Carly Rae Jepsen passou tanto tempo sendo tratada como uma espécie de segredo absurdamente mal guardado da música pop que talvez já seja hora de abandonar essa narrativa. Não existe mais nada de cult ou acidental em sua excelência. O que existe é uma artista que construiu, disco após disco, uma linguagem própria para transformar sentimentos aparentemente banais em acontecimentos gigantescos, sem precisar inflá-los artificialmente. “Day and Night”, seu oitavo álbum de estúdio, entende perfeitamente essa história e, justamente por isso, decide bagunçá-la de uma maneira que parece estranha inicialmente, mas absolutamente coerente quando observada dentro da trajetória de alguém que nunca teve medo de produzir música demais.

Com 24 músicas divididas entre duas metades conceitualmente distintas, “Day and Night” poderia facilmente ser o momento em que a obsessão criativa de Carly finalmente ultrapassasse o limite do necessário. Um álbum duplo é quase sempre um convite ao excesso, e excesso, especialmente dentro do pop, pode ser tanto demonstração de confiança quanto incapacidade de edição. O mais impressionante é que Carly transforma justamente aquilo que poderia condenar o projeto em sua principal justificativa artística, porque a extensão não funciona como depósito de ideias, mas como parte essencial da arquitetura de um disco interessado em acompanhar diferentes temperaturas, estados emocionais e formas de experimentar o passar do tempo.
A divisão entre dia e noite não é apenas estética, tampouco uma desculpa simpática para empilhar duas dúzias de músicas dentro do mesmo lançamento. Carly utiliza os dois estados como perspectivas diferentes de uma mesma personalidade. Durante o dia, há calor, organicidade, espaço e uma psicodelia interessada menos em distorcer a realidade do que em deixá-la ligeiramente mais bonita. À noite, o corpo assume outra função, os sintetizadores ganham terreno, as texturas eletrônicas ficam mais evidentes e a pulsação do dance pop aparece com maior intensidade, como se o álbum gradualmente abandonasse a luz natural e descobrisse que determinados sentimentos só conseguem assumir sua forma definitiva quando ninguém mais está olhando.
Essa passagem é fundamental porque “Day and Night” não soa como dois discos brigando por atenção. A grande inteligência do projeto está em fazer a mudança de atmosfera parecer uma transformação da mesma personagem. O vocabulário muda, a temperatura muda e a produção encontra novas maneiras de ocupar espaço, mas Carly permanece reconhecível em todos esses lugares. É justamente essa segurança que permite que ela experimente mais do que normalmente se espera de sua música sem parecer desesperada para provar versatilidade, como acontece com tantos artistas quando decidem que chegou a hora de produzir seu suposto álbum de maturidade.
A primeira metade talvez provoque o estranhamento mais imediato em quem ainda associa Carly prioritariamente à precisão sintética que marcou parte importante de sua discografia. Instrumentação mais orgânica, referências setentistas, soft rock, psicodelia e uma interpretação vocal menos preocupada com o impacto instantâneo fazem aparecer uma Carly diferente, mas nunca irreconhecível. Há momentos em que sua voz parece flutuar sobre a produção em vez de comandá-la, permitindo que os arranjos tenham uma presença muito maior na construção das sensações. É uma mudança importante para uma artista cuja relação com a melodia sempre foi tão dominante, porque “Day and Night” demonstra que ela também sabe quando precisa permitir que o ambiente fale por ela.
A aproximação com uma sensibilidade que lembra certos momentos do Fleetwood Mac não surge como fantasia retrô ou exercício de cosplay musical. Carly entende que referências só interessam quando conseguem ser absorvidas pelo presente do artista e, por isso, mesmo quando “Day and Night” parece olhar décadas para trás, nunca existe a impressão de que estamos ouvindo alguém tentando recriar um período que não viveu artisticamente. Ela pega elementos reconhecíveis, desmonta suas funções originais e os encaixa dentro de uma gramática que continua sendo inconfundivelmente sua, estabelecendo uma relação com o passado que acrescenta textura ao disco em vez de aprisioná-lo dentro da nostalgia.
É nesse ponto que a produção se torna particularmente fascinante. Há uma mistura quase improvável de house, synthpop, psicodelia, pop acústico, soft rock e eletrônica que poderia produzir um álbum sem identidade, mas acontece justamente o contrário. “Day and Night” possui uma unidade sensorial muito específica, na qual tudo parece ligeiramente enevoado, quente e elástico, como se o tempo estivesse funcionando de maneira diferente dentro daquele universo. O dia não termina exatamente quando a noite começa, porque um invade o outro e deixa resíduos que ajudam a impedir que a divisão conceitual se transforme em uma fronteira rígida demais.
Se fosse necessário traduzir essa sensação por meio de outra referência pop, “Day and Night” parece imaginar o universo elegante e hedonista de “Fever”, de Kylie Minogue, depois de perder um pouco do controle sobre a própria percepção. Não porque os dois discos sejam musicalmente equivalentes, mas porque existe aqui uma relação semelhante entre desejo, movimento e sofisticação. Carly, entretanto, adiciona psicodelia, organicidade e uma estranheza deliciosa ao conjunto, como se aquela pista de dança tivesse sido transportada para algum lugar ao ar livre no fim do verão, quando ainda está quente, mas alguma coisa no vento já avisa que a estação está mudando. É uma Carly mais estranha do que estamos acostumados a ouvir e, paradoxalmente, talvez nunca tenha existido uma Carly tão confortável dentro da própria música.
Durante anos, parte da graça de sua obra esteve na maneira como sentimentos enormes eram embalados dentro de estruturas pop impecavelmente organizadas. Desejo, rejeição, ansiedade, paixão e expectativa ganhavam refrões gigantescos porque Carly parecia acreditar que qualquer pequena movimentação emocional merecia ser tratada como o acontecimento mais importante da semana. “Day and Night” mantém essa crença, mas abandona parte da urgência, permitindo que a artista permaneça dentro das emoções em vez de correr desesperadamente atrás delas. É um disco sobre intensidade feito por alguém que finalmente não parece precisar confundir intensidade com instabilidade, e essa diferença modifica profundamente a maneira como suas obsessões habituais aparecem.
A maturidade do álbum também não está em torná-lo comportado. Felizmente, Carly continua interessada demais nas contradições humanas para produzir alguma coisa completamente domesticada. O que muda é a perspectiva, porque há segurança convivendo com desejo, satisfação dividindo espaço com ressentimento, estabilidade encontrando impulsividade e ternura sendo interrompida por pequenas explosões de raiva. O disco entende que amadurecer não significa sentir menos, mas reconhecer melhor aquilo que está sendo sentido, e Carly parece muito mais interessada nas ambiguidades de uma vida emocional estável do que em vender a fantasia de que estabilidade significa ausência de conflito.
Isso torna sua interpretação vocal particularmente interessante. Carly nunca precisou ser uma cantora exibicionista para dominar uma gravação, porque seu grande instrumento sempre foi a capacidade de encontrar exatamente a quantidade necessária de vulnerabilidade para determinada frase. Aqui, essa característica aparece ainda mais refinada. Ela consegue soar leve sem parecer indiferente, sensual sem transformar sensualidade em performance exagerada e emocional sem dramatizar cada segundo da experiência. Essa confiança muda a relação entre sua voz e a produção, porque ela não precisa disputar espaço com cada sintetizador, guitarra ou textura eletrônica para continuar sendo o centro emocional do projeto.
A artista que durante muito tempo escreveu sobre o instante imediatamente anterior ao amor, aquele espaço quase insuportável entre querer alguma coisa e descobrir se será correspondida, agora parece igualmente fascinada pelo que acontece depois que alguém fica. É uma mudança narrativa pequena apenas na superfície. Para uma compositora cuja obra frequentemente encontrou combustível na antecipação romântica, descobrir dramaturgia na permanência representa quase uma reorganização completa de perspectiva, porque a vida cotidiana deixa de ser tratada como aquilo que acontece depois da grande história de amor e passa a ser justamente o lugar onde novas histórias emocionais começam.
Talvez seja por isso que “Day and Night” seja menos explosivo do que “Emotion” e “Dedicated”, algo que não deve ser confundido com falta de força. Esses discos frequentemente trabalhavam com a sensação de que uma música precisava conquistar o ouvinte imediatamente, enquanto o novo trabalho está menos preocupado em agarrar alguém pelo braço. Carly prefere construir atmosfera, acumular sensações e permitir que determinadas ideias apareçam gradualmente. Há menos necessidade de fabricar aquele segundo específico destinado a ser reconhecido como o grande momento pop e mais interesse em fazer o álbum inteiro funcionar como ambiente, uma escolha que exige mais paciência, mas também oferece uma experiência muito mais rica quando aceita em seus próprios termos.
Naturalmente, essa escolha cobra um preço. Vinte e quatro músicas continuam sendo vinte e quatro músicas, e mesmo um projeto muito bem estruturado precisa lutar contra a fadiga provocada por sua duração. Em determinados momentos, a abundância ameaça suavizar diferenças que seriam mais marcantes dentro de um álbum menor, principalmente porque Carly trabalha com uma produção tão cuidadosa que algumas transições podem parecer confortáveis demais. Ainda assim, a própria proposta conceitual absorve boa parte desse problema, já que “Day and Night” não quer ser consumido como uma sequência de golpes individuais, mas como um ciclo prolongado de sensações, no qual a duração também ajuda a produzir a impressão de que passamos um dia inteiro dentro da cabeça de sua autora.
Essa característica diferencia um álbum longo porque ninguém teve coragem de cortar nada de um álbum cuja extensão parece fazer parte de sua proposta. Carly sempre teve material demais, e a história de centenas de composições produzidas durante seus ciclos anteriores já transformou sua relação com músicas descartadas em parte da própria mitologia. “Emotion” ganhou um complemento, “Dedicated” repetiu o movimento e “The Loveliest Time” eventualmente deixou de parecer simplesmente uma coleção paralela para assumir vida própria ao lado de “The Loneliest Time”. Com “Day and Night”, Carly finalmente para de fingir que essa abundância precisa permanecer escondida nos bastidores e transforma o excesso em linguagem oficial.
É uma decisão arriscada, mas extremamente coerente para uma artista que parece ter aceitado que editar a própria criatividade nem sempre significa reduzi-la. O disco transforma quantidade em possibilidade estética, usando suas duas metades para organizar aquilo que, em outro contexto, poderia parecer simplesmente um enorme acúmulo de músicas. A duração deixa de funcionar apenas como informação numérica e passa a comunicar alguma coisa sobre a própria personalidade artística de Carly, que parece incapaz de abandonar uma ideia antes de descobrir quantas formas diferentes ela pode assumir.
Aos poucos, fica evidente que “Day and Night” não está tentando repetir o impacto cultural de “Emotion”, e ainda bem. Poucas coisas seriam menos interessantes para Carly Rae Jepsen neste estágio da carreira do que passar o restante da vida tentando reconstruir o álbum responsável por consolidar sua reputação crítica. O grande triunfo de “Day and Night” é demonstrar que ela não precisa retornar àquele momento porque aprendeu exatamente o que deveria carregar dele. A precisão continua aqui, assim como a obsessão melódica e a capacidade quase irritante de entender o funcionamento de uma excelente música pop, mas agora essas características estão cercadas por mais textura, risco, espaço e estranheza, elementos que deixam de existir como demonstração de versatilidade para funcionar organicamente dentro de sua evolução.
É justamente por isso que “Day and Night” consegue soar experimental sem perder acessibilidade. O disco não abandona o pop para provar que Carly é uma artista séria, mas parte do princípio muito mais interessante de que o próprio pop pode ser o território da experimentação. Essa diferença impede que suas escolhas mais incomuns pareçam gestos calculados de prestígio. Mesmo nos momentos mais psicodélicos, a melodia permanece fundamental, enquanto as passagens mais eletrônicas preservam humanidade suficiente para impedir que tudo se transforme em superfície. Quando a instrumentação fica mais orgânica, Carly também não tenta apagar aquilo que construiu durante décadas trabalhando dentro da música pop, porque não existe qualquer vergonha em reconhecer que essa continua sendo sua linguagem principal.
Carly Rae Jepsen nunca precisou fugir do pop, porque o pop é justamente o lugar em que ela aprendeu a fazer coisas que muita gente simplesmente não consegue fazer. Essa percepção também ajuda a desmontar uma discussão que acompanha sua carreira há anos. Poucas artistas de sua geração acumularam uma discografia tão consistentemente respeitada enquanto permaneceram relativamente distantes do centro comercial da indústria, e existe sempre a tentação de tratar isso como uma injustiça a ser corrigida, como se cada novo disco precisasse finalmente produzir seu grande retorno ao topo das paradas. “Day and Night” torna essa discussão cada vez menos interessante porque, artisticamente, Carly parece ter encontrado algo muito mais difícil de conquistar do que ubiquidade: liberdade.
É essa liberdade que permite lançar 24 músicas sem transformar quantidade em espetáculo, misturar psicodelia, soft rock, house e synthpop sem parecer perdida entre referências, envelhecer artisticamente sem abandonar desejo, prazer, raiva ou ingenuidade e continuar fazendo música pop sem precisar explicar por que ainda acredita tanto nela. “Day and Night” é provavelmente o trabalho mais maduro de Carly Rae Jepsen justamente porque não confunde maturidade com sobriedade. Ele continua colorido, romântico, físico, ocasionalmente estranho e profundamente interessado naquele território emocional que ela passou a carreira inteira investigando, mas agora sua autora observa o caos com uma tranquilidade que torna tudo ainda mais interessante.
Depois de tantos discos tentando capturar o segundo exato em que um sentimento explode, “Day and Night” percebe que existe algo igualmente fascinante no que acontece quando a explosão termina e a vida continua. O amor permanece, o desejo muda, a rotina aparece, a raiva eventualmente retorna e a segurança não elimina a possibilidade de contradição. A noite vira manhã e, sem perceber, estamos novamente esperando anoitecer. Carly constrói um disco inteiro dentro desse movimento e encontra justamente aí sua maior conquista, porque depois de tantos anos sendo uma das grandes especialistas do pop em transformar sentimentos em refrões, Carly Rae Jepsen finalmente parece interessada em transformar o próprio tempo em música.
Nota final: 88
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






