“Com Unhas e Dentes” é um daqueles filmes que chegam meio de mansinho na Netflix, mas trazem uma proposta tão fora do óbvio que fica impossível não prestar atenção. A produção tailandesa coloca Muay Thai e zumbis para dividirem o mesmo ringue em um cenário distópico que, de tão desesperador, parece não deixar espaço para nada além da sobrevivência. É um convite direto a quem gosta de pancadaria bem coreografada, criaturas putrefatas e uma estética suja que quase salta da tela.
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A trama até tenta ser simples para dar espaço ao que realmente interessa. Singh é um ex-lutador de Muay Thai que sonhava em levar uma vida pacata ao lado da esposa Rin, médica dedicada que, ironicamente, acaba cercada por mortos-vivos justamente no hospital onde trabalha. O surto toma a cidade de assalto e Singh precisa usar cada músculo treinado para tentar salvar Rin e ainda proteger um garotinho perdido, Buddy, que surge no caminho como mais um lembrete de que, em meio ao caos, a humanidade insiste em se agarrar ao que resta de laços.
É aqui que o filme brilha: quando deixa o roteiro de lado e parte para o confronto físico, explorando socos, joelhadas e cotoveladas contra zumbis grotescos, criando um balé sangrento que diverte quem entrou exatamente atrás disso. O diretor Kulp Kaljareuk não economiza nas sequências de luta, posicionando a câmera de forma a valorizar cada movimento, cada impacto, como se fosse um daqueles comerciais turísticos vendendo o Muay Thai como patrimônio nacional. E talvez até seja um pouco disso mesmo, um jeito maroto de embalar soft power tailandês com zumbis descerebrados para exportação.
Só que a gente sente o peso de um roteiro que apressa eventos, multiplica personagens descartáveis e falha miseravelmente em nos fazer importar com qualquer um além do protagonista. Boa parte do elenco entra em cena sem tempo de se apresentar e logo sai de forma conveniente, deixando a narrativa com buracos desconfortáveis. Há reviravoltas que surgem sem força dramática, atropelando emoções que nem tiveram chance de existir. Tudo parece correr em ritmo de highlights, como se o filme tivesse sido montado pensando em cortes rápidos para viralizar no TikTok.
Ainda assim, é inegável o capricho visual. O design das locações abandonadas, o figurino que vai se degradando junto dos corpos e até o CGI dos zumbis seguram bem o tranco. Em termos de ambientação, “Com Unhas e Dentes” convence, criando uma Tailândia quebrada, úmida, infestada por podridão, onde a lei do mais forte dita cada passo. É o tipo de universo que poderia render uma franquia ou, quem sabe, uma minissérie, se alguém resolvesse investir em desenvolvimento de personagens e amarrar direito essas pontas soltas.
No fim das contas, é um filme perfeito para quem quer esquecer a lógica, encher um balde de pipoca e se divertir vendo mortos-vivos sendo pulverizados com cotoveladas. Se o objetivo é só esse, missão cumprida. Agora, se você espera algo que realmente expanda o gênero, com dilemas humanos bem trabalhados e um comentário social mais consistente, vai sair da sessão com a sensação de que viram o cronômetro e decidiram encerrar antes da hora.
“Com Unhas e Dentes” (2025)
Direção: Kulp Kaljareuk
Elenco: Prin Suparat, Nuttanicha Dungwattanawanich, Johnny Anfone
Disponível na Netflix
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