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Crítica: “Diabolic”

Certas histórias de terror não nascem do escuro, nascem da fé distorcida. “Diabolic” cutuca justamente esse ponto frágil onde crença vira fanatismo e cura vira convite ao abismo. Não é um filme interessado em atacar uma religião inteira, mas em expor as rachaduras de um núcleo radical que transforma devoção em mecanismo de controle.

Crítica: “Diabolic”

A trama acompanha uma mulher que retorna ao local onde viveu um trauma ligado a uma seita fundamentalista. A promessa é de libertação, de enfrentamento, de encerramento de ciclo. Só que revisitar o epicentro da dor raramente fecha feridas. Muitas vezes, reabre. Ao buscar uma cura milagrosa, ela acaba libertando o espírito vingativo de uma bruxa amaldiçoada que deseja possuir seu corpo e, através dele, recuperar poder. A ideia de cura aqui é quase irônica. O que deveria purificar contamina.

Dirigido por Daniel J. Phillips, o longa tem algo de sonho febril. Embora ambientado na Virgínia, foi filmado na Austrália, o que cria uma sensação curiosa de deslocamento geográfico. A paisagem parece familiar e ao mesmo tempo ligeiramente errada, como a Nova York artificial recriada em Eyes Wide Shut. Essa desconexão funciona a favor da atmosfera. É como se o espaço físico também estivesse possuído.

O roteiro flerta com elementos que sempre alimentaram o imaginário em torno de comunidades religiosas extremas. Misticismo, rituais secretos, promessas de redenção pós morte, doutrinas que misturam simbolismo e poder. Para quem já mergulhou em narrativas de crimes reais envolvendo seitas, há um desconforto adicional. O terror deixa de ser apenas sobrenatural e passa a dialogar com estruturas muito humanas de manipulação.

A dinâmica é enxuta. Poucos personagens, praticamente uma única locação e um foco intenso na tensão psicológica. Elizabeth Cullen sustenta boa parte do peso dramático com vulnerabilidade convincente. John Kim e Terence Crawford orbitam essa espiral de medo com atuações sólidas, ajudando a manter o filme ancorado em emoções reais enquanto o sobrenatural ganha espaço.

“Diabolic” bebe na fonte do horror de possessão, mas evita a estrutura clássica de batalha entre padre e demônio tão comum em narrativas de matriz católica. Aqui o mal não é um intruso externo que invade um sistema puro. O mal parece já estar entranhado na própria fundação da comunidade. Essa escolha torna a experiência mais desconfortável.

Os sustos funcionam. Há jump scares eficientes, maquiagem competente e momentos de gore que surpreendem pelo impacto, especialmente considerando o orçamento modesto. Existe uma cena específica que eleva o filme alguns degraus, um momento de ruptura visual que transforma tensão acumulada em choque direto.

Nem tudo é inovação. O longa utiliza sonhos, visões e alucinações como ferramentas recorrentes. Alguns desses recursos soam familiares demais para quem acompanha o subgênero. Ainda assim, a atmosfera segura a experiência. A fotografia investe em sombras densas e enquadramentos que sugerem presenças fora de quadro. O design de som trabalha com sussurros e ruídos quase imperceptíveis, criando expectativa antes do ataque.

O resultado é um terror de baixo orçamento que entende suas limitações e trabalha dentro delas. Não reinventa o gênero, mas encontra personalidade ao tensionar fé, trauma e fanatismo. Para quem aprecia histórias de possessão com pano de fundo religioso menos convencional, é uma experiência válida.

“Diabolic” sugere que o verdadeiro demônio talvez não seja a entidade invocada, mas a necessidade humana de acreditar cegamente em algo, mesmo quando esse algo exige sangue como prova de devoção.

Diabolic
Direção: Daniel J. Phillips
Elenco: Elizabeth Cullen, John Kim, Terence Crawford, Luca Asta Sardelis, Mia Challis
Disponível em: breve nos cinemas

Avaliação: 3 de 5.

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