Existe algo quase melancólico em assistir “Coração de Ferro” e perceber como, ironicamente, o canto mais humilde do Universo Marvel é o que mais parece lembrar o que nos fez apaixonar por ele lá atrás. Enquanto filmes e séries despejam multiversos, portais no céu e ameaças cósmicas, aqui o perigo cabe dentro das ruas de Chicago. O impacto não se mede em bilhões de vidas, mas no que acontece quando uma garota tenta equilibrar genialidade, luto e ambição num bairro onde cada esquina carrega lembranças.
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A série surge como um sopro discreto no meio do barulho megalomaníaco do MCU. Depois da rápida apresentação de Riri Williams em “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre”, “Coração de Ferro” tira a personagem do pedestal de coadjuvante para colocá-la no centro de uma trama que, curiosamente, tem muito mais de coming-of-age do que de aventura grandiosa. Riri não luta para salvar o universo. Ela luta para pagar contas, para se reerguer depois de ser expulsa do MIT, para segurar as pontas de um coração que já não suporta tanto trauma.
É nesse ponto que a série ganha força, porque se preocupa menos em ser “importante” para a cronologia Marvel e mais em construir pequenas histórias que valem por si mesmas. A relação de Riri com Natalie, sua amiga que virou IA depois de morta, é o fio emocional que faz tudo pulsar. Lyric Ross e Dominique Thorne entregam conversas que parecem arrancadas da intimidade, quase dolorosas de tão reais. E se tem algo que “Coração de Ferro” entende bem é que o luto não some porque se veste uma armadura reluzente. Pelo contrário, às vezes só fica mais pesado.
O roteiro de Chinaka Hodge também tem seus méritos ao explorar a colisão entre ciência e magia. Ao contrário dos encontros forçados que o MCU já nos empurrou, aqui a tecnologia de Riri precisa se dobrar diante do inexplicável. Parker Robbins, o Hood vivido por Anthony Ramos, representa essa força que desafia tudo o que a genialidade de Riri acredita controlar. Pena que o personagem oscile tanto entre o assustador e o caricato, quase sabotando o impacto da ameaça que traz. Ainda assim, o embate entre máquina e feitiço adiciona um tempero raro que a Marvel costuma ignorar em favor de explosões.
Claro que há armaduras voando e efeitos visuais bem acabados, mas eles importam menos do que deveriam. O melhor momento de ação não tem portais nem monstros gigantes. Acontece num simples White Castle, com Riri tendo que improvisar para sair viva. A sequência funciona porque, até ali, a série já nos fez investir nela e em seus amigos. Não é sobre salvar o planeta. É sobre sair de um restaurante inteiro para voltar pra casa.
Mas “Coração de Ferro” também carrega seus curtos-circuitos. O arco de Riri se arrasta em decisões egoístas que tornam difícil torcer por ela em certos momentos. É quase um anti-herói relutante, focada mais em se provar do que em proteger quem está ao redor. Talvez esse seja o ponto: mostrar uma garota genial, falha, atravessada por dores que a impedem de ser a heroína que o público espera, mas que aos poucos descobre o peso do que está construindo. Ainda assim, chega ao fim da temporada sem oferecer o amadurecimento que se queria ver, deixando a sensação de que o verdadeiro voo de Riri ainda está por vir.
No fim das contas, a grande vitória da série é lembrar que o MCU já foi sobre personagens antes de virar uma maratona de ganchos para o próximo filme. “Coração de Ferro” não é essencial para entender o que vem pela frente, e isso é o melhor elogio que se pode fazer. Ao focar nas dores pequenas, nos dramas de bairro, nos fantasmas pessoais, a série resgata o lado humano que a Marvel andava esquecendo. E se no final você termina apaixonado não por armaduras, mas pelos amigos, pela mãe de Riri, pelas memórias de Natalie, é sinal de que alguma faísca verdadeira foi acesa.
Coração de Ferro (2025)
Criado por Chinaka Hodge
Elenco: Dominique Thorne, Anthony Ramos, Lyric Ross
Disponível em: Disney+
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