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Crítica: “Deu Match: A Rainha de Apps de Namoro” (Swiped)

Existem histórias que parecem ter nascido para o cinema, porque carregam no DNA todos os elementos de um bom drama: ascensão meteórica, traição, reinvenção e, claro, muito poder em jogo. “Deu Match: A Rainha de Apps de Namoro” se insere nesse território ao transformar a trajetória de Whitney Wolfe em espetáculo audiovisual. É um filme que pretende dissecar o choque entre ambição feminina e um ambiente marcado pela cultura masculina tóxica, mas que acaba oscilando entre o retrato inspirador e um produto embalado demais para streaming.

Crítica: “Deu Match: A Rainha de Apps de Namoro” (Swiped)

A trama acompanha a vida de Wolfe, interpretada por Lily James, desde sua passagem como cofundadora do Tinder até o momento em que cria o Bumble, aplicativo que mudaria para sempre a forma como mulheres interagem em plataformas de namoro. O roteiro se organiza em torno dessa jornada de reinvenção: primeiro a queda, marcada por acusações de assédio e pela exclusão da jovem da empresa que ajudou a erguer; depois o renascimento, quando ela decide construir um espaço seguro para mulheres dentro do universo digital. A estrutura é clara, quase didática, e busca reforçar a ideia de que da adversidade nasce a revolução.

No entanto, é aqui que surge a contradição do longa. Enquanto “Deu Match” carrega um material de origem poderoso e atual, muitas vezes o filme escolhe simplificar demais sua narrativa, preferindo atalhos emocionais a um mergulho profundo nas engrenagens da indústria de tecnologia. A comparação com “A Rede Social” é inevitável, mas enquanto o clássico de David Fincher expôs com ferocidade o narcisismo e a ganância que moldaram o Facebook, aqui o olhar é mais polido, menos disposto a mergulhar nas zonas sombrias do poder digital.

Lily James, ainda assim, é o grande motor da produção. Sua interpretação traz energia, fragilidade e determinação em doses equilibradas, criando uma protagonista que convence tanto na vulnerabilidade quanto na ousadia. É por meio dela que o filme encontra humanidade em meio à rigidez de uma narrativa que por vezes se aproxima mais de um resumo biográfico do que de uma investigação cinematográfica.

Outro mérito é que a direção de Rachel Goldenberg evita demonizar todos os homens da trama. O sexismo é exposto, sim, mas sem cair em caricaturas. Essa escolha torna o filme mais humano e também mais próximo da realidade, já que o machismo estrutural raramente se apresenta de maneira unidimensional. Ainda assim, em muitos momentos a obra cede ao didatismo, e cenas que poderiam carregar tensão dramática acabam resolvidas em diálogos fáceis, quase como se fossem “eurekas” artificiais.

“Deu Match: A Rainha de Apps de Namoro” dialoga com uma memória recente, mas já nostálgica: os anos 2010, quando aplicativos de namoro estavam em ebulição e redesenharam completamente a forma como nos conectamos. O filme funciona como um lembrete de que nossos celulares se tornaram arenas de poder, de disputa e de monetização dos afetos. E, mais do que isso, que a luta de mulheres por espaço dentro da tecnologia continua tão urgente hoje quanto no início da última década.

O resultado final pode não ser um grande filme em termos de linguagem, mas cumpre seu papel de provocar reflexão sobre a forma como relações pessoais, profissionais e emocionais foram transformadas por pequenos toques de tela. É menos uma obra-prima e mais um espelho cultural que insiste em nos lembrar que a tecnologia não é neutra e que, por trás de cada aplicativo, existem histórias de luta, exclusão e resistência.

“Deu Match: A Rainha de Apps de Namoro”
Direção: Rachel Goldenberg
Roteiro: Rachel Goldenberg, Kim Caramele
Elenco: Lily James, Myha’la Herrold, Jackson White
Disponível em: Disney+

Avaliação: 3 de 5.

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