Catástrofes no cinema costumam prometer espetáculo, tensão e aquele sentimento coletivo de que algo grandioso está prestes a ruir diante dos nossos olhos. Quando essa engrenagem funciona, o público sai da sala impactado. Quando falha, resta apenas a sensação de que a água subiu, mas o drama não acompanhou. É exatamente nesse terreno instável que se apoia “Desastre Natural”, produção indiana que tenta dialogar com o cinema de calamidade internacional, mas acaba presa a uma tempestade de intenções desencontradas.

Durante muito tempo, o cinema indiano flertou pouco com o gênero desastre. A exceção mais lembrada é “The Burning Train”, lançado em 1980, uma aventura ferroviária que transformava trilhos em corredores de pânico e assumia sem pudor a influência dos épicos hollywoodianos da década de 1970. Desde então, o gênero reapareceu de forma esporádica, quase sempre dividido entre o melodrama e a ambição de grandiosidade técnica. “Desastre Natural” surge como uma dessas tentativas de conciliar emoção exacerbada e espetáculo visual.
A trama acompanha dois marinheiros que retornam à terra natal em busca de recomeço. O cenário é uma cidade marcada por uma barragem imponente, símbolo de progresso e, ao mesmo tempo, de ameaça latente. Ao redor dessa estrutura, orbitam romances mal resolvidos, rivalidades antigas, traumas familiares e um vilão responsável por cicatrizes que atravessam gerações. O roteiro aposta em uma teia de paixões cruzadas e ressentimentos acumulados, mas raramente aprofunda seus personagens a ponto de torná-los memoráveis.
O grande problema está na construção dramática. O filme exige envolvimento emocional, mas entrega caricaturas. Há amores que se declaram com intensidade operística, conflitos que surgem e desaparecem sem maturação e diálogos que soam mais ensaiados do que sentidos. O melodrama, quando bem calibrado, pode ser arrebatador. Aqui, ele pesa. A narrativa se arrasta em subtramas que prometem tensão política e denúncia de corrupção, especialmente quando uma das personagens tenta expor falhas estruturais na barragem. Esse trecho, curiosamente, é um dos mais interessantes, pois flerta com o suspense investigativo e aponta para um comentário social que poderia ter sido melhor explorado.
Quando a catástrofe finalmente chega, ela vem rápida. O desastre que deveria ser o clímax ocupa poucos minutos e encerra a história quase de maneira abrupta. Há mérito técnico em algumas miniaturas utilizadas para simular o rompimento e a força das águas. Nota-se empenho na execução visual, ainda que o impacto emocional não acompanhe o esforço estético. A escolha de lançar o filme em 3D também não favorece a experiência. O recurso, mal aproveitado, mais distrai do que intensifica a imersão.
A trilha sonora aposta em melodias etéreas, evocando uma dramaticidade constante que tenta conduzir o espectador ao sentimento certo. O problema é que emoção não se impõe apenas com música crescente. Ela precisa nascer da identificação. Sem isso, as cenas de desespero coletivo soam protocolares.
Ainda assim, há um valor curioso em observar “Desastre Natural” dentro do contexto de um cinema que busca dialogar com fórmulas globais. O longa revela uma indústria disposta a experimentar, mesmo que o resultado fique aquém das ambições. Existe aqui uma vontade de grandiosidade que esbarra na fragilidade do texto e na condução irregular do elenco.
Para quem acompanha o gênero desastre como um catálogo a ser explorado, a experiência pode ter um interesse quase antropológico. Para quem espera tensão crescente e personagens que façam o público temer por suas vidas, a frustração é inevitável. No fim, a água sobe, os conflitos se resolvem com pressa e a sensação predominante é a de potencial desperdiçado.
“Desastre Natural”
Direção: Sohan Roy
Elenco: Vinay Rai, Joshua Fredric Smith, Megha Burman
Disponível em: Amazon Prime Video
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