“Bugonia” é Yorgos Lanthimos entregando caos, sátira, violência e delírio numa mesma embalagem, como se o cineasta estivesse brincando com o absurdo até descobrir que esse absurdo é mais real do que imaginamos. A premissa parece saída de um fórum conspiracionista qualquer: dois primos convencidos de que uma CEO poderosa é uma alienígena disfarçada decidem sequestrá-la para impedir uma invasão que só existe na cabeça deles. O que o filme faz a partir dessa ideia ultrapassa o limite do humor e ingressa em uma zona onde riso e desconforto caminham lado a lado. É cinema que provoca, incomoda, diverte e fere ao mesmo tempo.
O longa começa com calma, como quem observa o cotidiano de Teddy e Don enquanto cuidam de abelhas e cultivam paranoia. Em poucos minutos, o espectador entende que Teddy vive à beira de um colapso, alimentado por teorias que lhe oferecem respostas simples para dores complexas. É uma crítica direta à cultura da desinformação, mas Lanthimos evita transformar isso em discurso. Ele prefere apresentar o delírio em sua forma mais crua, sem explicar demais. O sequestro de Michelle Fuller, interpretada por Emma Stone, chega cedo e altera o filme como uma ruptura inevitável. A partir dali, a história aciona um ritmo que não recua até o último minuto.
O encontro entre esses três personagens faz o filme explodir em tensão, humor, violência e absurdo coreografado com precisão. Lanthimos alterna o grotesco e o hilário com uma naturalidade que poucos diretores conseguem alcançar, e a última hora se transforma em um espetáculo de imprevisibilidade. Tudo pode acontecer e, de certa forma, tudo acontece. A sensação é de estar completamente à mercê do diretor, incapaz de prever o que surge a seguir.
Emma Stone, novamente, mostra que sua colaboração com Lanthimos é especial. Ela entrega uma Michelle que tenta desesperadamente recuperar o controle do ambiente, algo impossível quando seus sequestradores vivem dentro de uma bolha paranoica. Sua interpretação combina humor ácido, fúria silenciosa e uma fisicalidade impressionante, especialmente à medida que a personagem perde camadas de poder, literal e simbolicamente. É um trabalho que confirma, mais uma vez, o status de Stone como uma das atrizes mais completas da atualidade.
Jesse Plemons, por sua vez, apresenta um Teddy que mistura vulnerabilidade e brutalidade. Ele funciona como um retrato de tantos homens jovens que se veem esmagados por estruturas que não compreendem e encontram nas teorias conspiratórias uma forma distorcida de propósito. Don, vivido por Aidan Delbis, suaviza a equação com uma ingenuidade que gera momentos de humor involuntário e tristeza profunda. Os três juntos sustentam a força dramática e cômica do filme, especialmente nas cenas em que humor e horror parecem se anular, mas na verdade se alimentam.
A direção de Lanthimos surpreende por parecer mais contida esteticamente. A câmera é menos extravagante do que em trabalhos anteriores, mais simples e direta, quase como se o diretor estivesse interessado em observar seus personagens com maior proximidade. Essa escolha cria uma sensação de realidade que aumenta ainda mais o impacto das situações absurdas. O terceiro ato é um ponto alto, rompendo a claustrofobia dos dois primeiros e expandindo a história para um território que combina cinema de gênero, sátira política e delírio visual.
“Bugonia” opera como uma lente que amplia o desespero de uma geração sem bússola, cercada por ruído, teorias sem sentido e a tentativa constante de encontrar culpados para dores íntimas. É engraçado, cruel, estranho e profundamente criativo. É também um dos filmes mais envolventes do ano. Poucas obras recentes conseguem equilibrar tamanha ousadia com tamanha clareza narrativa.
O que Lanthimos cria aqui é um retrato distorcido do presente. Um espelho rachado, mas ainda assim um espelho.
E a imagem refletida é engraçada até o momento em que fica impossível rir.
“Bugonia”
Direção: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Will Tracy
Elenco: Emma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis
Disponível nos cinemas a partir de 22 de janeiro
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