Jason Statham chegou a um ponto da carreira em que sua presença praticamente funciona como um gênero cinematográfico particular. Existe uma estrutura muito específica associada ao ator, construída sobre homens de poucas palavras, códigos morais rígidos, habilidades físicas muito acima da média e uma quantidade aparentemente inesgotável de inimigos dispostos a descobrir, da pior maneira possível, que escolheram a pessoa errada para enfrentar. “Código: Vingança” não tenta desmontar essa fórmula. Pelo contrário, Jean-François Richet entende exatamente o tipo de filme que tem nas mãos e encontra seus melhores momentos justamente quando aceita essa simplicidade como combustível para a ação.

Cole Reed, interpretado por Statham, é um veterano das Forças Especiais e ex-integrante da polícia de Nova York que passa a trabalhar como segurança particular depois de anos convivendo com os traumas de sua trajetória. A aparente estabilidade desaparece quando seu chefe, um bilionário, é assassinado diante dele. Cole acaba responsabilizado pelo crime e precisa fugir enquanto tenta descobrir quem está por trás da execução. A investigação o conduz até um navio cargueiro e, consequentemente, a uma conspiração internacional que amplia consideravelmente as dimensões de uma história inicialmente estruturada como uma vingança pessoal.
Não existe grande interesse em esconder as referências que sustentam “Código: Vingança”. O filme recupera a velha tradição do cinema de ação que coloca um protagonista extremamente capacitado dentro de um ambiente fechado, limita suas possibilidades de fuga e transforma a arquitetura desse espaço em parte fundamental do confronto. É quando Richet finalmente coloca Statham dentro do navio que o longa parece descobrir a versão de si mesmo que deveria ter perseguido desde o princípio.
O diretor, que já havia demonstrado em “Alerta Máximo” uma habilidade interessante para organizar ação física sem transformá-la em uma sucessão incompreensível de cortes, trabalha particularmente bem com corredores estreitos, escadas, estruturas metálicas e diferentes níveis do cargueiro. O espaço deixa de servir apenas como cenário e passa a determinar movimentos, distâncias e possibilidades de ataque. Há uma fisicalidade bastante concreta nessas sequências, algo cada vez mais importante para um filme que depende menos de espetáculo digital e mais da sensação de impacto.
A câmera consegue acompanhar os corpos sem retirar deles a força do movimento, enquanto a montagem geralmente permite compreender onde cada personagem está e de onde pode surgir a próxima ameaça. Parece uma característica básica, mas não é. Parte considerável do cinema de ação contemporâneo tenta criar intensidade escondendo o próprio confronto por meio de cortes excessivos, enquadramentos fechados ou movimentos desnecessariamente instáveis. Richet segue pelo caminho oposto nos melhores momentos do longa. Ele confia na coreografia e, principalmente, na capacidade física de seu protagonista.
Statham continua sendo extremamente eficiente nesse território porque raramente parece estar interpretando alguém surpreendido pela violência. Cole entra em cada confronto com uma espécie de pragmatismo físico que combina perfeitamente com a persona cinematográfica construída pelo ator durante décadas. Não existe ornamentação emocional desnecessária no modo como ele luta. Cada movimento procura encerrar uma ameaça, e a brutalidade nasce justamente dessa objetividade.
Quando “Código: Vingança” permite que Statham faça aquilo que Statham sabe fazer melhor, existe um filme de ação enxuto, agressivo e genuinamente divertido escondido dentro de uma narrativa muito menos interessante. O problema está justamente em tudo aquilo que separa uma sequência física da seguinte.
O roteiro de Lindsay Michel e J.P. Davis acumula elementos como se complexidade narrativa pudesse ser construída simplesmente pela adição constante de novas informações. Temos assassinato, conspiração, perseguição policial, interesses internacionais e tráfico humano, mas poucas dessas camadas recebem desenvolvimento suficiente para adquirir verdadeiro peso dramático. O resultado é curioso porque a trama parece movimentada no papel, embora frequentemente permaneça parada na tela.
Existem muitos diálogos cuja única função é transportar informações de um personagem para outro. A exposição aparece justamente nos momentos em que o longa começa a encontrar ritmo, interrompendo a progressão para explicar novamente quem está envolvido, quais interesses estão em jogo ou qual será o próximo destino de Cole. Em vez de permitir que a investigação seja compreendida pelas ações do protagonista, o roteiro frequentemente prefere verbalizar suas descobertas.
Annabelle Wallis acaba sendo particularmente prejudicada por essa estrutura. Sua personagem funciona durante boa parte do filme como uma ponte entre Cole e informações que ele precisa receber para continuar avançando. É uma função narrativa muito mais do que uma personagem plenamente desenvolvida. Wallis consegue imprimir alguma personalidade ao material, mas existe pouco espaço para que sua participação ultrapasse as necessidades mecânicas da trama.
Roland Møller encontra uma situação semelhante no campo antagonista. Sua presença funciona, sua fisicalidade combina com o universo proposto e existe potencial para estabelecer um adversário capaz de realmente tensionar a segurança quase absoluta transmitida por Statham. Ainda assim, o roteiro permanece excessivamente preso aos arquétipos. O vilão precisa explicar, ameaçar e movimentar determinadas peças da conspiração, mas raramente ganha uma dimensão capaz de torná-lo verdadeiramente memorável.
Essa fragilidade se torna mais problemática quando “Código: Vingança” introduz o tráfico humano como parte de sua engrenagem narrativa. O assunto possui uma gravidade incompatível com a superficialidade com que acaba incorporado à história. O filme utiliza uma questão humana extremamente séria como mecanismo para elevar artificialmente a dimensão moral do conflito, mas não demonstra interesse suficiente pelas próprias vítimas para justificar essa escolha.
Esse talvez seja o ponto em que a simplicidade eficiente do cinema de ação entra em conflito com uma tentativa equivocada de conferir importância adicional ao roteiro. Cole já possui uma motivação perfeitamente compreensível dentro das regras estabelecidas pelo longa. Ele viu seu chefe ser assassinado, foi acusado pelo crime e precisa sobreviver enquanto busca os responsáveis. Isso bastaria para sustentar um thriller de perseguição compacto. A inclusão de uma estrutura criminosa muito maior poderia expandir esse universo, mas exigiria um tratamento narrativo proporcionalmente mais cuidadoso.
As vítimas permanecem quase sempre distantes do centro emocional da narrativa, enquanto o conflito continua organizado essencialmente ao redor de Cole. Há uma diferença importante entre utilizar um crime como elemento de uma trama policial e transformá-lo em mero combustível para justificar confrontos. “Código: Vingança” se aproxima perigosamente da segunda opção e parece perceber tarde demais que não possui espaço, tempo ou desenvolvimento dramático para lidar adequadamente com aquilo que colocou em cena.
Existe também uma contradição estrutural bastante evidente. Quanto maior a conspiração se torna, menos interessante o filme parece. Richet demonstra muito mais segurança quando trabalha com objetivos imediatos. Entrar em determinado lugar, atravessar um corredor, neutralizar uma ameaça, escapar de uma emboscada. Nessas situações, direção, montagem e performance física trabalham na mesma frequência. Quando o roteiro começa a discutir organizações, interesses e conexões internacionais, a energia diminui porque a narrativa precisa interromper aquilo que sabe fazer para explicar aquilo que não consegue dramatizar. “Código: Vingança” seria consideravelmente melhor se confiasse mais na simplicidade de sua própria proposta.
Há algo quase frustrante nessa constatação porque o conceito central funciona muito bem. Jason Statham preso em um cargueiro repleto de adversários é uma ideia suficientemente eficiente para sustentar um filme inteiro. O ambiente possui possibilidades visuais, limitações espaciais interessantes e oportunidades para diferentes tipos de combate. O longa demonstra isso sempre que utiliza escadas, corredores e compartimentos para variar a dinâmica das lutas. São justamente essas cenas que fazem parecer desperdício a quantidade de tempo dedicada a uma conspiração previsível.
A duração de aproximadamente 95 minutos ajuda consideravelmente. O filme não permanece tempo suficiente em cena para transformar suas limitações em algo realmente exaustivo. Existe uma objetividade bem-vinda em sua progressão e, mesmo quando a exposição compromete o ritmo, a narrativa logo encontra alguma maneira de devolver Cole ao movimento.
Isso também impede que “Código: Vingança” se transforme em um desastre simplesmente por causa de seu roteiro. A direção possui competência, Statham continua funcionando como protagonista e as sequências de ação apresentam um nível de execução superior ao material dramático que as conecta. Há impacto nos golpes, clareza na movimentação e uma violência que preserva a materialidade dos confrontos. Quando alguém é lançado contra uma estrutura metálica, a cena quer que o público perceba o peso daquele choque.
Dentro da filmografia recente de Statham, entretanto, falta personalidade para que o longa ocupe uma posição realmente especial. Filmes como “Beekeeper: Rede de Vingança” compreenderam melhor como transformar o absurdo inerente à persona do ator em entretenimento, enquanto “Infiltrado” encontrou uma atmosfera mais consistente ao redor de sua brutalidade. “Código: Vingança” permanece em uma região intermediária. É competente demais para ser descartável, mas genérico demais para deixar uma impressão duradoura.
Talvez a maior ironia esteja no fato de Richet demonstrar capacidade suficiente para realizar um filme melhor do que aquele escrito para ele. Existe domínio espacial, compreensão de ritmo dentro das cenas de luta e uma relação produtiva entre câmera e coreografia. A ação possui uma identidade que o roteiro simplesmente não acompanha.
Isso faz com que o longa seja constantemente dividido entre duas experiências. Uma delas é um thriller de ação direto, físico e brutal, protagonizado por um ator que conhece perfeitamente as regras desse universo. A outra é uma conspiração internacional formada por personagens funcionais, explicações excessivas e conflitos tratados com uma superficialidade incompatível com os temas escolhidos. Felizmente, a primeira experiência ainda consegue aparecer com frequência suficiente.
“Código: Vingança” não reinventa Jason Statham e provavelmente nunca teve essa intenção. Também não encontra uma nova maneira de organizar os elementos que acompanham sua carreira há anos. O que encontra é um diretor capaz de compreender como filmá-lo. Isso pode parecer pouco, mas faz diferença em um gênero no qual a maneira de registrar um soco pode importar tanto quanto a justificativa narrativa para ele existir.
O filme funciona quando abandona qualquer pretensão de parecer maior do que realmente é e assume sua natureza de ação física, compacta e brutal. O problema é que demora demais para confiar nisso. Existe um excelente filme de confronto dentro daquele cargueiro. “Código: Vingança” apenas insiste em sair dele mais vezes do que deveria.
“Código: Vingança”
Direção: Jean-François Richet
Elenco: Jason Statham, Annabelle Wallis e Roland Møller
Disponível em: cinemas brasileiros
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