Algumas histórias começam como um reencontro forçado e terminam revelando feridas que o tempo preferiu empurrar para debaixo do tapete. Aqui, a ação surge como pretexto, o humor como válvula de escape e o vínculo familiar como o verdadeiro campo de batalha. O que parece mais um filme de pancadaria entre dois brutamontes logo se revela um estudo curioso sobre luto, identidade e herança emocional, embalado por explosões, piadas politicamente incorretas e uma química difícil de ignorar.

“Dupla Perigosa” parte de uma morte envolta em mistério no Havaí para colocar frente a frente dois meio-irmãos que jamais aprenderam a ocupar o mesmo espaço. Jonny e James carregam trajetórias opostas, quase caricatas, mas intencionalmente complementares. Um policial impulsivo que reage antes de pensar. Um militar rígido que pensa antes de sentir. A conspiração que os une funciona menos como motor narrativo e mais como espelho das fraturas emocionais que definem essa relação.
A direção de Angel Manuel Soto entende bem o território que pisa. Existe um cuidado visível em transformar o Havaí em algo além de um cartão-postal exótico. O cenário dialoga com os personagens, com suas raízes e deslocamentos, da mesma forma que o cineasta já havia feito em “Blue Beetle” ao trabalhar identidade cultural como textura dramática. Mesmo quando a estética entrega aquele verniz típico de produções pensadas para streaming, a mise-en-scène encontra respiros de personalidade, especialmente nas sequências de ação mais físicas e menos dependentes de efeitos digitais.
O roteiro de Jonathan Tropper aposta em diálogos ácidos, humor agressivo e um flerte constante com o excesso. Nem todas as piadas envelhecem bem e algumas escolhas soam mais provocativas do que realmente inteligentes. Ainda assim, há um entendimento claro de que o coração da história está na disfunção emocional desses irmãos, e é ali que o texto encontra seus melhores momentos. Quando o filme desacelera e permite que o silêncio fale, a narrativa ganha densidade.
Jason Momoa e Dave Bautista entregam exatamente o que se espera deles e, surpreendentemente, um pouco mais. A dinâmica entre os dois sustenta o filme do início ao fim. Bautista assume o papel mais contido, quase estoico, enquanto Momoa ocupa o espaço do caos calculado. A troca entre eles carrega uma energia que remete diretamente às buddy movies dos anos 1980 e 1990, com ecos de produções que entendiam a ação como espetáculo, mas também como palco para relações masculinas em conflito.
O filme se alonga além do necessário e em certos momentos parece hesitar entre ser uma comédia escrachada ou um drama de reconciliação travestido de filme de ação. Ainda assim, dentro do universo das produções originais de streaming, “Dupla Perigosa” se posiciona acima da média. Não revoluciona o gênero, tampouco reinventa fórmulas conhecidas, mas entrega entretenimento honesto, carisma de sobra e algumas sequências realmente inspiradas.
No fim das contas, trata-se de um filme que entende suas limitações e trabalha dentro delas. Talvez perdesse força em uma sala de cinema tradicional, mas no conforto do streaming encontra o espaço ideal para existir. Uma produção consciente de seu papel, que aposta no carisma de seus protagonistas e na nostalgia do gênero para construir algo funcional, divertido e emocionalmente mais interessado do que aparenta à primeira vista.
“Dupla Perigosa”
Direção: Angel Manuel Soto
Roteiro: Jonathan Tropper
Elenco: Jason Momoa, Dave Bautista, Claes Bang
Disponível em: Amazon Prime Video
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