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Crítica: Conan Gray, “Wishbone”

Conan Gray chega ao quarto disco com algo que poucos artistas pop em seu estágio de carreira conseguem entregar: um trabalho que soa ao mesmo tempo íntimo e ousado, capaz de se afastar da fórmula fácil sem perder apelo. “Wishbone” é um álbum que cresce na medida em que se escuta, revelando camadas de sofisticação escondidas por trás de uma aparente leveza pop. É um movimento de maturidade, quase um antídoto para a imagem de alt-pop genérico que rondava seus primeiros lançamentos.

Crítica: Conan Gray, “Wishbone”

Depois de revisitar os anos 80 em “Found Heaven”, Gray se volta agora a um pop rock de contornos mais orgânicos, com arranjos que flertam com o chamber pop e uma forte presença orquestral. Há guitarras delicadas, cordas que aparecem como protagonistas em momentos-chave e uma produção que mantém brilho radiofônico sem abrir mão de densidade. É um disco que busca identidade sonora própria, mesmo que ainda vacile em alguns trechos.

A parceria com Dan Nigro como produtor executivo garante unidade, mas o que mais chama atenção é o modo como Gray se posiciona musicalmente. O álbum revela um artista mais direto, assumindo sua sexualidade em versos de maneira natural e sem a necessidade de disfarces. Isso fortalece o impacto emocional das composições e reforça a relação de proximidade com o público, algo que sempre foi um de seus trunfos.

Sonoramente, “Wishbone” se organiza em uma estética coesa, com arranjos que mesclam guitarras acústicas, camadas de sintetizadores discretos e passagens orquestrais que funcionam como pontes emocionais. Em alguns momentos, essa fórmula resulta em canções de grande potência, com melodias que ficam na cabeça e atmosferas densas que abrem novas possibilidades para Gray. Em outros, o disco recai em composições agradáveis, mas menos memoráveis. Ainda assim, a consistência é muito maior do que em “Kid Krow” ou “Superache”, discos que pareciam presos a um alt-pop pouco inventivo.

“Wishbone” é, acima de tudo, um trabalho de reposicionamento. Conan não busca apenas entregar hits, mas desenhar uma trajetória musical mais sólida, explorando um território que combina introspecção e grandiosidade. Há aqui uma clara tentativa de se aproximar de artistas que constroem álbuns como experiências completas, não apenas coleções de singles. Essa ambição, mesmo que nem sempre plenamente alcançada, é o que torna o disco tão interessante.

Visualmente, o projeto também carrega peso simbólico. A capa e toda a identidade estética ampliam a sensação de que Conan Gray quer se colocar como alguém em transformação, disposto a assumir riscos e a abandonar o conforto do óbvio. O resultado é um álbum que exige mais de quem escuta, mas que recompensa com momentos de intensidade rara dentro do pop mainstream.

No fim, “Wishbone” funciona como um retrato de transição. Conan Gray ainda não atingiu o ápice de sua visão artística, mas se afasta de vez da superficialidade e mostra fôlego para construir algo mais duradouro. É um disco que aponta para um futuro promissor, um passo firme em direção a uma identidade mais nítida e a uma maturidade musical que começa a se consolidar.

Nota: 74/100 | Conan Gray, “Wishbone”

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