Tem obras que parecem pequenas à primeira vista, mas escondem um impacto que cresce em silêncio. Não é sobre um cachorro. É sobre o que sobra quando a água leva tudo. É nesse território que “Caju, Meu Amigo” se instala, partindo de uma ferida ainda aberta, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, para construir uma narrativa íntima sobre perda e reconstrução.

A trama acompanha Rafa e Nice, duas mulheres atravessadas pela mesma tragédia e ligadas, sem planejamento algum, pelo mesmo animal. O cão que já foi Caju, depois Pingo e mais tarde Tupã não simboliza apenas afeto. Ele representa três formas distintas de amar e três tentativas de recomeçar. A multiplicidade de nomes traduz a fragmentação deixada pela enchente, como se cada nova identidade fosse uma maneira de sobreviver ao que foi arrancado.
O roteiro opta por um caminho delicado, às vezes até contido demais para a dimensão do trauma que aborda. Rafa adota o cachorro sem saber que ele pertencia a Nice, que o perdeu durante o caos. Quando essa informação vem à tona, o conflito poderia descambar para uma disputa convencional. O filme, no entanto, prefere explorar ressentimentos silenciosos, dores mal resolvidas e, sobretudo, o reconhecimento de que ambas perderam muito mais do que um animal de estimação.
Há um momento crucial em que a narrativa explicita uma tensão social incômoda. A personagem vivida por Vitória Strada vocaliza a percepção de quem observa a tragédia de fora e acredita que o tempo basta para curar. Como se trauma tivesse prazo de validade. Como se reconstruir paredes fosse o mesmo que reconstruir memória. Ao colocar essa fala em cena, o longa confronta a ideia simplista de superação rápida e expõe a distância entre quem viveu a enchente e quem apenas acompanhou as notícias.
Entre as imagens mais fortes está a da senhora que, após perder absolutamente tudo, encontra intacto um álbum de fotos sobre a geladeira. Não restaram móveis nem estrutura, apenas memórias impressas resistindo ao barro. É nesse instante que o filme transcende o drama individual e toca na questão da identidade. O que define uma vida não é o que pode ser comprado novamente, mas aquilo que guarda histórias.
Do ponto de vista narrativo, algumas escolhas enfraquecem a potência do conjunto. O reencontro com o cachorro, guiado apenas pelo som de um uivo, soa conveniente demais para uma história que se constrói sobre perdas tão profundas. Faltam complexidade e risco dramático nesse momento específico. Ainda assim, o impacto emocional permanece, sustentado pela verdade que atravessa as personagens.
Liane Venturella oferece uma atuação marcada pela naturalidade. Sua presença em cena carrega a sensação de testemunho, como se o corpo da atriz fosse extensão da memória coletiva de quem enfrentou a tragédia. O restante do elenco acompanha com coerência, permitindo que o animal seja elo central sem que a narrativa descambe para o melodrama fácil.
A decisão final de compartilhar a guarda do cachorro poderia parecer idealizada, mas funciona dentro da lógica proposta. Em vez de disputar o pouco que restou, as personagens optam por dividir. O gesto transforma a dor em pacto e sugere que reconstruir também passa por abrir espaço para o outro.
“Caju, Meu Amigo” evita discursos grandiosos sobre crise climática e prefere concentrar-se no cotidiano de quem ficou. Não busca respostas definitivas, mas provoca uma pergunta essencial: o que significa continuar quando tudo foi interrompido? Mais do que um drama sobre um animal, trata-se de um retrato sensível sobre luto coletivo, memória e a capacidade humana de reinventar vínculos diante do colapso.
“Caju, Meu Amigo”
Direção: Bruno Carboni
Elenco: Cachorro Tofu, Liane Venturella, Vitória Strada, Adriano Bassegio, Bruno Fernandes, Cecília Guedes, Gabriela Poester
Disponível em: Globoplay
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