O filme “Clandestina“, inspirado no livro “Memórias de uma Falsificadora” de Margarida Tengarrinha, se propõe a retratar um período crucial na história de Portugal, ao acompanhar a trajetória de uma mulher que se lança na clandestinidade como parte da resistência antifascista durante o regime de Salazar. Margarida Tengarrinha, uma artista e militante comunista, assumiu o perigoso papel de falsificadora de documentos para proteger seus camaradas da perseguição da PIDE, a polícia política do Estado Novo. A história é rica em potencial dramático e histórico, com Tengarrinha emergindo como uma figura fundamental na luta pela liberdade. Ao lado de seu marido, o também militante José Dias Coelho, assassinado pela PIDE, Tengarrinha dedicou sua vida a essa resistência, sendo sua trajetória uma das mais notáveis da época.

No entanto, o filme falha em explorar todo o peso dessa história. Apesar de contar com uma narrativa que tenta mesclar passado e presente, a produção acaba por oscilar entre duas abordagens conflitantes. De um lado, o espectador é apresentado a uma representação histórica detalhada, com momentos significativos como a execução de José Dias Coelho e a inclusão de “A Morte Saiu à Rua“, de Zeca Afonso, que homenageia o militante. De outro, há uma tentativa de conectar essa luta à contemporaneidade, o que acaba enfraquecendo a proposta central.
A escolha de uma estética visual com o uso de animações de baixa qualidade e cenas que parecem desconectadas do período histórico retratado, adiciona uma camada de estranheza ao filme. A decisão de utilizar essas técnicas cria uma dissonância entre o conteúdo histórico da narrativa e a sua execução visual. O cinema é, antes de tudo, uma linguagem imagética, e “Clandestina” parece se perder ao tentar conciliar o estilo moderno com o conteúdo claramente histórico. A transposição da experiência de Tengarrinha para o presente, com analogias que não se sustentam, como a metáfora da clandestinidade moderna e a utilização de máscaras, não consegue atingir o impacto desejado. Há um claro descompasso entre o que é contado e o que é mostrado.
Tecnicamente, o filme tem seus méritos, especialmente na construção de sua trilha sonora e na escolha de momentos icônicos da luta antifascista em Portugal. O uso da música de Zeca Afonso é um exemplo desse acerto. Contudo, a narrativa visual não acompanha o mesmo rigor. As tentativas de aproximar o passado do presente, ao invés de enriquecer a narrativa, acabam por diluir a força da mensagem. Em termos de fotografia, o filme falha em capturar a densidade histórica do período, optando por escolhas estéticas que não reforçam o contexto dramático.
Além disso, o filme enfrenta uma crise de identidade ao não explorar a questão central da possibilidade de resistência política nos dias de hoje. A conexão entre as formas digitais de resistência e a falsificação de documentos nos anos 50 e 60 poderia ter sido uma abordagem interessante, mas o filme não desenvolve essa relação de maneira satisfatória. A narrativa permanece em uma zona de ambiguidade, sem se comprometer com uma reflexão mais profunda sobre a viabilidade dessas lutas no mundo contemporâneo. Esse vazio acaba transformando o filme em uma obra que se sustenta mais na forma do que no conteúdo.
Do ponto de vista histórico, “Clandestina” tinha material de sobra para criar um filme de impacto. A vida de Margarida Tengarrinha é uma história de coragem e desafio contra um regime opressor, algo que poderia ter sido explorado com maior clareza e solidez. No entanto, a indecisão do roteiro em abordar questões políticas de maneira mais incisiva impede que o filme alcance seu verdadeiro potencial. A resistência de Tengarrinha, uma luta concreta e perigosa, acaba diluída em metáforas que, embora visualmente interessantes, não entregam a carga emocional necessária.
O filme faz parte da programação do Festival do Rio. Para mais informações, basta clicar aqui.






