O segundo disco de Cardi B chega como uma espécie de espetáculo de si mesmo. “Am I the Drama?” não é apenas um título provocador, é quase uma pergunta retórica que a artista transforma em identidade estética. Depois de anos de expectativa, promessas, atrasos e um marketing construído com habilidade cirúrgica, Cardi entrega um projeto que quer ser grande, quer ser intenso e quer marcar posição em um cenário do hip-hop feminino que hoje é muito mais plural e competitivo do que quando ela surgiu.
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Há algo de cinematográfico na forma como “Am I the Drama?” se apresenta. A própria estética visual, repleta de aves negras e alusões a clássicos do cinema, reforça essa ideia de que não estamos apenas diante de um disco, mas de uma narrativa em expansão. Cardi B sempre se moveu nesse território entre música, espetáculo e cultura pop, e aqui isso se intensifica. O álbum é um manifesto de autopreservação e de reposicionamento, uma resposta ao tempo que passou e à mudança do jogo.
O projeto carrega a marca de ser resultado de sete anos de construção e lapidação. Esse longo intervalo entre “Invasion of Privacy” e seu sucessor traz uma pressão natural: o público esperava um clássico, e Cardi sabia disso. O que se ouve em “Am I the Drama?” é uma tentativa de equilibrar a grandiosidade com a acessibilidade, a força da persona com a versatilidade das colaborações. Há participações que reforçam esse caráter expansivo, algumas funcionando como combustível e outras soando como ruído, mas sempre orbitando a figura central de Cardi, que nunca perde a dianteira da narrativa.
Tecnicamente, o álbum é generoso em batidas contemporâneas, alternando entre momentos de energia quase clubber e passagens mais contemplativas. A produção privilegia o impacto, mas nem sempre sustenta a densidade que o projeto exige. Essa é talvez a maior contradição da obra: a grandiosidade do conceito contrasta com a irregularidade da execução. “Am I the Drama?” é um disco que mostra uma artista ainda gigante em carisma, mas por vezes refém de uma repetição que enfraquece o efeito do todo.
É impossível ignorar a forma como Cardi B manipula a ideia de “drama” não só como provocação, mas como linguagem artística. Há algo de teatral em suas rimas, em sua entrega vocal, na forma como cada verso parece encenar uma versão amplificada de sua vida pública. Ao mesmo tempo, essa teatralidade cobra um preço: a duração extensa do álbum torna o ouvinte cúmplice de altos e baixos que poderiam ser evitados com maior foco narrativo.
Comparado ao impacto avassalador de sua estreia, “Am I the Drama?” não alcança a mesma coesão. Mas o disco não se rende ao papel de continuação apagada. Pelo contrário, Cardi B reafirma sua capacidade de construir momentos memoráveis, mesmo que o conjunto não atinja a perfeição que se esperava. O álbum se sustenta como um retrato do presente, um registro de uma artista em constante embate entre ser ícone e ser relevância.
No fim das contas, “Am I the Drama?” é menos sobre responder à pergunta que dá título ao trabalho e mais sobre encenar essa dúvida diante do público. É um disco que, entre acertos e erros, confirma o lugar de Cardi B como uma figura que transcende a música para se firmar como fenômeno cultural. E talvez seja exatamente essa a verdadeira resposta.
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