Alguns filmes surgem como promessas de experiências imersivas, mas deixam no espectador a sensação de um ensaio inacabado. “Dia de Caça” é exatamente isso: um projeto que caminha entre a atmosfera do mistério e o fascínio da floresta, mas que não consegue sustentar o peso de suas próprias ideias. O longa aposta no impacto visual e na ambientação, mas se devia na construção narrativa e na profundidade dos personagens.
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A trama parte de uma premissa curiosa: Nina, uma trabalhadora sexual, se perde em uma floresta e encontra um grupo de homens em plena despedida de solteiro. O encontro inesperado abre espaço para uma convivência que mistura acolhimento e tensão, revelando dinâmicas de poder, afeto e instinto. Há algo de inquietante nessa aproximação, como se a floresta fosse um palco silencioso onde as máscaras sociais caem. Porém, quando a narrativa poderia mergulhar nesse jogo psicológico, o filme prefere permanecer na superfície.
Visualmente, “Dia de Caça” impressiona. A fotografia de Vincent Gonneville transforma a mata em um organismo vivo, um espaço que respira e impõe sua própria presença à narrativa, mesmo quando os personagens parecem não ter muito a dizer. O silêncio das árvores, o isolamento e os jogos de luz constroem uma atmosfera que segura o espectador, ainda que o roteiro vacile. Essa força estética, no entanto, acaba funcionando como um disfarce: cobre as fragilidades da história sem nunca realmente preenchê-las.
As atuações são consistentes. Nahéma Ricci entrega intensidade a Nina, conseguindo sustentar a personagem em meio às limitações do texto. Bruno Marcil também se destaca, trazendo camadas a um papel que poderia ter ficado genérico. O elenco, de maneira geral, mantém uma energia que equilibra os diálogos desiguais, mesmo quando eles parecem se perder em reflexões banais que flertam com grandes questões, mas não chegam a se aprofundar.
O problema maior de “Dia de Caça” é sua falta de ambição narrativa. A obra se propõe a discutir o espírito de grupo, a mentalidade de bando, os laços criados a partir de circunstâncias improváveis. Na teoria, é um território fértil para o cinema, que tantas vezes se alimenta dessas tensões sociais. Na prática, o filme oferece observações básicas, como se tivesse receio de enfrentar o desconforto real dessas relações. A promessa de um mergulho na psicologia do coletivo nunca se concretiza.
Ainda assim, há méritos. O clima é mantido com consistência e a floresta se impõe como metáfora do desconhecido, do imprevisível que ronda os personagens. Alguns momentos isolados sugerem a possibilidade de um filme mais contundente, capaz de provocar desconforto e reflexão. Mas são lampejos que se apagam rapidamente diante de um roteiro pouco focado e de personagens que parecem não evoluir.
“Dia de Caça” se apresenta como uma experiência visualmente marcante, mas narrativamente instável. É uma obra que quase encontra sua força, mas se contenta em ser uma bela paisagem sem profundidade, um convite que desperta curiosidade mas não entrega respostas.
“Dia de Caça”
Direção: Annick Blanc
Elenco: Nahéma Ricci, Frédéric Millaire-Zouvi, Alexandre Landry, Noubi Ndiaye, Lou Thompson, Bruno Marcil, Marc Beaupré, Maxime Genois, Mattis Savard-Verhoeven
Disponível em: Looke
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