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Crítica: “Da Magia À Sedução: Feitiço De Amor” (Practical Magic 2)

Texto: Ygor Monroe
12 de setembro de 2026
em Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas

Existem continuações que retornam ao passado porque sabem que existe uma audiência disposta a pagar pela lembrança. Outras entendem que reencontrar personagens depois de décadas só possui algum valor quando o tempo transcorrido também modifica aquilo que a história tem a dizer sobre eles. “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” poderia facilmente pertencer ao primeiro grupo. Sandra Bullock, Nicole Kidman, bruxaria, romance, uma casa imediatamente reconhecível e toda a iconografia necessária para transformar nostalgia em produto estão novamente disponíveis. Felizmente, Susanne Bier parece mais interessada em descobrir quem essas mulheres se tornaram do que simplesmente reproduzir quem elas eram.

Crítica: “Da Magia À Sedução: Feitiço De Amor” (Practical Magic 2)
Crítica: “Da Magia À Sedução: Feitiço De Amor” (Practical Magic 2)

Essa escolha não elimina os excessos de uma continuação estranhíssima, irregular e ocasionalmente descontrolada. Na verdade, o filme parece abraçá-los. Há momentos em que “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” parece estar a poucos segundos de perder completamente o domínio sobre seu próprio ritmo, suas regras sobrenaturais e até sobre o tom que pretende estabelecer. Curiosamente, existe alguma coerência justamente nessa falta de controle. É um filme bagunçado sobre uma família bagunçada, construído ao redor de mulheres que passaram a vida tentando organizar sentimentos, relações e maldições que nunca obedeceram completamente às suas vontades.

Sally e Gillian Owens estão mais velhas, mas continuam presas à mesma genealogia sobrenatural que determinou boa parte de suas vidas. A maldição que atravessa a família Owens permanece associada ao amor e à morte, condenando as mulheres da linhagem a conviver com a possibilidade de perder aqueles por quem se apaixonam. O retorno das irmãs acontece justamente quando essa herança assume novas proporções e ameaça não apenas seus relacionamentos, mas a continuidade da própria família.

Seria extremamente simples transformar essa premissa em uma repetição estrutural do primeiro “Da Magia à Sedução”. Susanne Bier, porém, desloca a perspectiva. O amor romântico continua importante, mas já não ocupa sozinho o centro emocional da história. O que interessa ao filme é compreender o amor como uma rede muito mais ampla, construída entre irmãs, mães, filhas, tias e diferentes gerações de mulheres que carregam simultaneamente afeto e ressentimento umas pelas outras. Essa talvez seja a melhor decisão do longa.

“Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” entende que a verdadeira herança das Owens nunca foi apenas a magia. Foram as mulheres. A bruxaria continua funcionando como manifestação visual dessa ancestralidade, mas o elemento sobrenatural encontra força justamente porque existe uma estrutura familiar por trás dele. Poderes são transmitidos, assim como traumas, expectativas, medos, responsabilidades e maneiras de amar. O filme consegue estabelecer uma relação interessante entre essas duas formas de herança sem precisar transformar cada elemento emocional em uma metáfora excessivamente explicada.

Sandra Bullock compreende perfeitamente esse deslocamento. Sally continua carregando uma necessidade quase instintiva de proteger aquilo que ama, mas a personagem agora possui uma consciência diferente sobre os limites dessa proteção. O tempo não apagou aquilo que aconteceu, tampouco transformou Sally em alguém completamente resolvida. Existe uma maturidade construída precisamente sobre a percepção de que sobreviver a alguma coisa não significa necessariamente superá-la.

Bullock trabalha essa dimensão sem abandonar a elasticidade cômica que sempre tornou Sally tão interessante. Existe algo particularmente eficiente em observar uma personagem associada durante tanto tempo à tentativa de manter controle sobre o caos descobrir novamente que o caos não possui qualquer obrigação de colaborar.

Nicole Kidman encontra outro caminho com Gillian. Se Sally frequentemente tenta conter as coisas, Gillian continua carregando uma relação muito mais impulsiva com aquilo que sente. A diferença é que a impulsividade agora convive com experiência. Kidman não tenta interpretar a mesma mulher décadas depois como se nada tivesse acontecido entre as duas histórias. Sua Gillian preserva a espontaneidade, o humor e a sensualidade, mas existe uma consciência muito maior das consequências escondida por trás dessa aparente liberdade.

É justamente na reunião das duas que o filme recupera sua identidade com maior naturalidade. Bullock e Kidman não precisam convencer o público de que Sally e Gillian possuem uma história compartilhada. A intimidade entre elas aparece no modo como discutem, interrompem, provocam, protegem e compreendem uma à outra. Existe uma familiaridade que dificilmente poderia ser simulada apenas pelo roteiro.

Susanne Bier sabe explorar isso e frequentemente permite que as relações respirem antes que algum novo acontecimento sobrenatural interrompa a normalidade. Há uma sensualidade muito particular atravessando o filme, não necessariamente construída apenas pelo romance, mas pela própria maneira como os personagens ocupam os ambientes, tocam uns aos outros e estabelecem intimidade. A magia nunca está completamente separada do corpo. Ela passa pelo desejo, pelo medo, pelo envelhecimento e pela experiência acumulada.

Essa dimensão também ajuda o longa a se afastar da atmosfera mais confortável que poderia acompanhar uma continuação construída exclusivamente para fãs. “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” é consideravelmente mais interessado nas possibilidades sombrias de seu universo. A magia possui consequências mais perceptíveis, existe maior disposição para aproximar fantasia e horror e determinados acontecimentos carregam uma ameaça que impede o filme de funcionar apenas como uma celebração nostálgica.

A direção de Bier é particularmente eficiente quando precisa transformar ambientes familiares em lugares ligeiramente ameaçadores. A casa, os objetos e os espaços associados às Owens carregam memória, mas essa memória nunca é completamente confortável. Existe uma sensação constante de que qualquer lugar pertencente a uma família tão antiga também pertence, em alguma medida, aos fantasmas produzidos por ela. O problema aparece quando o roteiro tenta administrar todas essas ideias simultaneamente.

Com 2h10 de duração, “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” possui bastante tempo para desenvolver suas relações, mas paradoxalmente parece apressado em diversos momentos. Não se trata simplesmente de velocidade. O ritmo é irregular porque o filme quer resolver conflitos emocionais, ampliar a mitologia das Owens, introduzir novos personagens, trabalhar diferentes gerações, desenvolver a ameaça sobrenatural e ainda encontrar espaço para humor, romance e nostalgia.

Algumas transições parecem acontecer antes que uma ideia tenha terminado de amadurecer. Certas regras envolvendo a magia são apresentadas com uma segurança que desaparece quando o roteiro precisa modificá-las para acomodar outro acontecimento. Não chega a destruir a lógica interna do universo, mas existe uma flexibilidade conveniente demais em determinados momentos.

Essa irregularidade também atinge os personagens secundários. Nem todas as integrantes da família recebem a mesma atenção e algumas relações parecem muito mais importantes conceitualmente do que efetivamente dentro do filme. Antonia é um exemplo particularmente evidente. Sua posição dentro da genealogia das Owens permitiria uma exploração muito maior das transformações dessa família, mas o roteiro frequentemente a mantém na periferia de acontecimentos que deveriam envolvê-la diretamente.

Maisie Williams também surge em uma participação que desperta curiosidade justamente porque parece prometer mais do que o próprio filme pretende entregar naquele momento. Existe a sensação de que determinados personagens foram inseridos pensando não apenas nesta história, mas na possibilidade de continuidade desse universo. Isso não necessariamente compromete o longa, embora deixe algumas presenças estranhamente incompletas. Ainda assim, o roteiro encontra força suficiente nas relações centrais para sobreviver a essas lacunas.

Há também uma mudança interessante na forma como a maldição é compreendida. No primeiro filme, a ideia de amar alguém sabendo que esse sentimento poderia conduzir à morte carregava um componente essencialmente romântico. Aqui, depois de tantos anos, a questão inevitavelmente se transforma. Sally e Gillian não são mais mulheres descobrindo como construir suas vidas. São mulheres obrigadas a observar aquilo que construíram e pensar no que permanecerá depois delas. Isso modifica profundamente o significado da maldição.

Quando a história deixa de perguntar apenas quem você pode amar e começa a perguntar o que você deixa para aqueles que ama, “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” encontra sua identidade própria. A continuidade da família deixa de representar somente sobrevivência biológica. Existe uma discussão sobre aquilo que uma geração entrega à seguinte e, principalmente, sobre a possibilidade de interromper ciclos considerados inevitáveis durante séculos.

A magia funciona muito bem dentro dessa perspectiva porque permite materializar padrões familiares que, em qualquer outro drama, permaneceriam abstratos. Uma maldição ancestral é uma forma bastante literal de representar comportamentos, medos e dores transmitidos de geração para geração. O mérito está no fato de Bier não transformar essa leitura em discurso permanente. A fantasia continua sendo fantasia. O filme ainda quer ser divertido, estranho, romântico e ocasionalmente absurdo. E ele é genuinamente engraçado.

O humor talvez seja um dos elementos mais inesperados porque surge frequentemente da personalidade das próprias intérpretes. Há momentos em que Sandra Bullock e Nicole Kidman parecem trazer para Sally e Gillian uma espontaneidade muito próxima de suas próprias personas públicas. Em outro contexto, isso poderia romper completamente a construção dos personagens. Aqui, curiosamente, contribui para a sensação de reencontro.

Nem todas as piadas funcionam. Algumas parecem modernas demais para o universo estabelecido e determinadas escolhas de linguagem possuem uma autoconsciência que ameaça quebrar a atmosfera. O filme, porém, nunca se torna cínico em relação aos próprios personagens. Esse detalhe é fundamental.

Existe uma tendência em continuações tardias de transformar o passado em piada, como se demonstrar consciência sobre os elementos mais exagerados do original fosse necessário para justificar sua existência décadas depois. “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” não sente vergonha de “Da Magia à Sedução”. Ele pode atualizar sua linguagem, ampliar sua mitologia e até brincar com aquilo que essas personagens representam, mas preserva a sinceridade emocional que permitiu ao primeiro longa sobreviver culturalmente. Essa sinceridade é provavelmente responsável pelos momentos mais emocionantes da continuação.

A nostalgia está presente, evidentemente, mas não funciona apenas como mecanismo de reconhecimento. Rever Sally e Gillian possui algum significado porque elas envelheceram. Nicole Kidman e Sandra Bullock também envelheceram. O público que construiu uma relação com o primeiro filme igualmente atravessou décadas. Existe algo muito mais poderoso em permitir que essas mulheres apareçam transformadas pelo tempo do que fingir que o tempo nunca passou.

Por isso, o filme funciona melhor quando observa suas protagonistas como mulheres maduras e não simplesmente como personagens clássicas recuperadas para uma nova aventura. Há marcas emocionais acumuladas, relações que mudaram e responsabilidades diferentes. O reencontro ganha valor porque não existe possibilidade real de retornar ao ponto inicial.

Visualmente, Bier também compreende a importância de preservar certo caráter tátil desse universo. A magia possui objetos, texturas, plantas, ambientes e gestos. Mesmo quando os efeitos assumem proporções maiores, existe uma tentativa de manter o sobrenatural conectado ao cotidiano. Isso evita que a continuação abandone completamente a identidade doméstica que sempre diferenciou esse universo de fantasias mais espetaculares.

Não é uma produção impecável. O roteiro poderia ser muito mais disciplinado, determinadas relações mereciam desenvolvimento adicional e a mitologia sobrenatural nem sempre suporta o número de ideias colocadas sobre ela. Há momentos genuinamente estranhos, escolhas de humor discutíveis e uma quantidade considerável de acontecimentos competindo pela atenção do público. Mas talvez tentar domesticar completamente essa estranheza produzisse um filme menos interessante.

“Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” possui uma qualidade rara entre continuações realizadas tanto tempo depois do original: existe uma razão emocional para reencontrar essas personagens. Não é apenas uma oportunidade para vê las novamente usando magia. É a possibilidade de observar o que aconteceu com mulheres cuja história sempre esteve ligada ao medo de perder aqueles que amavam.

O resultado consegue ser mais sombrio, mais abertamente fantástico e, em certos momentos, mais emocionalmente ambicioso que seu antecessor. O primeiro “Da Magia à Sedução” possui uma atmosfera muito particular, quase impossível de reproduzir porque sua força também pertence ao período em que foi realizado e à relação que o público desenvolveu com ele ao longo dos anos. A continuação parece compreender que competir com essa memória seria inútil. Em vez disso, tenta construir outra coisa.

Susanne Bier encontra no envelhecimento de Sally e Gillian a oportunidade de transformar uma história sobre mulheres amaldiçoadas pelo amor em uma história sobre mulheres que aprenderam que amar nunca significou apenas romance. Significa permanecer, proteger, discutir, perdoar, transmitir, perder e continuar aparecendo quando alguém precisa.

É nesse ponto que toda a desordem narrativa encontra algum sentido. A família Owens nunca foi exatamente organizada, sua magia nunca foi completamente segura e seus sentimentos definitivamente nunca foram simples. Talvez uma continuação excessivamente calculada traísse justamente aquilo que deveria recuperar.

“Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” tropeça porque quer fazer muita coisa, mas existe coração suficiente por trás desses excessos para impedir que o filme se transforme apenas em nostalgia industrializada. Sandra Bullock e Nicole Kidman retornam porque existe algo diferente para interpretar nessas mulheres, e não somente porque o público queria vê las novamente.

A maior magia do filme continua sendo a relação entre as Owens. Tudo ao redor pode mudar, as regras podem ocasionalmente se embaralhar e o roteiro pode perder o controle de suas próprias ambições, mas quando essas mulheres estão juntas, “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” sabe exatamente qual história está contando.

“Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor”
Direção:
Susanne Bier
Elenco: Nicole Kidman, Sandra Bullock e Cassie Bradley
Disponível em: cinemas brasileiros

⭐⭐⭐

Avaliação: 3 de 5.

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Temas: Cassie BradleyCríticaNicole KidmanResenhaReviewSandra Bullock

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