Há filmes que já começam cercados por uma aura estranha, como se o simples cenário fosse suficiente para criar desconforto. “Despertar dos Mortos Vivos” se apoia justamente nisso: uma loja de ferragens aparentemente banal que esconde segredos nada triviais. O espaço cotidiano se transforma em prisão, e a rotina ganha contornos sombrios, revelando como o terror pode nascer de corredores estreitos, prateleiras comuns e paredes que guardam mais do que se vê.
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O roteiro parte de uma premissa simples, mas a atmosfera construída nas primeiras cenas funciona melhor do que a própria narrativa. A sensação de estranheza inicial prende a atenção, e mesmo sem sair do mesmo ambiente, o filme mantém uma energia inquietante. O problema é que essa mesma energia nunca evolui. O mistério sobre o desaparecimento de um funcionário sustenta a trama por um tempo, mas quando chega a hora da revelação, tudo parece previsível demais, como se a investigação tivesse seguido em círculos para entregar uma resposta óbvia.
O protagonista não convence em sua jornada. Falta densidade para que suas reações diante do horror pareçam verossímeis, e a própria condução dos diálogos pesa contra o envolvimento. É como se o filme acreditasse que repetir olhares tensos e frases vagas bastasse para construir suspense. Suspense exige ritmo, exige escalada, e aqui o que se tem é uma curva que começa bem e termina sem força.
Ainda assim, não se pode ignorar o esforço técnico. Para um projeto de baixíssimo orçamento, a direção de Braden Swope entrega enquadramentos competentes e uma fotografia que ajuda a criar o clima claustrofóbico. O sangue no ato final aparece como recompensa tardia, oferecendo um pouco da visceralidade que o público espera de um terror independente. O detalhe curioso é que, mesmo limitado, o filme consegue parecer maior do que realmente é em alguns instantes.
O elenco oscila entre tentativas honestas e atuações que beiram o amadorismo. Há quem consiga extrair verdade de papéis mínimos, mas o conjunto carece de uniformidade. Esse descompasso, aliado a um texto frágil, torna o resultado irregular. O filme pede seriedade, mas muitas vezes escorrega para algo improvisado demais, como se tivesse sido concebido sem tempo para lapidar suas ideias.
No fim, “Despertar dos Mortos Vivos” representa mais a promessa do que o resultado. É interessante como exercício de atmosfera e como vitrine para um jovem diretor que ainda pode amadurecer muito. Mas como obra em si, fica a impressão de que havia uma boa ideia sufocada por limitações de roteiro e execução. O terror precisa de intensidade, de entrega, e aqui o que se vê é um lampejo que nunca chega a incendiar.
“Despertar dos Mortos Vivos“
Direção: Braden Swope
Elenco: Hugh McCrae Jr., Anthony Candel, Sarah José, Tim Misuradze, Michael Kammerer, Angel Hilton, Calvin Devereaux, Thomas Connelly, Alison Stolpa
Disponível em: Prime Video
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