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Crítica: Charlie Puth, “Whatever’s Clever!”

Texto: Ygor Monroe
27 de março de 2026
em Música, Resenhas/Críticas

“Whatever’s Clever!”, de Charlie Puth, surge como um movimento calculado de recuo e reorganização. Depois de um momento em que sua música parecia refém de tendências imediatas, o artista opta por suavizar arestas e reconstruir sua identidade sonora a partir de bases mais clássicas. O resultado não busca impressionar pela ousadia, mas pela tentativa de equilíbrio.

Crítica: Charlie Puth, "Whatever’s Clever!"
Crítica: Charlie Puth, “Whatever’s Clever!”

O disco nasce de uma mudança de método. Charlie Puth inverte sua lógica criativa, priorizando vivência pessoal antes da construção melódica. Essa escolha se reflete diretamente no tom do álbum, que soa mais contido, menos ansioso por validação instantânea. Existe uma sensação de controle maior, ainda que isso venha acompanhado de certa previsibilidade.

Faixas como “Changes” e “Home” funcionam como pilares desse novo direcionamento. A primeira aposta em uma estética que flerta com o soft pop e referências sutis ao soul clássico, enquanto a segunda, com participação de Hikaru Utada, amplia o alcance emocional do projeto. São momentos em que o artista parece confortável, sem a necessidade de provar algo a cada refrão.

A produção, assinada em grande parte pelo próprio Puth ao lado de BloodPop, evita excessos. Arranjos limpos, grooves discretos e uma instrumentação que privilegia o espaço mostram um artista mais interessado em construir atmosfera do que em preencher todos os segundos com estímulos. É um pop que prefere respirar, mesmo correndo o risco de soar neutro demais.

“Cry”, com a participação de Kenny G, se destaca justamente por essa abordagem. A presença do saxofone adiciona textura e reforça a inclinação do álbum para um som mais orgânico. Já “New Jersey” e “Home” aparecem como pontos de maior conexão, onde melodia e intenção finalmente caminham juntas de forma convincente.

Ainda assim, o disco não escapa de seus próprios limites. Canções como “Beat Yourself Up” e “Don’t Meet Your Heroes” ilustram um problema recorrente. Quando a proposta é segura demais, o resultado tende ao esquecimento imediato. A ausência de risco, que em alguns momentos traz coesão, em outros esvazia o impacto.

A reta final concentra as decisões mais questionáveis. “Love In Exile” e “Until It Happens To You” apresentam ideias interessantes, mas escolhas de participações e intervenções faladas quebram o fluxo construído anteriormente. A presença de Jeff Goldblum, por exemplo, soa mais curiosa do que necessária. O álbum perde foco justamente quando deveria consolidar sua proposta.

O encerramento, com “I Used To Be Cringe”, tenta assumir um tom autoconsciente, mas acaba reforçando a dificuldade de transformar conceito em execução memorável. A intenção de rir de si mesmo é clara, porém não encontra tradução musical à altura.

Mesmo com essas inconsistências, “Whatever’s Clever!” representa um avanço. Longe de ser um ponto de chegada, o álbum funciona como ajuste de rota. Charlie Puth finalmente entende que menos estímulo pode significar mais identidade. Falta ainda transformar essa contenção em algo realmente marcante, mas o caminho escolhido indica uma direção mais sólida do que em trabalhos anteriores.

Nota final: 60/100

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Temas: Charlie PuthCríticaResenhaReview

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