vencedora.

“The Romantic” deixa uma sensação agridoce. Há brilho, há técnica, há profissionalismo. Falta aquele elemento que transforma boas músicas em clássicos inevitáveis. Para quem já provou ser capaz de reinventar o passado e transformá-lo em presente pulsante, entregar apenas uma repetição bem acabada soa pequeno.

Nota final: 55/100

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