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Crítica: “Desastre Total: A Seita da American Apparel” (Trainwreck: The Cult of American Apparel)

Quem foi adolescente ou jovem adulto nos anos 2000 sabe que entrar em uma loja da American Apparel era quase um ritual de passagem para o universo indie cool. Tudo brilhava: as luzes cruas, os manequins sexualizados, as pilhas de leggings metalizadas que prometiam te transformar na estrela alternativa que você sempre sonhou ser. A trilha sonora, cuidadosamente escolhida para hipsters de primeira viagem, parecia gritar que você precisava desesperadamente daquele short minúsculo e daquela camiseta básica por uns 25 dólares, um absurdo para o pré-fast fashion.

Crítica: “Desastre Total: A Seita da American Apparel” (Trainwreck: The Cult of American Apparel)

É nesse terreno fértil para egos e delírios que “Desastre Total: A Seita da American Apparel” se instala. O documentário da Netflix resgata a ascensão meteórica e a queda ainda mais humilhante da marca que se dizia revolucionária, mas se mostrou um playground tóxico comandado por um predador chamado Dov Charney. O cara, fundador e ex-CEO, aparece como o típico gênio mimado que se acha dono do mundo, usando o discurso da liberdade sexual e da autoexpressão para esconder assédios, abusos e uma gestão financeira tão irresponsável quanto seu comportamento.

O filme tem esse formato rápido e quase superficial que a Netflix adora empurrar em suas séries documentais. Não é diferente aqui: em menos de uma hora, cumpre o checklist de mostrar o auge da marca, o declínio veloz e, claro, o lado podre de seu criador. É tudo muito bonito esteticamente, com recortes de passarelas, polaroids sensuais e o ambiente industrial-chique das lojas. Mas há uma sensação constante de que falta mergulhar mais fundo, especialmente nas histórias das vítimas, que ficam espremidas quase como um pós-créditos trágico. Elas mereciam muito mais tempo de tela do que Charney posando de rebelde incompreendido.

Ainda assim, o documentário consegue chocar. A certa altura, vemos Dov Charney se conectar com figuras do mesmo ecossistema tóxico, como Kanye West, o que faz o público soltar um “claro que sim” quase automático. É desconcertante perceber que esse cara, com um histórico tão pesado, foi parar na direção da YEEZY. Para quem achava que a cultura hipster dos anos 2000 era apenas boba e pretensiosa, descobre-se aqui o quanto ela também foi permissiva e conivente com abusos.

Os minutos finais são, de fato, um soco no estômago. A câmera não poupa o constrangimento, exibindo o vazio deixado pelas vítimas, que tentam reconstruir algum senso de dignidade depois do furacão de assédio e humilhação. É nesse ponto que o documentário se justifica: ao dar voz, ainda que por pouco tempo, a quem mais sofreu nas mãos de um “gênio criativo” que aplaudiam enquanto as dívidas cresciam e o ambiente de trabalho apodrecia.

No fim, “Desastre Total: A Seita da American Apparel” é mais um desses retratos breves do culto à personalidade que costuma nascer em volta de marcas “descoladas”. Mostra como a estética vende, seduz, engana e deixa cicatrizes profundas, tanto em quem compra quanto em quem trabalha por trás das vitrines iluminadas. É o tipo de história que faz questionar se, para existir um império da moda, sempre vai haver um séquito de jovens explorados, convencidos de que estão realizando um sonho, quando só estão servindo de combustível para um ego inflado e um caixa mal administrado.

Desastre Total: A Seita da American Apparel (2025)
Direção: não divulgado (produção Netflix)
Elenco: depoimentos de ex-funcionários e vítimas
Disponível em: Netflix

Avaliação: 3 de 5.

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