Barcelona sempre foi filmada como cartão-postal ou como labirinto turístico. Em “Cidade de Sombras”, a cidade vira outra coisa. Um organismo tenso, silencioso e cúmplice. A série transforma arquitetura em linguagem narrativa e o espaço urbano em parte ativa do crime, um movimento ambicioso que define o tom do thriller espanhol desde sua primeira imagem.

O assassinato que inaugura a trama carrega peso simbólico e crueldade calculada. Um executivo é queimado vivo e exibido em um dos edifícios mais emblemáticos da cidade, a Casa Milà. O gesto é público, ritualístico e pensado para ser visto. A violência aqui busca mensagem, busca impacto, busca memória. Nada acontece por acaso em “Cidade de Sombras”, nem mesmo a escolha dos cenários.
É nesse contexto que surge Milo Malart, interpretado por Isak Férriz com um corpo cansado e um olhar permanentemente em alerta. Suspenso após um episódio de insubordinação, Milo retorna à ativa cercado de desconfiança, ruídos institucionais e um passado que insiste em invadir cada investigação. O personagem carrega um luto mal resolvido, a morte do sobrinho, que contamina suas relações pessoais, sua estabilidade emocional e sua forma de enxergar o mundo. O trauma aqui funciona como ruído constante, nunca como justificativa fácil.
A chegada de Rebeca Garrido, vivida por Verónica Echegui, estabelece o principal eixo dramático da temporada. Vinda de fora, deslocada politicamente e observadora por natureza, Rebeca atua como contraponto silencioso ao caos interno de Milo. A relação entre os dois evita o clichê do embate ruidoso. O que se constrói é confiança progressiva, sustentada por escuta, intuição e respeito profissional. A série entende que parceria se constrói no detalhe, não no confronto explícito.
Narrativamente, “Cidade de Sombras” escolhe um caminho conhecido dentro do suspense criminal europeu. Assassinatos encadeados, pistas simbólicas, pressões políticas e uma polícia fragmentada por egos e interesses. Ainda assim, o diferencial está menos no enredo e mais na forma como ele é conduzido. A direção aposta em planos abertos que ressaltam o peso histórico dos espaços, enquanto o ritmo contido evita o espetáculo fácil da violência. A brutalidade nunca é estilizada para entretenimento, mas apresentada como sintoma de algo maior.
Existe também uma camada psicológica que tenta expandir a série para além do procedural clássico. As sessões de terapia de Milo funcionam como tentativa de acessar o que a investigação policial não alcança. Memória, culpa, silêncio familiar e heranças emocionais atravessam a narrativa, ainda que nem sempre com a profundidade prometida. Em alguns momentos, a série parece mais interessada em avançar o caso do que em mergulhar nas motivações internas de seus personagens.
Esse talvez seja o principal limite da temporada. “Cidade de Sombras” sugere debates potentes sobre ritual, poder econômico e espetacularização da morte, mas recua antes de aprofundá-los. O suspense conduz a história com eficiência, mas raramente a desafia de verdade. A sensação é de uma trama sólida, bem executada, que prefere a segurança da estrutura conhecida ao risco da ruptura narrativa.
Ainda assim, há méritos inegáveis. A atuação de Verónica Echegui sustenta emocionalmente muitos dos momentos mais silenciosos da série, oferecendo estabilidade e humanidade em meio ao caos investigativo. A fotografia valoriza Barcelona como cenário dramático e simbólico, afastando-se da estética turística. E o episódio final mantém a tensão ao indicar que o jogo está longe de terminar.
“Cidade de Sombras” constrói um thriller competente, atmosférico e tecnicamente bem resolvido. Talvez falte ousadia em alguns momentos, mas sobra consistência. É uma série que entende seu gênero, respeita o espectador e confia no tempo da narrativa, mesmo quando poderia arriscar mais.
“Cidade de Sombras”
Criação e direção: Jorge Torregrossa
Elenco: Isak Férriz, Verónica Echegui, Ana Wagener
Disponível em: Netflix
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