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Crítica: Ciara, “CiCi”

Oito álbuns depois, Ciara ainda parece viver no eterno desafio de equilibrar passado e presente. “CiCi” chega com esse peso: é ao mesmo tempo a extensão de um projeto anterior e a tentativa de transformá-lo em algo maior, mais consistente, mais digno de sua trajetória. É um disco que assume a memória como ponto de partida, mas tenta atualizar a linguagem para mostrar que Ciara ainda tem fôlego dentro do R&B.

Crítica: Ciara, “CiCi”

Desde o título, já se percebe o caráter íntimo do projeto. Usar o apelido que seus fãs a chamam desde o começo da carreira é um gesto de proximidade, quase um pacto de lealdade com aqueles que acompanharam a sua ascensão desde os anos 2000. A capa, com a couraça vermelha em 3D, reforça a ideia de armadura, de força conquistada em meio às batalhas. E é justamente isso que o álbum busca traduzir em som: resistência, mas também celebração.

O som de “CiCi” é uma mistura calculada de R&B elegante e batidas que olham para a pista. Nada aqui é feito no improviso. As produções são polidas, bem encaixadas, cada detalhe lapidado para soar atual sem apagar o DNA que sempre acompanhou a cantora. A voz de Ciara continua firme, cristalina, com aquela facilidade de deslizar entre grave e agudo sem esforço aparente. É curioso notar que, mesmo tantos anos depois, ela mantém uma consistência rara, quase como se o tempo tivesse pouco efeito sobre sua entrega vocal.

Ainda assim, o disco enfrenta uma contradição que fica evidente ao longo da audição: a busca por relevância às vezes sabota a autenticidade. Em diversos momentos, a sensação é de que algumas escolhas foram feitas mais pela necessidade de dialogar com os charts do que por uma convicção artística. Isso não significa que o resultado seja fraco, mas reforça a impressão de que, para cada instante em que o álbum mostra personalidade, há outro em que ele se apoia em fórmulas seguras.

O repertório funciona melhor quando Ciara abraça suas raízes, recuperando a vibração que a fez se destacar duas décadas atrás. Nessas passagens, o ouvinte reconhece a artista que moldou a sonoridade R&B-dançante do início dos anos 2000. Só que o álbum se alonga mais do que deveria, e algumas faixas acabam diluindo o impacto geral. Com menos canções e mais foco, “CiCi” teria soado mais enxuto e coeso.

No entanto, é impossível ignorar o que o disco simboliza. São cinco anos de produção, um período que coincide com transformações pessoais importantes para a artista. Há energia, há suor, há um senso de continuidade que prova o quanto Ciara se recusa a ser apenas lembrança de uma época. “CiCi” não é o auge de sua discografia, mas cumpre um papel essencial: reafirmar que ela ainda é uma força ativa no R&B, capaz de entregar material que entretém, conecta e carrega sua marca registrada.

O saldo é de um álbum bem feito, com momentos de brilho, mas também com excessos que pesam contra sua força. Ciara não parece preocupada em reinventar a roda aqui, mas em oferecer um retrato fiel de onde está agora. O resultado pode soar previsível em alguns trechos, mas ainda assim prova que sua relevância não se apoia só no passado. “CiCi” é menos sobre revolução e mais sobre permanência. E, nesse sentido, funciona.

Nota: 69/100 | Ciara, “CiCi”

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