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Crítica: “Corrida Contra o Tempo”

Texto: Ygor Monroe
8 de setembro de 2026
em Amazon Prime Video, Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas, Streaming

Existe uma diferença considerável entre um filme que se movimenta rapidamente e um filme que realmente possui ritmo. “Corrida Contra o Tempo” passa aproximadamente 85 minutos tentando convencer o espectador de que essas duas coisas são exatamente iguais. Gal Gadot corre, a câmera corre com ela, a montagem corre ainda mais e o roteiro parece permanentemente desesperado para chegar à próxima situação antes que alguém tenha tempo suficiente para pensar sobre a anterior. O resultado é um suspense que praticamente nunca fica parado, mas que, curiosamente, encontra enorme dificuldade para sair do lugar.

Crítica: “Corrida Contra o Tempo”
Crítica: “Corrida Contra o Tempo”

A premissa é direta e construída para funcionar com eficiência. Maia Marten é uma advogada londrina que tem sua rotina interrompida durante uma corrida matinal ao receber a informação de que seu filho foi sequestrado. A partir daquele momento, precisa permanecer em movimento, seguir uma série de instruções e evitar confiar nas pessoas ao redor enquanto tenta descobrir quem controla aquela situação e como recuperar o filho. Existe pouco espaço para introduções prolongadas, e Kevin Macdonald entende desde o início que o conceito depende de urgência.

O problema é que “Corrida Contra o Tempo” parece interpretar urgência como uma obrigação estética, e não como uma consequência dramática. O filme não constrói tensão para então acelerá-la. Ele simplesmente começa acelerado e permanece assim, eliminando uma das ferramentas mais importantes de qualquer suspense: a variação. Se tudo precisa parecer urgente o tempo inteiro, eventualmente nada parece realmente urgente.

Essa decisão aparece principalmente na linguagem visual. Há uma quantidade excessiva de closes, movimentos abruptos, cortes rápidos e recursos de câmera que procuram reproduzir fisicamente o estado psicológico da protagonista. A intenção é evidente. Maia está desesperada, portanto o filme também precisa parecer desesperado. Só que existe um limite bastante claro entre colocar o espectador dentro da ansiedade de uma personagem e simplesmente submetê-lo a uma montagem ansiosa.

Kevin Macdonald é um diretor experiente demais para que a execução pareça acidental, mas isso torna a escolha ainda mais frustrante. “Corrida Contra o Tempo” possui uma câmera que constantemente tenta produzir uma emoção que o roteiro ainda não conseguiu estabelecer. Em vez de registrar o pânico, a direção frequentemente tenta fabricar pânico através da forma, como se proximidade extrema, movimento e velocidade fossem suficientes para substituir uma construção real de suspense.

Nos primeiros minutos, a estratégia ainda produz algum efeito. Existe uma curiosidade natural diante daquela ligação, das regras estabelecidas pelo sequestrador e da impossibilidade de Maia simplesmente interromper o jogo. O problema surge quando o longa percebe que precisa sustentar esse mecanismo durante praticamente toda a duração. O que inicialmente parece claustrofóbico começa a se tornar repetitivo, e aquilo que deveria aumentar nossa ansiedade progressivamente produz apenas desgaste.

É particularmente estranho porque a própria cidade de Londres oferece possibilidades muito mais interessantes do que aquelas exploradas pelo filme. A ideia de transformar uma grande metrópole em uma espécie de circuito controlado por alguém à distância poderia gerar uma relação fascinante entre espaço, vigilância e vulnerabilidade. Maia está cercada por milhares de pessoas e, ainda assim, essencialmente sozinha. Está em uma cidade repleta de alternativas de deslocamento, câmeras, ruas, estações e multidões, mas precisa obedecer a uma lógica determinada por uma voz invisível. Existe um excelente thriller escondido nessa contradição.

“Corrida Contra o Tempo”, porém, prefere transformar Londres majoritariamente em pista. A cidade raramente ganha personalidade suficiente para se tornar parte efetiva da ameaça, servindo muito mais como um conjunto de obstáculos que precisam ser atravessados por Maia. Quando a protagonista passa boa parte do filme literalmente correndo, seria fundamental que o espaço ao redor dela tivesse importância dramática equivalente ao esforço físico exigido. Sem isso, muitos deslocamentos começam a parecer apenas diferentes versões da mesma sequência.

Gal Gadot também enfrenta um papel particularmente ingrato. Maia passa boa parte da história reagindo a informações transmitidas por outra pessoa, enquanto corre e demonstra medo, exaustão ou desespero. É uma combinação que exige enorme capacidade de transmitir mudanças emocionais dentro de uma situação propositalmente repetitiva. Gadot se entrega fisicamente ao papel e existe um comprometimento evidente com a dimensão corporal da personagem, especialmente conforme o longa transforma sua resistência em elemento essencial da narrativa.

Dramaticamente, porém, a atuação encontra limitações. Gadot possui uma presença cinematográfica inegável e já demonstrou funcionar muito bem quando essa presença encontra personagens capazes de explorar seu carisma. Maia exige outra coisa. É uma protagonista que depende de vulnerabilidade, descontrole e uma progressiva deterioração emocional, e nem todas essas camadas aparecem com a mesma naturalidade. O esforço físico de Gadot convence mais do que o colapso emocional de Maia, criando uma distância problemática em um filme que depende quase integralmente de sua capacidade de nos fazer experimentar o medo da personagem.

Isso não significa que a atriz seja responsável pelo fracasso da experiência. O roteiro oferece pouco material para transformar Maia em alguém verdadeiramente específico. Ser uma mãe desesperada para salvar o filho é uma motivação imediatamente compreensível, mas motivação não é caracterização. O longa fornece algumas ferramentas relacionadas à profissão da personagem e utiliza sua inteligência em determinados momentos, porém raramente permite que ela exista para além da situação extrema na qual foi colocada.

O sequestrador, interpretado por Damian Lewis, acaba funcionando melhor justamente porque sua presença depende principalmente da voz. Existe uma frieza interessante na maneira como ele controla a situação, e o fato de permanecer distante fisicamente permite que a imaginação do espectador faça parte do trabalho. Sua capacidade de acompanhar Maia, antecipar determinadas ações e controlar seus movimentos estabelece inicialmente uma sensação eficiente de onipresença.

O problema é que quanto mais o roteiro explica sua engrenagem, menos ameaçador esse controle se torna. Um antagonista que aparentemente sabe tanto sobre a protagonista deveria estar preparado para o fato de que ela também possui recursos intelectuais para reagir. Maia é advogada, acostumada a interpretar informações, encontrar inconsistências e trabalhar sob pressão, características que o próprio filme estabelece. Em determinados momentos, portanto, a inteligência do vilão parece aumentar ou diminuir conforme a necessidade imediata do roteiro, e esse tipo de conveniência é particularmente prejudicial em um suspense baseado em manipulação.

Há também uma familiaridade difícil de ignorar. A estrutura de uma pessoa comum obrigada por uma ameaça remota a cumprir tarefas perigosas para proteger alguém próximo já apareceu inúmeras vezes no gênero. Evidentemente, nenhuma premissa precisa ser inédita para produzir um bom filme. O problema é que, quando se trabalha com uma fórmula tão reconhecível, alguma outra camada precisa oferecer identidade.

É exatamente isso que falta a “Corrida Contra o Tempo”. A corrida poderia ser essa identidade. Londres poderia ser essa identidade. A profissão de Maia poderia ser essa identidade. A relação entre mobilidade urbana e controle poderia ser essa identidade. O filme possui várias possibilidades interessantes, mas prefere permanecer na superfície de quase todas elas. Não falta conceito, falta desenvolvimento.

A fotografia também participa dessa sensação de excesso. Existe uma imagem vibrante e frequentemente carregada que nem sempre combina com a atmosfera de ameaça pretendida pelo longa. Uma abordagem visual mais sóbria poderia produzir contraste e permitir que a cidade parecesse progressivamente hostil sem precisar anunciar constantemente que alguma coisa está errada. Em vez disso, a imagem frequentemente compete com a montagem para chamar atenção.

Esse excesso visual é sintomático de um filme que parece desconfiar do silêncio. Há pouca disposição para deixar uma informação repousar, um olhar permanecer ou uma ameaça crescer sem interferência imediata da edição. Suspense também depende do espaço entre dois acontecimentos, e “Corrida Contra o Tempo” parece apavorado com qualquer segundo em que nada esteja acontecendo. Essa incapacidade de desacelerar não torna o filme mais intenso. Pelo contrário, retira intensidade justamente dos momentos que deveriam parecer excepcionais.

Quando tudo é filmado como clímax, o clímax precisa encontrar outra maneira de superar aquilo que veio antes. É aí que a reta final expõe de maneira mais evidente as limitações do roteiro. O filme planta possibilidades, sugere complicações e cria a expectativa de que seu jogo possa ganhar uma última camada. Entretanto, algumas ameaças são neutralizadas rapidamente demais e outras possibilidades simplesmente deixam de produzir consequência.

Existe uma diferença entre uma conclusão eficiente e uma conclusão apressada. “Corrida Contra o Tempo” se aproxima perigosamente da segunda opção. Depois de exigir que o espectador acompanhe Maia por uma jornada construída inteiramente ao redor da sensação de que cada segundo importa, seria natural esperar que os minutos finais concentrassem toda a pressão acumulada. O desfecho, porém, resolve elementos grandes demais com facilidade demais, diminuindo retroativamente parte da ameaça que o filme passou tanto tempo tentando construir.

Talvez essa seja a maior ironia de “Corrida Contra o Tempo”. Um longa obcecado pela passagem do tempo parece não compreender muito bem como utilizá-lo dramaticamente. Corre quando poderia esperar, corta quando poderia observar e acelera situações que precisariam respirar para produzir consequência. Os 85 minutos passam rapidamente no sentido literal, mas velocidade de duração não equivale automaticamente a envolvimento.

Ainda existe algum entretenimento na simplicidade da proposta. A produção não pretende esconder que deseja funcionar como um thriller direto, físico e acessível, e Gal Gadot oferece disposição suficiente para carregar boa parte dessa experiência. Damian Lewis encontra presença mesmo limitado pela natureza de seu personagem, enquanto Kevin Macdonald consegue produzir alguns momentos isolados de tensão quando reduz os excessos e confia mais na situação.

Só que esses acertos aparecem dentro de um filme que parece permanentemente empenhado em sabotá-los com mais um corte, mais um movimento, mais um estímulo. “Corrida Contra o Tempo” acredita tanto na velocidade que esquece que tensão não é medida em quilômetros percorridos pela protagonista. Podemos assistir Maia atravessar Londres inteira e ainda permanecer emocionalmente no mesmo ponto.

No fim, Gal Gadot corre muito mais do que o próprio filme consegue avançar. Existe esforço, movimento e uma protagonista literalmente jogando o corpo contra o tempo, mas a narrativa ao redor dela nunca desenvolve personalidade suficiente para transformar uma premissa familiar em algo realmente particular. “Corrida Contra o Tempo” não é cansativo porque demora para chegar ao destino. É cansativo justamente porque passa o caminho inteiro correndo desesperadamente para chegar lá.

“Corrida Contra o Tempo”
Direção:
Kevin Macdonald
Elenco: Gal Gadot e Damian Lewis
Disponível em: Amazon Prime Video

⭐⭐

Avaliação: 1.5 de 5.

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Temas: CríticaDamian LewisGal GadotResenhaReview

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