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Crítica: “Depois do Fogo” (Rebuilding)

Texto: Ygor Monroe
6 de abril de 2026
em Cinemas/Filmes, Netflix, Resenhas/Críticas, Streaming

A imagem que fica não é o fogo consumindo tudo, mas o silêncio que vem depois. “Depois do Fogo” entende que tragédias não terminam quando as chamas se apagam, elas continuam ecoando nos gestos mais simples, nos olhares que evitam o passado e nas tentativas tímidas de seguir adiante. É nesse terreno emocional, quase árido, que o longa encontra sua força.

Crítica: "Depois do Fogo" (Rebuilding)
Josh O’Connor and Lily LaTorre appear in Rebuilding by Max Walker-Silverman, an official selection of the 2025 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Jesse Hope.

A trajetória de Dusty, interpretado por Josh O’Connor, se constrói longe de grandes discursos. Um homem deslocado, arrancado da própria história após perder o rancho em um incêndio, agora circula por um acampamento de trailers onde cada rosto carrega uma perda semelhante. A dor aqui não é espetáculo, é rotina. E isso diz muito sobre o tipo de cinema que o diretor Max Walker-Silverman escolhe fazer.

O filme se ancora em uma observação paciente, quase contemplativa, evocando ecos de obras como “Nomadland”, de Chloé Zhao, e até a intimidade fragmentada de “Aftersun”, de Charlotte Wells. Ainda assim, existe um calor próprio aqui, uma tentativa genuína de encontrar esperança em meio à devastação. É um cinema que prefere o sussurro ao invés do impacto imediato.

A relação entre Dusty e sua filha, Callie-Rose, evita fórmulas previsíveis. Não há grandes reconciliações ensaiadas, mas pequenos momentos que dizem mais do que qualquer diálogo elaborado. O mesmo vale para sua reaproximação com Ruby, vivida por Meghann Fahy, onde um simples olhar carrega mais história do que qualquer flashback poderia oferecer. São nesses detalhes que o filme encontra autenticidade.

Quando funciona melhor, “Depois do Fogo” se apoia justamente nesses vazios. Nos silêncios compartilhados, nas pausas desconfortáveis, nas tentativas de reconstrução que nunca parecem completas. Existe uma beleza crua nesse retrato de comunidade, onde pessoas que perderam tudo ainda encontram maneiras de cuidar umas das outras. A solidariedade surge como último recurso, quase instintivo.

Ainda assim, a narrativa tropeça quando decide organizar demais o próprio caos. O terceiro ato abandona parte dessa naturalidade e se aproxima de resoluções mais previsíveis, como se tentasse traduzir em palavras algo que até então funcionava melhor no não dito. Esse movimento tira um pouco da potência construída com tanta delicadeza ao longo do percurso.

Mesmo com essas oscilações, o trabalho de Josh O’Connor sustenta o filme com firmeza. Sua interpretação é contida, madura e profundamente humana, capturando um tipo de solidão que não precisa ser explicada. Existe um peso silencioso em cada cena que ele ocupa, e isso eleva tudo ao redor.

“Depois do Fogo” não busca respostas fáceis. Em vez disso, oferece um retrato honesto de pessoas tentando reorganizar a própria existência depois que tudo foi reduzido a cinzas. E nessa honestidade, ainda que imperfeita, reside sua maior qualidade.

“Depois do Fogo”
Direção: Max Walker-Silverman
Elenco: Josh O’Connor, Meghann Fahy, Kali Reis
Disponível em: Netflix

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 3.5 de 5.

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Temas: CríticaJosh O’ConnorKali ReisMeghann FahyResenhaReview

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