Alejandro González Iñárritu nunca demonstrou qualquer interesse em fazer cinema pequeno quando existe a possibilidade de transformar uma ideia em um acontecimento. Mesmo seus trabalhos mais íntimos carregam uma necessidade quase compulsiva de ampliar sentimentos, conflitos e neuroses até que eles ocupem cada centímetro da tela. Tom Cruise, por caminhos completamente diferentes, também passou boa parte da carreira recente transformando a própria presença no cinema em espetáculo. Colocar os dois no mesmo projeto, portanto, não poderia resultar em algo discreto. “Digger” é exatamente o tipo de filme que nasce quando duas figuras fascinadas pela própria capacidade de ultrapassar limites decidem construir uma sátira sobre homens que acreditam ser capazes de ultrapassar qualquer limite. A combinação é tão óbvia quanto perigosa e, durante pouco mais de duas horas, alterna momentos extraordinários de invenção visual com outros em que o filme parece gritar sua inteligência na esperança de que ninguém perceba o quanto algumas de suas ideias são mais simples do que a embalagem sugere.

A premissa acompanha um homem absurdamente poderoso que, depois de contribuir para uma catástrofe ambiental de escala global, decide que também será responsável por salvar o planeta. Tom Cruise interpreta essa figura como alguém acostumado a existir acima das consequências, um bilionário cuja relação com poder ultrapassou há muito tempo qualquer medida razoável de realidade. Quando o desastre ameaça não apenas o mundo, mas a narrativa que ele construiu sobre si mesmo, sua resposta não é desaparecer ou reconhecer silenciosamente a própria responsabilidade. Ele transforma a reparação em uma nova missão pessoal e, principalmente, em outra oportunidade para ocupar o centro da história.
É nessa contradição que “Digger” encontra sua melhor ideia. O protagonista não quer simplesmente consertar aquilo que destruiu, ele precisa ser reconhecido como o homem que salvou todos da destruição que ajudou a provocar. Iñárritu percebe o potencial grotesco dessa lógica e constrói um personagem para quem culpa, redenção, reputação e heroísmo praticamente pertencem ao mesmo departamento de relações públicas. O planeta pode estar entrando em colapso, mas existe algo ainda mais urgente para aquele homem: controlar a história que será contada sobre seu papel no colapso.
A escolha de Tom Cruise torna tudo imediatamente mais interessante porque é impossível ignorar aquilo que sua imagem representa dentro do cinema atual. Cruise passou anos construindo uma persona associada à ideia de superar aquilo que parecia fisicamente impossível, especialmente através da franquia “Missão: Impossível”. Seu corpo tornou-se parte da publicidade, da narrativa e do próprio espetáculo cinematográfico. Assistir ao ator interpretar um homem convencido de que pode resolver sozinho uma crise de proporções absurdas cria uma camada que “Digger” explora sem qualquer preocupação com sutileza.
Existe alguma coisa deliciosamente perversa em ver Cruise interpretar alguém intoxicado pela convicção de que sua capacidade individual pode resolver problemas muito maiores do que ele. Iñárritu utiliza a persona do ator como matéria dramática e transforma justamente aquilo que tornou Cruise uma das maiores estrelas de cinema do planeta em parte da piada. A insistência, a energia quase sobre humana, a necessidade de continuar avançando e a certeza de que sempre existe uma missão seguinte deixam de ser apenas qualidades heroicas e passam a revelar algo profundamente ridículo quando aplicadas a um personagem incapaz de compreender que determinados problemas não existem para que ele possa protagonizar sua solução.
O problema é que Iñárritu também parece sofrer exatamente da doença que pretende diagnosticar. “Digger” quer falar sobre ego através de um filme absolutamente apaixonado pelo próprio tamanho. Quer satirizar homens incapazes de perceber seus excessos enquanto constrói imagens tão monumentais que praticamente exigem reverência. Quer apontar a necessidade contemporânea de transformar qualquer tragédia em narrativa enquanto transforma uma catástrofe ambiental em um parque de diversões cinematográfico de orçamento gigantesco. Essa contradição poderia destruir o filme, mas curiosamente é também aquilo que o torna mais interessante.
Iñárritu nunca observa o excesso de uma distância segura porque ele próprio é um cineasta do excesso. “Digger” critica a megalomania com uma megalomania cinematográfica tão escancarada que, em determinados momentos, fica difícil estabelecer onde termina a sátira e começa o fascínio do diretor por tudo aquilo que está satirizando. Essa falta de distância produz algumas das melhores imagens do longa, mas também explica por que sua crítica social frequentemente parece menos profunda do que sua apresentação gostaria de sugerir.
Visualmente, é difícil negar o domínio técnico envolvido. A fotografia transforma escala em linguagem e utiliza a grandiosidade não apenas como demonstração de orçamento, mas como maneira de colocar o protagonista diante de um mundo grande demais até para sua própria concepção de poder. Iñárritu continua sendo um diretor extraordinariamente interessado no movimento da câmera, na relação entre corpos e espaço e na possibilidade de construir imagens que pareçam estar sempre prestes a escapar do controle. Existe uma agressividade visual em “Digger” que combina perfeitamente com sua energia narrativa.
A utilização do VistaVision amplia ainda mais essa sensação. O filme possui uma textura deliberadamente grandiosa, quase monumental, mas frequentemente usa essa dimensão para registrar situações ridículas. A graça deveria surgir justamente do contraste entre a importância visual atribuída aos acontecimentos e a pequenez moral das pessoas que os protagonizam. Em seus melhores momentos, funciona maravilhosamente bem. Há algo genuinamente engraçado em assistir a comportamentos patéticos sendo registrados com a solenidade de acontecimentos capazes de mudar a história da humanidade.
Só que Iñárritu não confia o suficiente nessa contradição. O diretor frequentemente parece acreditar que uma ideia só estará completamente comunicada depois de ser repetida, ampliada, gritada e novamente apresentada por outro ângulo. O maior problema de “Digger” não é ser excessivo, porque seu excesso é parte fundamental da proposta, mas confundir insistência com profundidade. O filme possui algumas ideias bastante claras sobre poder, capitalismo, crise climática, ego, fabricação de narrativas e necessidade de protagonismo, porém insiste tanto nelas que acaba reduzindo parte de sua força.
A sátira sofre especialmente com isso. Existe uma diferença enorme entre criar personagens deliberadamente absurdos e transformar praticamente qualquer interação em uma competição para descobrir quem consegue ser mais absurdo. Quando tudo é exagerado, o exagero perde referência. Quando todos parecem estar gritando, o silêncio deixa de existir como possibilidade dramática. Quando cada situação precisa reafirmar que o mundo enlouqueceu, chega um momento em que a loucura deixa de causar estranhamento e passa a funcionar apenas como decoração.
Essa característica torna a experiência propositalmente cansativa, mas nem todo cansaço provocado por uma obra precisa ser automaticamente interpretado como uma vitória estética. Há uma tendência perigosa em defender qualquer desconforto produzido por uma sátira como se o simples fato de incomodar comprovasse sua inteligência. “Digger” realmente quer desgastar o espectador, colocá-lo dentro de uma realidade barulhenta e incapaz de reconhecer os próprios limites, mas há momentos em que o filme deixa de ser desagradável porque sua sátira está funcionando e passa a ser desagradável simplesmente porque Iñárritu não sabe quando encerrar uma piada.
A comédia, aliás, é provavelmente o elemento mais irregular. “Digger” quer provocar um riso nervoso diante de uma realidade tão deformada que já não existe uma fronteira confortável entre tragédia e absurdo. O problema é que o roteiro frequentemente demonstra uma ansiedade enorme para garantir que percebamos onde está a piada. Existe muito esforço para produzir espontaneidade, muita engenharia para fabricar caos e uma necessidade quase sufocante de fazer cada situação carregar algum significado adicional.
É uma escolha curiosa porque o mundo retratado já é suficientemente absurdo sem precisar ser empurrado o tempo inteiro. Um bilionário responsável por uma catástrofe tentando reconstruir sua imagem como salvador da humanidade é uma premissa forte justamente porque parece ridícula e estranhamente plausível ao mesmo tempo. A presença de figuras políticas e algumas das pessoas mais poderosas daquele universo amplia a sátira sobre uma elite que acredita poder administrar as consequências de suas próprias decisões como se estivesse corrigindo uma planilha. Quanto mais próximo “Digger” permanece dessa lógica, mais afiado se torna. Quanto mais tenta transformar essa ideia em um grande tratado sobre a falência da realidade, mais começa a perder precisão.
Há uma questão particularmente interessante no modo como o filme aborda nossa necessidade de organizar acontecimentos através de histórias. Diante de uma crise, seus personagens imediatamente procuram culpados, heróis, explicações, estratégias de comunicação e versões capazes de tornar o caos compreensível. Não basta que alguma coisa aconteça, é preciso determinar quem controlará seu significado. O protagonista compreende instintivamente essa lógica e percebe que sobreviver ao desastre não será suficiente se outra pessoa controlar a maneira como ele será lembrado.
Nesse aspecto, “Digger” dialoga diretamente com preocupações que Iñárritu já explorou em “Birdman” e “Bardo”. Existe novamente um interesse pela distância entre aquilo que alguém é e a narrativa que constrói sobre si mesmo, mas agora essa obsessão ganha proporções globais. O ego não está apenas destruindo relações pessoais ou reorganizando memórias. Ele possui dinheiro, influência, acesso político e recursos suficientes para interferir concretamente na vida de milhões de pessoas.
A crise ambiental funciona muito mais como estrutura para essa discussão do que como tema tratado de maneira verdadeiramente aprofundada. Quem esperar de “Digger” uma investigação particularmente sofisticada sobre emergência climática provavelmente encontrará algo bem diferente. Iñárritu está mais interessado na resposta humana ao desastre e, principalmente, na facilidade com que responsabilidade pode ser transformada em espetáculo de redenção. O filme percebe com bastante inteligência que, em uma sociedade obcecada por personalidades, até a tentativa de salvar o planeta corre o risco de virar campanha de imagem.
Tom Cruise abraça completamente essa dimensão do personagem. Quando o filme reduz a velocidade e permite que o ator faça mais do que correr atrás da próxima manifestação visual da insanidade do roteiro, sua atuação ganha uma complexidade que o espetáculo às vezes esconde. Existe fragilidade por baixo daquela confiança e, principalmente, um desespero quase infantil diante da possibilidade de deixar de controlar a própria imagem.
É justamente nesses momentos que Cruise lembra por que sua condição de estrela frequentemente ofusca o fato de que ele continua sendo um ator extremamente capaz. O personagem funciona melhor quando a performance abandona temporariamente a grandiosidade e permite perceber o homem escondido dentro daquela construção monstruosa de poder. Sua necessidade de salvar o mundo começa a parecer menos heroica e muito mais desesperada quando entendemos que talvez ele não suporte a possibilidade de existir em uma realidade na qual não seja necessário.
Sandra Hüller encontra um terreno muito confortável dentro desse universo porque possui uma habilidade excepcional para navegar situações absurdas sem precisar sinalizar constantemente que compreendeu a piada. Sua presença oferece ao filme um tipo diferente de energia, menos desesperada e justamente por isso capaz de expor o ridículo ao redor. Em um longa no qual quase todos parecem competir pela atenção do espectador, Hüller sabe que fazer menos pode ser muito mais perturbador.
Riz Ahmed também se destaca justamente porque consegue sobreviver ao caos sem ser engolido por ele. Sua atuação encontra humanidade em um filme que frequentemente trata seus personagens como peças de uma gigantesca máquina conceitual. Quando Ahmed entra em cena, existe finalmente a impressão de que alguém está reagindo ao absurdo em vez de simplesmente participar dele, e essa diferença oferece ao longa alguns de seus momentos mais eficientes.
Ainda assim, “Digger” permanece essencialmente um confronto entre Cruise e Iñárritu. O diretor utiliza tudo aquilo que o ator representa enquanto Cruise parece compreender perfeitamente que sua própria imagem está sendo desmontada diante da câmera. Existe coragem nessa colaboração porque o filme depende de uma estrela disposta a permitir que características associadas ao seu poder cinematográfico sejam transformadas em objeto de sátira.
O resultado é fascinante mesmo quando irrita profundamente. Talvez essa seja a contradição mais honesta de “Digger”. É fácil admirar sua realização técnica e, segundos depois, desejar que alguém tivesse entrado na sala de montagem para dizer que determinada ideia já havia sido compreendida vinte minutos antes. É possível reconhecer a inteligência de sua construção enquanto se questiona por que um filme tão interessado em denunciar egos gigantescos precisa ocupar tanto espaço para comunicar pensamentos relativamente diretos.
Esse conflito também aparece no ritmo. As duas horas de duração são carregadas por uma energia quase maníaca, como se qualquer pausa pudesse permitir que o espectador escapasse do universo construído por Iñárritu. Quando essa velocidade funciona, “Digger” possui uma força impressionante. Quando deixa de funcionar, a experiência se torna sufocante e a insistência começa a substituir progressão dramática.
Existe uma criatura específica que resume perfeitamente a insanidade estética do projeto: Maggie, uma gata animatrônica de um olho só que, dentro de um filme povoado por figuras deliberadamente exageradas, consegue paradoxalmente parecer uma das presenças mais naturais daquele universo. O fato de uma gata animatrônica conseguir transmitir uma sensação maior de realidade do que vários seres humanos ao redor dela talvez seja uma piada intencional, talvez seja consequência do próprio dispositivo criado por Iñárritu, mas funciona de qualquer maneira. Em “Digger”, a realidade já foi tão deformada que o artificial pode parecer estranhamente honesto.
É justamente por isso que o longa se torna difícil de descartar mesmo quando sua sátira falha. Há ideias visuais genuinamente brilhantes, um ator disposto a colocar a própria persona em julgamento e um cineasta que continua tratando o cinema como um espaço onde ambição ainda pode significar alguma coisa. Prefiro um filme que fracasse tentando ser grande a uma produção incapaz de demonstrar qualquer convicção, mas ambição por si só não transforma excesso em profundidade, e “Digger” frequentemente parece esquecer dessa diferença.
Iñárritu construiu um filme sobre um homem incapaz de aceitar que talvez não consiga salvar tudo e, ironicamente, dirige como alguém incapaz de aceitar que talvez não precise colocar tudo dentro do mesmo filme. A contradição é maravilhosa porque transforma “Digger” quase involuntariamente em uma extensão de seu protagonista. Ambos possuem dinheiro, recursos, convicção, talento e uma necessidade desesperada de demonstrar que são capazes de realizar algo gigantesco.
Quando funciona, o resultado é um espetáculo visual estranho, agressivo e genuinamente estimulante. Quando não funciona, parece uma palestra caríssima apresentada por alguém que aumentou o volume porque percebeu que seu argumento não era tão complexo quanto imaginava. “Digger” quer cavar até encontrar alguma grande verdade sobre o ego contemporâneo, mas às vezes faz tanto barulho durante a escavação que não percebe que a resposta estava muito mais próxima da superfície.
Talvez essa imperfeição seja justamente o elemento que impede o filme de se tornar apenas mais uma sátira polida sobre bilionários terríveis e um planeta condenado. “Digger” é bagunçado demais, vaidoso demais e visualmente obcecado demais consigo mesmo para ocupar uma posição confortável de superioridade moral. Iñárritu não observa a megalomania de fora. Ele entra nela, constrói um monumento e começa a filmar.
O resultado está longe de ser equilibrado, mas equilíbrio nunca pareceu fazer parte do projeto. “Digger” prefere provocar exaustão a indiferença e assume o risco de ser ridículo para tentar alcançar alguma coisa maior. Nem sempre alcança, e algumas de suas grandes provocações chegam ao público com a delicadeza de uma britadeira. Ainda assim, existe cinema pulsando em praticamente cada decisão, inclusive nas ruins.
“Digger” funciona melhor quando deixa de tentar provar que compreendeu o absurdo do nosso tempo e simplesmente permite que esse absurdo ocupe a tela. Tom Cruise encontra uma utilização extremamente inteligente para a própria imagem, Iñárritu reafirma sua capacidade quase irritante de criar imagens extraordinárias e o filme emerge como uma sátira tão fascinada pelo excesso quanto crítica a ele. É grandioso, inconveniente, tecnicamente impressionante, ocasionalmente engraçado, frequentemente exaustivo e impossível de confundir com uma obra feita sem personalidade. Para um filme sobre um homem que destruiu parte do mundo e decidiu que apenas ele poderia consertá-lo, talvez não exista forma mais apropriada.
“Digger”
Direção: Alejandro González Iñárritu
Elenco: Tom Cruise, Sandra Hüller e Riz Ahmed
Disponível em: cinemas brasileiros
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