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Crítica: “Corta-fogo” (Cortafuego)

O silêncio que antecede uma tragédia costuma ser enganoso. Ele se espalha pela paisagem, ocupa os cômodos de uma casa de veraneio e cria a ilusão de controle. É nesse espaço instável que “Corta-fogo” constrói sua tensão. Um filme que se apresenta como drama psicológico, mas logo revela um interesse mais amplo em observar como o pânico coletivo expõe feridas sociais, afetivas e morais.

Crítica: “Corta-fogo” (Cortafuego)

A narrativa acompanha Mara em um momento de luto ainda cru. A morte do marido paira como um peso invisível enquanto a família se reúne para resolver questões práticas e se despedir da casa que guarda memórias. O gesto de venda funciona como metáfora de encerramento, de tentativa de seguir adiante. Tudo parece organizado até que a natureza invade o quadro de forma brutal. O incêndio florestal avança e, junto com ele, o desaparecimento da pequena Lide. O filme entende que o verdadeiro incêndio começa dentro das pessoas.

A partir desse ponto, o roteiro acelera e aposta na paranoia como motor dramático. O desespero cresce em progressão descontrolada, especialmente na forma como os adultos reagem ao sumiço da criança. A figura de Santi, o guarda florestal, surge como alvo fácil. Ele carrega o estigma do estranho, do homem isolado, do sujeito que vive em contato direto com a mata. A suspeita se instala menos por evidências e mais pela necessidade urgente de encontrar um culpado.

David Victori conduz a história com um olhar atento para o colapso emocional. A câmera acompanha personagens que perdem o eixo em tempo real, transformando a busca em uma sucessão de decisões precipitadas. A histeria familiar, em especial a do tio, beira o delírio e escancara como o instinto pode se sobrepor à razão em situações-limite. Essa escolha narrativa incomoda, mas cumpre um papel claro: expor o quão frágil se torna qualquer noção de justiça quando o medo assume o comando.

Visualmente, o filme dialoga com o caos ambiental que cerca os personagens. A fumaça, o céu opaco e a sensação constante de sufocamento criam um paralelo direto com o estado mental dos envolvidos. O incêndio deixa de ser pano de fundo e passa a representar a crise climática como ameaça real, concreta e criada pelo próprio ser humano. A floresta em chamas reflete uma sociedade em curto-circuito.

A presença de Santi adiciona uma camada ética relevante. Mesmo retratado como alguém excêntrico, sua relação quase espiritual com a natureza contrasta com a violência gratuita que sofre. O roteiro brinca com a expectativa de um desvio moral, mas escolhe outro caminho. Essa decisão aproxima “Corta-fogo” de obras como “Ugly”, de Anurag Kashyap, ainda que aqui o desfecho busque uma resolução menos devastadora e mais conciliadora.

As atuações sustentam o impacto emocional. Belén Cuesta entrega uma personagem em estado de ruptura constante, equilibrando dor e fúria com intensidade física. Joaquín Furriel assume o papel do homem que perde o controle com rapidez assustadora, enquanto Enric Auquer constrói um Santi silencioso, alvo de projeções alheias e símbolo da injustiça coletiva. O elenco transforma exagero emocional em ferramenta dramática.

“Corta-fogo” provoca reações extremas e, em alguns momentos, flerta com o absurdo. Ainda assim, encontra força ao retratar uma comunidade incapaz de agir em conjunto quando mais precisa. O suspense funciona menos pela investigação e mais pela observação do comportamento humano sob pressão. É um filme que convida à reflexão sobre medo, julgamento e responsabilidade em tempos de crise ambiental e social.

“Corta-fogo”
Direção
: David Victori
Elenco: Belén Cuesta, Joaquín Furriel, Enric Auquer
Disponível em: Netflix

Avaliação: 3 de 5.

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