Quando a ideia de família perfeita começa a rachar, o suspense encontra um terreno fértil para expor culpas, silêncios e decisões tomadas tarde demais. É nesse ponto de desconforto que “Custe o Que Custar” constrói sua espinha dorsal, usando o desaparecimento de uma filha como gatilho narrativo para discutir até onde alguém realmente conhece quem está ao seu lado.

A série parte de um cenário aparentemente estável. Simon Greene vive uma rotina organizada, cercado por afetos e conquistas profissionais, mas tudo se desmancha no instante em que Paige desaparece e retorna à sua vida como um reflexo doloroso do que foi ignorado. O reencontro em um parque, com a filha fragilizada pelo uso de drogas, sintetiza o tom da produção. Nada aqui se apoia em conforto emocional, e o roteiro faz questão de conduzir o espectador por caminhos cada vez mais opressivos.
Baseada no livro homônimo de Harlan Coben, a adaptação segue a cartilha clássica do autor, com múltiplas tramas paralelas, personagens que escondem mais do que aparentam e uma sensação constante de que a verdade sempre está alguns passos à frente. A estrutura aposta no excesso como estratégia, apresentando uma quantidade quase sufocante de personagens logo no início, mas essa escolha funciona como uma promessa de convergência futura, algo recorrente nas obras do escritor.
James Nesbitt entrega um protagonista movido pela raiva e pela culpa, um pai que tenta compensar ausências passadas com atitudes impulsivas. Simon é um homem quebrado tentando manter a própria narrativa sob controle, mesmo quando tudo ao redor aponta para o colapso. A série ganha ainda mais densidade com a presença de Minnie Driver, cuja personagem, Ingrid, começa como apoio emocional, mas rapidamente revela camadas que reposicionam sua importância dentro da trama.
A investigação policial surge menos como centro dramático e mais como elemento de pressão constante. O olhar dos detetives funciona como espelho para o público, sempre questionando se a versão apresentada por Simon merece confiança. Ao mesmo tempo, a introdução da investigadora particular Elena amplia o universo da série e reforça a ideia de que todas as histórias estão conectadas por segredos antigos, mesmo quando parecem desconectadas à primeira vista.
O texto equilibra tensão e pequenos momentos de humor, ainda que esse tom ocasional soe deslocado diante da gravidade dos acontecimentos. Mesmo assim, a narrativa segue eficiente ao explorar o desgaste emocional dos personagens e a sensação de que cada escolha carrega consequências irreversíveis. Não existe ingenuidade no modo como a série enxerga laços familiares. Amor, aqui, surge como algo falho, contraditório e, muitas vezes, insuficiente.
“Custe o Que Custar” talvez não reinvente o suspense televisivo, mas entrega um produto sólido, bem interpretado e fiel ao universo de Harlan Coben. O verdadeiro mistério não está apenas no crime, mas na incapacidade dos personagens de enxergar uns aos outros sem máscaras. É esse desconforto silencioso que sustenta a série e mantém o interesse até o último episódio.
“Custe o Que Custar”
Criação e direção: Danny Brocklehurst
Elenco: James Nesbitt, Minnie Driver, Ruth Jones, Ellie de Lange, Alfred Enoch
Disponível em: Netflix
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