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Crítica: “(Des)controle”

Entre prazos apertados, cobranças silenciosas e taças que começam como refúgio e terminam como prisão, existe um retrato dolorosamente reconhecível da vida adulta. É nesse terreno instável que “(Des)controle” constrói sua narrativa, encarando o alcoolismo feminino sem glamour, sem filtro e sem a velha romantização da boemia intelectual.

Crítica: “(Des)controle”

Kátia Klein, interpretada por Carolina Dieckmann, é uma escritora de 45 anos atravessando um bloqueio criativo enquanto tenta sustentar uma rotina profissional e familiar que parece exigir dela mais do que qualquer ser humano pode oferecer. A primeira taça surge como anestesia. A segunda como companhia. A terceira como necessidade. O que começa como escape vira dependência, e o filme faz questão de mostrar cada estágio desse mergulho.

Não se trata de um drama estilizado. A direção de Rosane Svartman e Carol Minêm opta por uma estética funcional, direta, quase crua. A fotografia lembra campanhas institucionais, com iluminação clara e enquadramentos que privilegiam o cotidiano. Pode soar simples demais para quem busca virtuosismo visual. Ainda assim, essa escolha conversa com o tema. A banalidade da imagem reforça a banalização do álcool na sociedade brasileira.

O roteiro de Iafa Britz e Felipe Sholl estrutura a narrativa com começo, meio e fim bem definidos. Não há grandes experimentações formais. Há foco. O foco é a espiral. Os personagens ao redor de Kátia possuem menos camadas do que poderiam, o que reduz conflitos secundários. Ainda assim, o eixo central é forte o suficiente para sustentar o drama.

E é impossível ignorar o impacto emocional. “Descontrole” incomoda porque reconhecemos ali situações familiares demais. A mudança de humor após o primeiro gole. A falsa sensação de leveza. A ideia equivocada de que beber é sinônimo de sociabilidade, liberdade ou maturidade. O filme toca em uma ferida coletiva que atravessa gerações no Brasil, onde o álcool é culturalmente naturalizado, celebrado e incentivado desde cedo.

Existe algo particularmente potente na maneira como o longa retrata a progressão do vício. O espectador passa a antecipar a queda. Surge a esperança de que aquela será a última vez. Que agora ela vai parar. Que agora haverá controle. Mas o vício não funciona com lógica racional. E o filme respeita essa verdade, prolongando a agonia até o limite.

Carolina Dieckmann entrega uma performance que equilibra fragilidade e irritação, desespero e negação. Seu olhar carrega cansaço acumulado, frustração e culpa. Caco Ciocler e Júlia Rabello compõem o entorno emocional, funcionando como espelhos e contrapontos à protagonista. Ainda que os personagens secundários careçam de aprofundamento, cumprem o papel de mostrar que o vício nunca atinge uma única pessoa.

O filme também acerta ao evidenciar a falsa sensação de autonomia que o álcool oferece. Diferente de outras drogas que carregam estigmas mais explícitos, o álcool circula livremente em jantares, festas, reuniões familiares e ambientes corporativos. É socialmente aceito, legalizado e incentivado. Justamente por isso, seu perigo é subestimado.

O desfecho opta por uma rede de apoio sólida, oferecendo uma resolução que pode soar otimista demais diante da realidade de muitas pessoas. Nem todos têm essa estrutura. Nem todos conseguem interromper a queda a tempo. Ainda assim, a escolha narrativa não anula o impacto do percurso. O filme deixa claro que a recuperação é possível, mas exige confronto, vulnerabilidade e suporte.

“Descontrole” não busca espetáculo. Busca reconhecimento. Pode não apresentar uma direção visual sofisticada, pode não aprofundar todos os arcos paralelos, mas cumpre algo essencial. Coloca o alcoolismo feminino no centro da conversa, sem caricatura e sem moralismo excessivo.

Em um cenário onde o cinema nacional frequentemente precisa disputar espaço com grandes produções estrangeiras, é significativo ver uma obra que aposta em um tema social urgente e o trata com franqueza. O resultado é um drama direto, emocionalmente honesto e necessário.

“(Des)controle”
Direção
: Rosane Svartman, Carol Minêm
Elenco: Carolina Dieckmann, Caco Ciocler, Júlia Rabello
Disponível em: cinemas brasileiros

Avaliação: 4 de 5.

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