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Crítica: “Coyote Vs. Acme”

Texto: Ygor Monroe
2 de setembro de 2026
em Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas

Talvez a maior piada de “Coyote Vs. Acme” esteja no fato de que alguém demorou tanto para perceber o óbvio: Wile E. Coyote tinha motivos mais do que suficientes para processar a ACME. Depois de décadas comprando foguetes que explodem, engenhocas que falham, armadilhas que se voltam contra o próprio dono e toda espécie de equipamento com potencial homicida vendido aparentemente sem qualquer controle de qualidade, chegar aos tribunais parece até uma evolução natural para o personagem. É uma premissa tão simples quanto brilhante, principalmente porque consegue transformar uma das piadas mais antigas dos Looney Tunes em uma comédia que entende perfeitamente o presente sem tentar modernizar seus personagens à força.

Crítica: “Coyote Vs. Acme”
Crítica: “Coyote Vs. Acme”

Dirigido por Dave Green, “Coyote Vs. Acme” parte da decisão do Coiote de responsabilizar judicialmente a fabricante pelos incontáveis acidentes provocados pelos produtos utilizados em sua eterna perseguição ao Papa-Léguas. Ele encontra apoio no advogado Kevin Avery, vivido por Will Forte, e acaba diante de uma estrutura corporativa preparada para defender a ACME de qualquer responsabilidade. É basicamente Davi contra Golias, caso Davi tivesse passado décadas comprando dinamite de Golias e explodindo a própria cara.

Essa consciência sobre o absurdo é uma das grandes virtudes do longa. “Coyote Vs. Acme” não parece interessado em transformar os Looney Tunes em algo mais sofisticado, adulto ou supostamente respeitável. Existe uma confiança enorme no material original e, principalmente, na inteligência de uma comédia construída a partir de personagens que nunca precisaram respeitar as leis da física para funcionar. O filme sabe que uma bigorna caindo sobre alguém continua sendo engraçada quando existe precisão na construção da piada.

Ao mesmo tempo, existe uma segunda camada que transforma a produção em algo muito mais interessante do que outra tentativa hollywoodiana de ressuscitar personagens clássicos. A ACME sempre foi uma piada sobre consumo, mas “Coyote Vs. Acme” percebe o potencial de transformar essa piada em uma sátira corporativa surpreendentemente afiada. A empresa vende produtos perigosos, promete resultados impossíveis, responsabiliza o consumidor pelo fracasso e possui dinheiro suficiente para transformar qualquer problema em uma questão jurídica administrável. Nada particularmente distante da realidade, infelizmente.

O roteiro consegue brincar com essa lógica sem transformar o filme em um manifesto de duas horas sobre os males do capitalismo. A crítica está inserida na comédia, não pendurada sobre ela. A ACME é assustadora justamente porque continua sendo ridícula. Seus representantes falam e agem como caricaturas, mas a estrutura que representam é reconhecível demais para ser completamente absurda. John Cena entende muito bem essa frequência e entrega uma atuação propositalmente exagerada, quase como se fosse um personagem animado preso dentro de um corpo humano. É uma escolha que combina perfeitamente com um universo em que qualquer pessoa pode abrir uma caixa e encontrar um míssil dentro.

Will Forte assume uma função diferente. Como Kevin Avery, ele funciona como a ponte entre a lógica humana e a insanidade dos Looney Tunes, mas sem cair naquele velho problema dos híbridos entre animação e live-action em que personagens humanos ocupam espaço demais porque algum executivo decidiu que desenhos não seriam suficientes para sustentar o próprio filme. Aqui, felizmente, ninguém parece esquecer de quem é a história.

E Wile E. Coyote continua maravilhoso justamente porque permanece Wile E. Coyote.

O filme não sente necessidade de inventar uma grande origem traumática, explicar sua obsessão pelo Papa-Léguas ou transformar décadas de fracasso em algum tipo de drama psicológico excessivamente elaborado. Sua personalidade continua baseada naquela mistura deliciosa de genialidade, arrogância e completa ausência de instinto de autopreservação. O Coiote consegue elaborar máquinas impossíveis, desenhar planos perfeitos e compreender sistemas extremamente complexos, mas jamais considera seriamente a possibilidade de simplesmente parar de perseguir aquele pássaro.

É nessa contradição que “Coyote Vs. Acme” encontra uma inesperada dimensão emocional. Existe alguma coisa muito humana em continuar desejando aquilo que claramente parece impossível, mesmo depois de todas as evidências apontarem que talvez fosse melhor procurar outro objetivo. O longa entende isso sem transformar o Coiote em um personagem melancólico ou abandonar a comédia. Ele continua sendo esmagado, explodido e humilhado, mas existe um pouco mais por trás de cada nova tentativa.

Essa relação com o fracasso talvez seja justamente aquilo que permite ao personagem sobreviver tão bem fora dos curtas clássicos. Wile E. Coyote nunca foi engraçado simplesmente porque perde. Ele é engraçado porque acredita, com uma convicção impressionante, que desta vez não perderá. Não importa quantas montanhas desabem sobre sua cabeça. Existe sempre outro plano, outro produto ACME e outra tentativa esperando alguns segundos depois.

A dinâmica com o Papa-Léguas também ganha contornos interessantes quando o filme percebe que uma rivalidade mantida durante tanto tempo inevitavelmente se transforma em uma espécie de relação. Um precisa do outro para continuar existindo daquela maneira. O Papa-Léguas precisa ser perseguido e o Coiote precisa perseguir. Existe quase uma intimidade naquele ritual interminável, e o longa consegue explorar essa ideia sem cometer o pecado de explicar demais aquilo que sempre funcionou perfeitamente através de um simples “beep beep”.

Essa contenção é particularmente importante porque Hollywood possui uma dificuldade quase patológica de confiar em personagens antigos. Sempre existe a tentação de atualizá-los, torná-los autoconscientes, explicar suas piadas ou construir uma narrativa sobre como eles já não pertencem ao mundo moderno. “Coyote Vs. Acme” prefere fazer algo muito mais eficiente: colocar esses personagens no presente e deixar que continuem sendo eles mesmos.

Outros nomes dos Looney Tunes aparecem dentro dessa lógica e ajudam a construir um universo que parece existir para além da nostalgia. As participações não funcionam simplesmente como um desfile de rostos conhecidos esperando aplausos. Existe uma ideia divertida sobre o que acontece com personagens cuja identidade inteira foi construída ao redor de conflitos, perseguições e relações que se repetem eternamente. Eles continuam existindo quando as câmeras desligam? Eles envelhecem? Eles precisam trabalhar? O que acontece quando deixam de ser comercialmente interessantes?

É justamente aí que “Coyote Vs. Acme” começa a brincar perigosamente perto da própria realidade.

Poucas coisas poderiam ser mais irônicas do que assistir a um filme sobre uma corporação gigantesca tentando esmagar personagens menores enquanto se conhece a batalha que a própria produção enfrentou para chegar ao público. A metalinguagem involuntária é tão perfeita que parece algo escrito posteriormente para promover o longa. Não foi necessário. A indústria fez esse trabalho sozinha.

Ainda assim, reduzir o filme à sua turbulenta história de bastidores seria cometer outra injustiça com ele. “Coyote Vs. Acme” merece existir não porque virou símbolo de uma discussão sobre preservação artística, decisões empresariais ou filmes tratados como números em planilhas. Merece existir porque é bom. Parece uma distinção básica, mas ela se torna necessária diante de uma produção que passou tanto tempo sendo discutida pelo que aconteceu fora da tela.

Dentro dela, existe uma comédia visual extremamente bem resolvida, com uma integração entre animação e live-action que preserva aquilo que existe de artificial nos Looney Tunes em vez de tentar encaixá-los desesperadamente em alguma ideia de realismo. O Coiote precisa parecer deslocado daquele mundo porque ele pertence a uma realidade em que pintar um túnel sobre uma parede pode funcionar perfeitamente para o Papa-Léguas e provocar uma concussão em qualquer outra criatura.

Dave Green entende essa gramática e permite que o filme abrace o exagero. Os corpos humanos e animados não obedecem necessariamente às mesmas regras, as sequências de ação podem caminhar para o completo absurdo e a direção nunca parece preocupada em justificar por que aquilo está acontecendo. É desenho animado. Algumas coisas são melhores quando ninguém tenta explicá-las.

Essa liberdade também impede que a produção caia na armadilha do cinismo. Há algo bastante sincero na maneira como “Coyote Vs. Acme” trata seus personagens. O longa gosta dos Looney Tunes e não tenta esconder esse afeto atrás de referências irônicas ou piadas sobre como tudo aquilo seria antiquado. Existe nostalgia, claro, mas ela não substitui uma história. Para uma indústria que frequentemente confunde reconhecimento com emoção, essa diferença vale muito.

O resultado está entre os melhores exemplos recentes de como personagens clássicos podem retornar sem parecer cadáveres culturais reanimados para cumprir metas trimestrais. Existe uma compreensão verdadeira do que torna Wile E. Coyote interessante, uma utilização inteligente do universo da ACME e uma sátira que consegue atingir justamente o tipo de estrutura empresarial responsável por decidir quais histórias merecem ou não continuar existindo.

Talvez por isso seja impossível assistir ao longa sem sentir que sua existência ganhou um significado que ninguém poderia planejar quando o roteiro começou a ser desenvolvido. “Coyote Vs. Acme” fala sobre insistir depois do fracasso, continuar tentando quando todas as estruturas parecem trabalhar contra você e descobrir que algumas batalhas absurdas ainda merecem ser compradas. Não porque toda insistência será recompensada, mas porque desistir também significa permitir que alguém determine quando chegou a hora de desaparecer.

Wile E. Coyote continua perseguindo aquilo que sempre parece estar alguns metros à sua frente. A diferença é que “Coyote Vs. Acme” finalmente permite que o personagem olhe para outro lado e perceba que talvez o maior problema nunca tenha sido o Papa-Léguas. Depois de tantos anos sendo explodido por produtos defeituosos, o verdadeiro absurdo era ninguém ter chamado um advogado antes.

“Coyote Vs. Acme”
Direção:
Dave Green
Elenco: Will Forte, John Cena, Lana Condor e participações dos personagens clássicos dos Looney Tunes
Disponível em: cinemas brasileiros

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 4 de 5.

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Temas: CríticaJohn CenaResenhaReviewWill Forte

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